Idoso é a…!!! Por Lênio Streck
Idoso é a…!!! Por Lênio Streck
Idoso bravo. Foto: ilustração
Circulam propostas de leis, regulamentos (já aprovados) e diretrizes que têm como objetivo proibir até mesmo o uso de ironias. Um exemplo de controle semântico é a PGF/AGU (advocacia pública) que, incrivelmente, proíbe até mesmo a expressão “meia-tigela”. Estou sujeito a ser processado por usar ironias e sarcasmos. Rumo a uma sociedade vigiada. Panóptica.
Questão central: há várias palavras listadas que são, de fato, inadequadas ou ofensivas. No entanto – e aqui está o cerne da questão – devemos questionar: que tipo de formação possuem os destinatários desse regulamento? Por que um órgão de tamanha importância precisa estabelecer regras para impedir que seus servidores usem certas palavras? Será que alguém da PGF estava usando essas palavras agora proibidas?
Enfim, em breve teremos concursos para “fiscais do comportamento e do pensamento”. Uma nova carreira de Estado. Que logo exigirá isonomia com outra. E lista tríplice. E, é claro, benefícios extras.
Mais preocupante ainda: há informações de que já existem propostas considerando a ironia como crime equiparado a hediondo, ou seja, imprescritível e inafiançável – por mais irônico que isso possa parecer. Procurem no site do Senado. E também nos ministérios.
Depois do “crime de hermenêutica” do século XIX (em que o juiz Mendonça Lima foi processado), agora pode surgir o crime de ironia. Em seguida, o crime do pensamento. Antigamente se dizia “é proibido proibir”; hoje a máxima parece ser “é obrigatório proibir”. Eis o Zeitgeist – o espírito de nosso tempo.
O CNJ, a AGU e PGF – que prezam tanto pela linguagem simples e são tão politicamente corretos – poderiam muito bem acabar com essa prática de chamar pessoas com mais de 60 anos de “idosos”. A imprensa diz: idoso é assaltado; idoso é encontrado dirigindo embriagado. Por que não usar “cidadão”?
AGU: qual a opinião sobre isso? Já que são tão rigorosos com a linguagem…
Curioso: a mídia nunca diz o “idoso” presidente da República…; “o idoso ex-presidente Bolsonaro está preso”; “o idoso ministro da Justiça”… Ou o “idoso senador Heinze…”.
Já viram alguma manchete com “o idoso presidente dos EUA”? Ou o “idoso senador Oto Alencar”? O “idoso jornalista Fernando Gabeira”? O “idoso proprietário da Gerdau”? A “idosa atriz Fernanda Montenegro”?
Pois é. Somente os menos favorecidos são chamados de idosos. E quando sofrem um acidente, são assaltados ou mortos. “Idosa sofre golpe de…”.
Visto que a AGU deseja falar sobre “disciplinamento” da língua(gem), aqui está uma sugestão.
Para ser mais claro: a prática tem mostrado que o uso do termo “idoso” é pejorativo. É apenas para as classes menos privilegiadas. Há discriminação até nisso. Estamos em apuros. A menos que a palavra “apuros” também esteja proibida. Verificarei na lista da AGU.
Pessoalmente, prefiro ser chamado de cidadão. Ou simplesmente, professor Lenio. Meu estimado Marco Antonio Birnfeld, editor do Espaço Vital, prefere “cidadão longevo”. Excelente! Também é uma boa opção.

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