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Dark Horse e o wi-fi de ouro: a “anti-Rouanet” que ama verba pública

Dark Horse e o wi-fi de ouro: a “anti-Rouanet” que ama verba pública

Dark Horse e o wi-fi de ouro: a “anti-Rouanet” que ama verba pública

A tropa que grita “Lei Rouanet!” para qualquer artista que apareça em uma foto agora ganhou um roteiro novo. Segundo o Intercept, a produtora executiva de “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, também preside uma ONG que fechou contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalar Wi-Fi em áreas vulneráveis. E, de acordo com o Intercept, parte do dinheiro saiu antes de boa parte do serviço existir.

Aqui não tem “mimimi cultural”. Tem dinheiro público, metas, cronograma e medição. E, no direito administrativo, quem paga por entrega precisa provar a entrega.

E, sim, isso dói porque expõe o duplo padrão: quem demoniza lei de incentivo pede silêncio quando o próprio lado encosta no cofre. Só que cofre público tem chave: transparência.

O filme heroico e a planilha teimosa

De acordo com o Intercept, Karina Ferreira da Gama aparece como produtora executiva do longa e como presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB). O termo com a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT), assinado em junho de 2024, previa 5.000 pontos de Wi-Fi por 12 meses, a R$ 1.800 por ponto ao mês.

Mas o mesmo Intercept relata que o Tribunal de Contas do Município apontou ao menos 20 irregularidades no edital e recomendou não prosseguir. Mesmo assim, a gestão Ricardo Nunes (MDB) contratou o instituto. A prefeitura disse ao Intercept que o chamamento foi transparente e que o ICB cumpriu as exigências.

O wi-fi que acelera na eleição e desacelera depois

Segundo o Intercept, o plano original começaria a instalar de fato em 2025, mas a prefeitura pediu antecipação. Resultado: muitos pontos entraram em operação durante o período eleitoral de 2024, quando Nunes buscava reeleição.

Os números ajudam a enxergar: no fim de outubro de 2024, 1.605 pontos estavam ativos; em junho de 2025, o total chegou a 3.200. E, de acordo com o Intercept, em julho e agosto de 2024 o ICB recebeu mais de R$ 11 milhões por 3.200 pontos, embora só seis estivessem funcionando naqueles meses.

O Intercept aponta que, pelo fornecimento efetivo, a prefeitura deveria ter pago R$ 43 milhões, mas pagou R$ 69 milhões — diferença de R$ 26 milhões. O ICB negou pagamento “a mais”, disse que a redução de 5.000 para 3.200 foi decisão do ente público e que executou o escopo revisado.

E aí vem a pergunta que derruba qualquer narrativa: se o ponto não estava ativo, pagou-se o quê?

Imagem: Intercept Brasil

Emendas, subcontratações e a moral seletiva

Segundo o Intercept, a ANC (outra ONG ligada a Karina) recebeu em 2024 R$ 2,6 milhões em emendas Pix de parlamentares do PL para um documentário que ainda não saiu do papel. Isso joga sal na ferida do discurso “anti-Rouanet”: não é sobre “usar dinheiro público”, é sobre “quem pode usar” sem virar alvo.

Além disso, a própria reportagem relata subcontratações: contratos com empresas somariam R$ 98 milhões.  E há um detalhe que desmonta a pose de pureza: o Intercept afirma que, em 2021, outro CNPJ ligado a Karina obteve autorização para captar R$ 4,9 milhões via mecanismos do audiovisual, mas o projeto foi cancelado e não captou.

Então fica a pergunta: quando o incentivo é para “os nossos”, vira empreendedorismo; quando é para “os outros”, vira escândalo?

Do jornalismo ao MP: alguém pediu investigação

Segundo o Intercept, parlamentares do PSOL pediram ao Ministério Público de São Paulo abertura de inquérito civil, suspensão do contrato e apuração de responsabilidade do prefeito, se necessário com ação civil pública. O vereador Nabil Bonduki (PT) também pediu investigação do chamamento.

Bonduki resumiu o óbvio, ainda segundo o Intercept: se a ONG recebeu por mais pontos do que implantou, o MP precisa apurar.  E isso conversa com princípios clássicos: economicidade, eficiência, impessoalidade.

O que falta para a cidade não virar figurante

A prefeitura afirma que o WiFi Livre SP é fundamental e diz que não há relação entre as autorizações de filmagem e o programa. O ICB diz que aplica recursos com destinação específica e segue a lei. Ótimo. Então o que falta é simples e público: lista dos pontos, evidência de ativação, logs, medições, notas e prestação de contas completa.

No fim, a “bomba no curral” não é o filme, nem o elenco. É a pergunta que ninguém gosta de responder: por que o Estado paga caro, paga cedo e entrega menos?