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Os segredos da carta secreta

Os segredos da carta secreta

Os segredos da carta secreta

Uma carta enviada a Iracema Vale, convidando-a para se filiar ao Partido dos Trabalhadores e concorrer a uma vaga no Senado Federal, revela três dimensões interligadas: uma postura ideológica, uma interpretação do cenário político e um plano estratégico de poder.

No aspecto ideológico, a carta representa uma oposição ao que chamam de dinismo, termo pejorativo usado pelos autores da carta, apesar do governo Flávio Dino ter sido reconhecido por suas políticas públicas redistributivas e emancipatórias. Ao se contrapor a esse grupo, os autores da carta rotulam Felipe Camarão como “dinista” e, portanto, “não petista”. Isso é uma estratégia política clássica de desqualificar o oponente não pelo conteúdo de suas políticas, mas por uma classificação identitária que busca excluí-lo do grupo considerado legítimo. Iniciativas como escola digna, ampliação do acesso à educação, programas de infraestrutura cidadã, orçamento participativo e políticas de inclusão são tratadas implicitamente como desvios, quando na realidade são conquistas de governos progressistas.

Em relação ao cenário político, a carta parte da premissa de que Carlos Brandão permanecerá como governador, enquanto Orleans Brandão, visto como um potencial candidato, disputará o governo com o apoio direto de Lula. Com base nessa hipótese, propõe-se a filiação de Iracema Vale ao PT e sua candidatura ao Senado. Apesar de ter se aproximado do bolsonarismo no passado, os signatários tentam persuadir Lula e os líderes petistas a participarem de uma estratégia política que busque conciliar interesses locais conservadores com a influência nacional do PT.

No plano estratégico, o convite a Iracema não é casual. As assinaturas reunidas representam diferentes facções internas do partido, que competiram em posições distintas nas últimas eleições internas. Essa movimentação faz parte de uma estratégia eleitoral e de controle partidário, visando disputar posições eleitorais com o apoio de Iracema Vale e o controle da máquina partidária. Grupos que se sentem deslocados diante do fortalecimento da base partidária e do surgimento de novas lideranças como Felipe Camarão, Rubens Júnior e o Coletivo Nós, apostam agora numa aliança com Iracema Vale para viabilizar projetos eleitorais e partidários.

Os interesses envolvidos são tão evidentes e tão pouco defensáveis do ponto de vista programático que os articuladores se recusam, até o momento, a tornar pública a carta e suas assinaturas. Fica a questão: o que exatamente eles querem esconder, se o projeto já está exposto publicamente? Ou será que há algo que a base do PT não deve saber?

Por Prof. Xico, coordenador estadual da campanha de Lula em 1989.