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Discurso de aposentadoria do juiz Luiz Gonzaga Belluzzo – CartaCapital

Discurso de aposentadoria do juiz Luiz Gonzaga Belluzzo – CartaCapital

Discurso de aposentadoria do juiz Luiz Gonzaga Belluzzo – CartaCapital

Discurso de despedida do juiz Luiz Gonzaga Belluzzo – CartaCapital

As responsabilidades judiciais, desde o primeiro nível até os tribunais estaduais, o STJ e o STF, estão sofrendo as consequências dos ataques à democracia. Esses ataques são alimentados e disseminados por grupos de tendência conservadora e golpista.

Por esse motivo, decidi compartilhar o discurso de aposentadoria do meu pai, feito durante a homenagem que recebeu de advogados, juízes e funcionários do Judiciário ao encerrar sua carreira.

Discurso de despedida do Juiz Luiz Gonzaga Belluzzo

Meus queridos amigos,

No sempre enigmático curso da vida, à distância, vislumbro a manhã que já foi minha, quando os primeiros sonhos e projetos eram embalados pela suave luz da aurora. Nessa atmosfera estimulante e cheia de possibilidades, encarei o presente e projetei o futuro.

No entanto, o tempo, implacável em sua marcha, deixou para trás a alvorada radiante; a intensidade do sol a pino me tocou ao longo da jornada. Agora, com a tarde se aproximando, mesmo envolto pela neblina, consigo enxergar todo o caminho percorrido, fazendo uma breve retrospectiva do passado, o que me permite afirmar que vivi até aqui como a maioria dos seres humanos: entre esperanças e desilusões, alegrias e tristezas; momentos de entusiasmo antecipando períodos desafiadores; fases de segurança sucedendo estados de incerteza; decepções e desânimos alternando com conquistas; em suma, uma jornada árdua experimentando todos os momentos comuns a um ser humano.

Refletindo sobre a banalidade dessa existência, ao receber a notícia desta homenagem, me vejo diante dela com uma interrogação.

No entanto, neste instante, percebo que não cabe mais questionar após uma decisão final, pois a simples aprovação coletiva da ideia da homenagem se revelou como uma sentença que me confere uma honra.

Sim, pois, mesmo que tenham distorcido a ordem e o procedimento natural de um processo, ignorando até mesmo um interrogatório, é evidente que vocês já me julgaram.

Portanto, curvo-me respeitosamente diante deste tribunal, legitimado por sua própria composição; o mais diverso de todos os colegiados, com representantes de todas as classes sociais e profissões; por isso, um Supertribunal, que detém total soberania por meio de suas decisões incontestáveis.

Curvo-me respeitosamente e aceito a irrevogável sentença.

No entanto, mesmo após ouvir as justificativas da decisão, neste momento, não posso deixar de fazer uma breve reflexão sobre minhas ações.

Na realidade, o que fiz eu para merecer tal reconhecimento?

Nada que justifique plenamente. Apenas aprendi que: “a simplicidade nos pensamentos e ações fertiliza o futuro de qualquer destino”; “é no cultivo do bem que o homem fortalece suas energias internas em meio às adversidades”; e é na comunhão de afetos e simpatias que cresce a união e a fraternidade. Assim, escolhi a tranquilidade do silêncio em vez do barulho das falsas propagandas; não tolerei falsidades; não me submeti a bajulações; em nenhum lugar busquei dominar, mas tampouco me vi subjugado por submissões; com humildade enraizada desde o berço, rejeitei a egolatria e a idolatria; não fui convencido pelas aparências, e para minhas convicções, sempre busquei os fundamentos. Em suma: no exercício de minhas funções como magistrado, dei o melhor de mim diariamente, buscando desempenhá-las da melhor forma possível, mantendo a integridade do cargo; evitei julgamentos precipitados, tomando cuidado para me desvencilhar de influências e preferências que pudessem interferir em uma decisão; e se, porventura, cometi algum equívoco contra a lei, tenho a certeza de que o fiz visando disseminar bondade e benevolência.

Em resumo, cumpri meu dever conforme minha formação intelectual, moral e emocional.

Isso, e somente isso; o que, se é suficiente para encerrar minha carreira com uma consciência tranquila, não representa méritos que justifiquem tal prêmio valioso, que, mesmo assim, recebo com alegria, reconhecendo a generosidade dos bons amigos, que nunca economizaram em simpatia e cuidado; amigos que não são apenas os que aparecem nos momentos de glória, mas aqueles que vêm nos prestigiar quando já deixamos os picos mais altos, nos recebendo de maneira sincera na planície.

Neste crepúsculo da minha vida, após tantas batalhas e preocupações, não poderia desejar um conforto maior e melhor.

Sou grato, imensamente grato, por esta homenagem, que para mim é inestimável.

Gratidão aos queridos integrantes da comissão organizadora; aos eloquentes e generosos oradores; aos renomados desembargadores, juízes, promotores, advogados e jornalistas; aos queridos ex-colaboradores, escrivães, escreventes, oficiais de justiça e auxiliares; aos representantes das comarcas por onde exerci minhas funções; aos queridos conterrâneos; aos estimados companheiros da Sociedade Esportiva Palmeiras; aos familiares e parentes amados; e a todos os demais amigos distinguidos, expresso minha mais profunda gratidão, transbordando afeto do meu âmago e estima do meu coração, envolvendo todos em um abraço fraterno.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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