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BIGUAÇU – SC: GUERRA NO CAMPO DE AIRSOFT “RÚSSIA X UCRÂNIA” TERMINA EM CAOS E RISADAS

BIGUAÇU – SC: GUERRA NO CAMPO DE AIRSOFT “RÚSSIA X UCRÂNIA” TERMINA EM CAOS E RISADAS

BIGUAÇU – SC: GUERRA NO CAMPO DE AIRSOFT “RÚSSIA X UCRÂNIA” TERMINA EM CAOS E RISADAS

Tem gosto para tudo nesse mundo

Tem gosto para tudo nesse mundo. Enquanto a Europa ainda tenta respirar em meio a uma guerra real, com negociações tensas e poucos sinais de solução, aqui e ali alguém resolve “importar” o conflito como entretenimento de domingo. A vida é mesmo um cardápio estranho: de um lado, energia cortada por ataques, diplomacia travada e gente tentando sobreviver ao inverno; do outro, bolinha de plástico, colete tático e uma “operação” com nome de filme.

E antes que alguém se ofenda: não é uma crítica ao esporte em si. Airsoft é prática conhecida, organizada e, quando feita com responsabilidade, é um hobby legítimo. A pergunta é outra: quando o tema do “cenário” é um conflito em andamento, com sofrimento diário do lado de lá, o que exatamente a gente acha que está encenando do lado de cá?

Biguaçu virou fronteira… até as abelhas entrarem na história

O caso que viralizou é um retrato perfeito dessa contradição. No último domingo, em Biguaçu (SC), rolou um jogo inspirado em “Rússia x Ucrânia” e, segundo o relato que circulou, a “Ucrânia” levou uma baixa inesperada: um participante caiu num ninho de abelhas. Resultado: ataque, SAMU acionado, partida encerrada e o placar mais honesto do dia decretado sem cerimônia: 1 a 0 para as abelhas.

É difícil competir com a comédia involuntária de uma “operação de imersão total” interrompida por um inimigo que não lê briefing, não respeita facção e não negocia cessar-fogo. Abelhas não têm lado; têm instinto. E isso, ironicamente, é a parte mais realista de toda a simulação.

“Imersão total” e o marketing da guerra como cenário

Os anúncios desse tipo de evento costumam vender uma promessa: confronto pesado, fidelidade militar, equipamentos “de épocas reais”, sensação de estar dentro de um teatro de operações. No caso do Phoenix Park Airsoft, o próprio perfil apresenta essa estética e menciona inspiração em conflitos do Leste Europeu, além de divulgar eventos, jogos fechados, aluguel e venda de equipamentos.

Do ponto de vista de marketing, funciona. A palavra “imersão” faz o cérebro completar o resto: adrenalina, pertencimento, narrativa, “missão”. Só que aí entra o ponto delicado. Porque “Rússia x Ucrânia”, hoje, não é um tema histórico distante, nem uma página encerrada de livro. É um conflito com consequências humanas e políticas, com rodadas de conversa que patinam e ataques que seguem produzindo impacto no cotidiano.

Então a provocação é inevitável: quando a guerra vira “tema” de jogo, o que se está consumindo — estratégia e esporte, ou a estética do sofrimento alheio transformada em entretenimento?

A linha entre simulação e banalização

Simular cenários é um recurso antigo. Paintball e airsoft sempre flertaram com “missões”, “operações” e simbologias militares. Isso, por si só, não é crime moral. O problema é o contexto e o tempero. Uma coisa é fazer um jogo tático genérico, com objetivos, regras e segurança. Outra é “encenar” um conflito específico em curso, com bandeiras e rótulos, como se fosse apenas mais um modo de apimentar o domingo.

E aí a história das abelhas vira uma metáfora que ninguém planejou: o jogo tentava copiar a lógica de um conflito humano, mas foi interrompido por um evento natural, imediato e real, que exigiu socorro e colocou limites na brincadeira. A realidade entrou no campo sem pedir autorização.

Aliás, o Brasil já viu situações parecidas: há registro jornalístico de evento de airsoft interrompido por ataque de abelhas em outra região, com feridos e atendimento emergencial. Ou seja, quando a natureza decide participar, ela não faz “roleplay”; ela resolve.

Se é esporte, trate como esporte (e não como propaganda)

Se a ideia é fortalecer o airsoft como prática, a recomendação é simples: menos glamourização de guerra real e mais cultura de segurança, ética e responsabilidade. Isso inclui checagem prévia do terreno, plano de emergência, comunicação clara, equipamentos de proteção obrigatórios, orientação a iniciantes e, principalmente, cuidado para não vender “fidelidade militar” como se fosse um produto neutro.

Porque, no final, o que sustenta o hobby não é o cenário “Rússia x Ucrânia”. É organização, comunidade e regra bem aplicada. Quando um evento termina “1 a 0 para as abelhas”, a piada viraliza; mas o que fica, para quem é sério no ramo, é o alerta: diversão não pode depender de risco mal administrado.

E, sim, tem gosto para tudo nesse mundo. Só que entre transformar conflito real em estética e praticar um esporte tático com maturidade existe uma diferença enorme. Talvez a maior lição daquele domingo em Biguaçu seja esta: a única “fação” que realmente domina qualquer terreno é a realidade — e, ocasionalmente, ela vem voando.

O Ludovico

 

 

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