— Sem ilusões, a realidade crua. Estamos fu… Contamos apenas com aquelas reviravoltas surpreendentes da história — diz o xará no grupo de WhatsApp da firma.
Comentamos sobre o noticiário punk, a morte da poeta Renee Good pela guarda assassina do Trump.
— Mais um navio alvo dos americanos — diz o Jamil, 24h de plantão com os acontecimentos, a melhor cobertura do apocalipse para os brasileiros.
Apelo: ainda bem que temos o Carnaval logo aí, antes do fim do mundo. “Só acredito nos deuses que dançam”, lanço o clichezão SOS do bigode da filosofia.
O xará lembra a divina providência para escapar diante do noticiário: roda de samba carioca no Vaca Atolada.
Urgente, urgentemente.
Confiro o vídeo do navio petroleiro alvo do departamento de Guerra dos EUA.
A imagem da pirataria no Caribe me leva, em um daqueles lances da memória apocalíptica associativa, direto para Campina Grande, minha primeira ideia de fim das eras.
Reconto aqui & agora. Bons tempos em que o fim de mundo não contava com belzebus como Donald Trump.
“Uma enorme bola de fogo cruzará o céu, o Sol girará por três vezes consecutivas, um ensurdecedor trovão ecoará por toda a serra da Borborema. Em seguida choverá ininterruptamente por 120 dias”, anunciou Roldão Mangueira de Figueiredo, o líder dos Borboletas Azuis, grupo religioso do interior da Paraíba.
Havia uma data marcada para o início do apocalipse: seria 13 de maio de 1980. Cerca de 700 pessoas seguiam o guru. A maioria delas se desfez de todos os seus bens materiais, incluindo a própria casa onde morava, para fazer a preparação espiritual para o momento.
Os dias que antecederam à data fatídica foram de tumulto e tensão em Campina Grande e em toda a região. Parte dos moradores estava com medo; outra metade revoltada com a profecia. Para completar o rebuliço à beira dos açudes Velho e de Bodocongó, o profeta Roldão — empresário do comércio de algodão — desapareceu. Ninguém sabia do seu destino.
Reportagem do “Diário de Pernambuco” registrou o temor de conflito: “A cidade vive dias de expectativas. Nesta semana, cresceu a hostilidade da população contra os Borboletas Azuis. As autoridades temem que haja um linchamento dos integrantes da seita”.
O fim dos tempos havia sido anunciado em 1977 no calendário dos devotos messiânicos, mas a comunidade religiosa, conhecida pelos mantos e túnicas nas cores azul e branca, existia desde os anos 1960. Além do núcleo paraibano, havia uma outra legião com a mesma crença em Juazeiro do Norte, na região do Cariri cearense, terra do Padre Cícero.
O líder Roldão era devoto do “Padim Ciço” e de São Francisco de Assis. A base filosófica do grupo era a sua revolta com o Concílio Ecumênico Vaticano II, documento que promoveu várias mudanças no funcionamento e nas atividades da Igreja Católica, em 1959, sob o Papa João XXIII.
Os fiéis apocalípticos costumavam andar de pés descalços. Na cartilha de pregações, havia uma mistura de preceitos católicos, espíritas e protestantes. Um pouco antes da data prevista para o grande dilúvio, alguns jornalistas paraibanos desafiaram Roldão a caminhar sobre as águas do açude Velho, no centro de Campina Grande. O empresário chegou a prometer o milagre, mas ficou apenas como chacota nas crônicas satíricas dos jornais da cidade.
No dia 13 de maio de 1980, a data fatal para o fim do mundo, o céu amanheceu até nublado. E ficou nisso. Não caiu um pingo de chuva sequer na Paraíba. Alguns fiéis alegavam que o sumiço do líder religioso e o casamento de L. D., a garota de 17 anos que havia sonhado com a profecia do dilúvio, podem ter atrapalhado os planos divinos do apocalipse.
Roldão morreu naquele mesmo ano.
