×

‘Acadêmicos de Niterói exerceu o que direita diz defender: liberdade de expressão’, diz cientista político sobre homenagem a Lula

‘Acadêmicos de Niterói exerceu o que direita diz defender: liberdade de expressão’, diz cientista político sobre homenagem a Lula

‘Acadêmicos de Niterói exerceu o que direita diz defender: liberdade de expressão’, diz cientista político sobre homenagem a Lula

O cientista político Paulo Niccoli Ramirez, docente da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), analisa em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, que a recente oposição contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva revela mais desconhecimento sobre a cultura popular brasileira do que um risco real à reeleição do político.

A controvérsia envolve o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que apresentou um enredo na Marquês de Sapucaí com críticas ao bolsonarismo e menções à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Setores da direita acusam a agremiação de realizar uma campanha pró-Lula. A escola acabou sendo rebaixada.

Para Ramirez, a crítica ignora o aspecto histórico do Carnaval como um espaço de contestação. “O Carnaval é, essencialmente, um momento de inversão simbólica”, afirma, mencionando o teórico russo Mikhail Bakhtin, que interpretava a festa popular como uma suspensão temporária das hierarquias sociais.

O professor destaca que as escolas de samba recebem financiamento público, mas têm autonomia artística para desenvolver seus enredos. “A Acadêmicos de Niterói praticou exatamente o que a própria direita afirma defender: liberdade de expressão.”

O possível rebaixamento, ressalta, resulta de critérios técnicos e das limitações financeiras de uma escola recentemente promovida ao grupo principal — e não de qualquer interferência do governo federal.

Ele prevê que ações judiciais por suposta propaganda eleitoral antecipada podem gerar grande repercussão midiática, mas dificilmente terão impacto prático sobre a candidatura de Lula.

Lula entre líderes conservadores

Enquanto a oposição tenta politizar o desfile, Lula intensifica sua agenda internacional. Durante visita à Índia, o presidente se encontrou com o primeiro-ministro Narendra Modi e defendeu uma regulação global para o avanço da inteligência artificial.

Em seguida, o petista planeja se reunir com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e dialogar com outras lideranças conservadoras. Para Ramirez, essa agenda demonstra pragmatismo e prestígio internacional.

“Lula é hoje uma das principais vozes da esquerda global, ao lado de Xi Jinping. Isso inclui dialogar com governos de direita”, destaca.

O docente salienta que mesmo líderes considerados progressistas no Brasil, como Emmanuel Macron, são rotulados na França como neoliberais. Para ele, Lula construiu uma imagem de confiabilidade institucional: defende políticas sociais e desenvolvimento, sem ameaçar a estrutura capitalista.

Essa abordagem, segundo ele, explica o aumento dos investimentos estrangeiros no país e a resiliência do Brasil em meio a disputas comerciais internacionais. “O mercado confia que Lula não tomará medidas radicais. Ele atua dentro dos limites democráticos e de um Congresso onde representa minoria”, observa.

Congresso, segurança e pauta trabalhista

No cenário nacional, o governo enfrenta resistência no Congresso, especialmente em temas como o chamado “PL Antifacção”, defendido por parlamentares conservadores alinhados ao campo bolsonarista.

Ramirez acredita que, apesar das divergências, haverá espaço para negociações. No entanto, ele prevê que o principal embate político do ano será em torno da proposta de redução da jornada de trabalho para 6×1, atualmente predominante no comércio e serviços.

“A alteração na jornada de trabalho afeta toda a sociedade. É um assunto que transcende ideologias”, afirma. Em ano eleitoral, segundo ele, os deputados que se posicionarem contra essa medida poderão enfrentar custos políticos significativos.

Ramirez argumenta que o governo pretende tornar essa proposta o cerne do debate público, contrapondo-a à agenda de endurecimento penal defendida pela direita.

Para ouvir e assistir

O programa Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Créditos