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O latido da União Europeia contra Trump – CartaCapital

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As duas guerras mundiais foram imperialistas: no centro de ambas estava a disputa por colônias ou territórios periféricos. Na Primeira Guerra, Itália e Alemanha, nações unificadas e industrializadas tardiamente, chegaram atrasadas na partilha do mundo e pediram sua parte no butim colonial, o que era impossível sem entrar nas colônias alheias. Na Segunda Guerra, a Alemanha não escondia que se espelhava no vasto império britânico e que desejava fazer algo parecido no leste europeu. 

Foi por isso que a derrota do nazifascismo representou também uma derrota do imperialismo, tornando possível uma onda de lutas de libertação nacional nas décadas que se seguiram. Uma vez que a Alemanha não queria nada muito diferente do Reino Unido – intenções que, em dado momento, envolveram o fim da União Soviética –, ficou difícil sustentar o colonialismo clássico do século XIX.

Mas isso não significa que o domínio do Norte Global acabou. O controle sob países periféricos permaneceu de formas sutis, através de mecanismos do mercado financeiro. O resultado da Segunda Guerra impossibilitou a permanência do chicote e da jaula, forçando que as antigas potências coloniais e os EUA, a nova potência militar e econômica que emergia, adotassem métodos mais civilizados.

Apesar de ter afirmado em Davos que não pretende usar força militar na Groenlândia, Trump vem desrespeitando estes protocolos em velocidade atípica mesmo para os EUA. A insurgência da União Europeia contra suas aspirações de controlar a ilha ártica – ela própria uma colônia da Dinamarca, com todos os traços racistas e discriminatórios das relações coloniais – é também o descontentamento com a falta de discrição, discrição esta que tornou aceitável que a França, por exemplo, mantenha até hoje o Franco como moeda de suas ex-colônias africanas, restringindo sua soberania monetária e dificultando políticas de desenvolvimento autônomas. A etiqueta do neocolonialismo foi desrespeitada, para a infelicidade de Macron.

Mas a Europa descontente que sobe o tom contra Trump é a mesma que abraçou as retaliações contra Putin após a guerra na Ucrânia, gerando prejuízos ao próprio continente. Basta lembrar que a Alemanha deixou de comprar gás russo, mais barato e eficiente, para comprar gás que vem depois do Atlântico.

A Dinamarca não foge do padrão de subserviência europeia aos EUA. Ao contrário. Trump, porém passa do aceitável para os parâmetros das democracias liberais ocidentais ao não se limitar a instalar bases e ter o controle de fato (e não de direito) sobre territórios alheios, como fizeram seus antecessores. Querer fincar a bandeira estrelada em solo groenlandês parece ser demais.

Após a reação firme dos europeus, Trump recuou no tarifaço e afirmou estar se desenhando uma saída consensual na qual os EUA devem ficar com o controle da Groenlândia. É certo que o mercado financeiro deve ter informado ao mandatário estadunidense sobre os riscos de sua empreitada.

Mas quem muito se abaixa acaba mostrando o que não deve. E talvez seja tarde demais para se levantar. É importante relembrar que, ao se curvar ao plano expansionista dos EUA e da Otan contra a Rússia, a União Europeia ajudou a alimentar o monstro que hoje se volta despudoradamente contra si e cujo desejo de ocupação é o mesmo que motivou a instalação de bases militares na Ucrânia, motivo que desencadeou a guerra. 

Hoje a União Europeia deve estar se perguntando: quais os limites de Donald Trump? O New York Times teve a mesma a dúvida e cuidou de perguntar ao próprio. A resposta junta performance e realidade: “minha própria moralidade”. O problema é que os valores morais de Trump são os de um país que se enxerga como portador da vontade divina em colocar ordem no planeta.

Os limites reais estão na política. E na economia. O latido constrangido da União Europeia contra seu aliado de primeira hora mostrou isso. Mas Rússia e China vêm mostrando o óbvio há bastante tempo: não existe nova ordem se a antiga não deixar de existir.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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