Galinho de Brasília honra a tradição do frevo e a paixão pelo futebol
O Galinho de Brasília, bloco tradicional que há 34 anos busca preservar a tradição do frevo pernambucano no carnaval da capital do país, enfrenta, na edição de 2026, um novo desafio: resgatar a antiga paixão dos brasileiros pelo futebol.
Com o tema “Galinho na Copa: Frevando rumo ao Hexa”, o bloco, que em edições passadas atraiu mais de 100 mil pessoas, desfilou pelas ruas da capital federal nesta segunda-feira (16) ao som da Orquestra Marafreboi, regida pelo maestro Fabiano Medeiros; e da Orquestra do Galinho, sob a regência do maestro Ronald Albuquerque.
“Existem diversos estilos de frevo originados em Pernambuco. É um ritmo tão complexo que requer músicos habilidosos para executá-lo devido à variedade de instrumentos e nuances rítmicas. Somente músicos talentosos conseguem tocar esse ritmo que enche de orgulho o povo pernambucano”, explica Damísia Lima, servidora pública pernambucana de 52 anos, sendo 21 deles vividos em Brasília.
Damisia Lima fala com Agência Brasil durante o carnaval de rua do bloco Galinho. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Sotaque, refúgio e tradição
Damísia, natural de Olinda, cidade pernambucana conhecida por sua rica tradição carnavalesca, destaca: “Nós, pernambucanos, temos muito orgulho de nossa cultura e música. Meu maior receio era perder meu sotaque. Felizmente, consegui mantê-lo até hoje. Não deixo de participar do Galinho de Brasília, pois é meu refúgio para suportar a distância do Recife ao longo do ano”, elogia, fazendo referência aos frevos de alta qualidade apresentados pelos músicos da filial brasiliense.
Os organizadores do bloco reconhecem a importância dessa tradição que encanta tanto as gerações antigas quanto as novas de pernambucanos. Sérgio Brasiel, diretor administrativo do bloco, destaca a diversidade de estilos musicais presentes no carnaval atual.
“Atualmente, observamos diversas influências musicais no carnaval, inclusive o rock. Nossa proposta é resgatar a essência do carnaval pernambucano. E, aproveitando o ano de Copa do Mundo em 2026, buscamos reviver a antiga paixão dos brasileiros pelo futebol”, explica Brasiel, referindo-se ao tema escolhido para a atual edição do Galinho de Brasília.
Ele destaca os desafios de organizar o evento, especialmente diante das burocracias envolvidas nas festividades populares.
“Idealmente, teríamos de três a quatro meses para nos dedicar à organização, mas acabamos realizando tudo em apenas 15 dias devido a essas questões burocráticas. No entanto, ficamos felizes ao ver a alegria dos foliões após todo o esforço dedicado”, acrescenta o diretor administrativo do Galinho de Brasília.
Organizador do bloco, Sérgio Brasiel. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Experiência carnavalesca
A professora Célia Varejão, que vivenciou muitos carnavais em Olinda, veste a camiseta da edição de 1995 do Galinho de Brasília, carregando consigo uma bandeira de sua cidade natal e declarando seu amor pelo Flamengo.
“Adoro manifestações populares, tanto no carnaval quanto no futebol. São elementos que, se deixarem de ser populares, perdem sua essência. Fico indignada com os altos preços cobrados nos estádios, como ocorreu na final da Supercopa realizada recentemente em Brasília, entre Flamengo e Corinthians”, comenta, referindo-se ao evento esportivo.
Carnaval tranquilo
As duas pernambucanas elogiam a segurança do carnaval em Brasília, com Damísia preferindo a folia na capital federal em comparação ao tradicional Galo da Madrugada em Pernambuco.
“Em Pernambuco, há uma multidão. Acho que, por haver menos pessoas, o Galinho de Brasília me permite aproveitar mais a festa. Fico menos cansada e consigo permanecer por mais tempo na celebração. Já superei a fase de festas grandiosas. Prefiro eventos como os de Brasília, ainda mais pela autenticidade do frevo aqui presente”, argumenta a foliã.
Benedito Cruz Gomes elogia a tranquilidade do carnaval em Brasília. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Esse ambiente tranquilo do carnaval brasiliense também agrada o servidor público Benedito Cruz Gomes, de 47 anos, que, acompanhado da esposa e filhas, destaca que o “carnaval é algo familiar, um espaço aberto para diversão”.
“Há 30 anos, eu já participava do Galinho de Brasília”, relembra o folião, que se fantasiava com uma mistura dos personagens Chapolin Colorado e He Man. “Este bloco sempre fez parte da minha vida por eu morar nas proximidades. Agora, também faz parte da vida das minhas filhas”, acrescenta.
De volta à brincadeira
Apesar de residir em Viçosa, Minas Gerais, o produtor de café Guilherme Fontes, de 48 anos, também participou das primeiras edições do bloco. “Estive em um dos primeiros desfiles do Galinho de Brasília e sempre sinto vontade de retornar, principalmente por ter amigos aqui”, comenta o cafeicultor.
Ele também elogia a atmosfera “tranquila e familiar” do carnaval na capital. “Para mim, o carnaval é sinônimo de diversão”, diz ele, enquanto se diverte com batalhas de spray de espuma ao lado da esposa e das crianças dos amigos.
O engenheiro Alex França, de 30 anos e natural de Caruaru, Pernambuco, conhecida como a capital das festas juninas, é outro frequentador assíduo do Galinho de Brasília, acompanhando a evolução do bloco ao longo dos anos.
“Lembro que, há alguns anos, a estrutura do Galinho de Brasília era mais simples e com menos segurança. Atualmente, temos mais tranquilidade por aqui, o que atrai cada vez mais pessoas para o bloco”, destaca.
34 anos de história
Fundado em 1992 por um grupo de pernambucanos residentes no Distrito Federal, o Galinho surgiu como uma opção afetiva para aqueles que não puderam viajar ao Recife para participar do renomado bloco Galo da Madrugada.
Os organizadores explicam que o primeiro desfile ocorreu “em um contexto econômico desafiador, marcado pelo confisco das poupanças, que impediu muitos nordestinos de viajarem para celebrar o Carnaval em Pernambuco”.
Segundo eles, a experiência foi tão significativa que, após o Carnaval, os foliões fundaram o Grêmio Recreativo da Expressão Nordestina – GREN Galinho de Brasília, com o intuito de preservar e promover as tradições culturais nordestinas na capital federal.


