A eleição que excluiu as mulheres – Meio
A eleição que excluiu as mulheres – Meio
Você gostaria de votar em uma mulher para presidente da República? Pela primeira vez desde 2002, talvez você não tenha essa opção.
Enquanto todos debatem se uma mulher trans pode presidir a comissão de mulheres da Câmara dos Deputados, caminhamos para uma eleição presidencial sem candidatas. Possivelmente sem mulheres nas vice-presidências das principais chapas. E sobre isso, ninguém reclama, não é mesmo?
Com o fim da janela partidária, o campo das pré-candidaturas ao Planalto conta com oito nomes, todos homens. Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Aldo Rebelo, Renan Santos, Cabo Daciolo e Augusto Cury. Oito homens disputando a presidência do país.
Já temos pelo menos um homem confirmado como vice: Geraldo Alckmin, do PSB, será novamente vice de Lula.
Em um país onde as mulheres representam a maioria da população e do eleitorado, e desde o ano passado, a maioria dos provedores financeiros dos lares, a ausência delas na disputa presidencial é significativa.
O cenário pode mudar, já que as candidaturas ainda não estão oficializadas. O prazo para o registro de candidatos é 15 de agosto. Porém, as principais coalizões políticas já estão em andamento e, até o momento, as mulheres são mencionadas apenas de forma simbólica nos discursos políticos, como se fossem um público a ser conquistado.
Daí surgem os apelos para que os candidatos desenvolvam plataformas voltadas para as mulheres. Ou, se tudo der certo, consigam uma vice mulher, como um gesto simbólico para as eleitoras. Assim, a presença feminina na política se torna um mero token eleitoral, um adereço. Agradecemos, não é mesmo?
Antes de prosseguir, não estou dizendo que você deve necessariamente querer votar em uma mulher. Nem que as mulheres são intrinsecamente melhores que os homens na política ou em qualquer outra área.
O ponto é que a ausência de mulheres na disputa presidencial é um sintoma sério de como a política opera e impacta diretamente sua vida. E é sobre isso que gostaria de discutir hoje.
Vamos começar com os números. As mulheres representam 52,47% do eleitorado brasileiro, com 81,8 milhões de eleitoras contra 74 milhões de eleitores homens. Quase 8 milhões a mais de eleitoras. É um grupo significativo de brasileiras que é sub-representado de forma alarmante na corrida eleitoral.
Em quase 62% dos municípios do país, as mulheres são a maioria absoluta nas urnas. Somos nós, mulheres, que decidimos as eleições no Brasil, na prática.
Olhe o resultado dessa sub-representação em todos os níveis. Na Câmara dos Deputados, as mulheres ocupam 17,2% das cadeiras. No Senado, 18,5%. No Congresso, menos de 18% dos 594 parlamentares são mulheres. E nas eleições municipais de 2024, apenas 15% dos prefeitos eleitos eram mulheres.
Mais da metade do eleitorado, representando menos de um quinto da representação.
Internacionalmente, o Brasil ocupa a 139ª posição no ranking mundial de representação feminina em parlamentos, elaborado pela ONU Mulheres e pela União Interparlamentar, ficando atrás da Arábia Saudita. Somos o país menos bem classificado na América Latina, atrás de Bolívia, Equador, Argentina, Cuba e Nicarágua. A média das Américas é de 35,4% de mulheres nos parlamentos, enquanto o Brasil tem apenas 17%.
E o cenário não mostra progresso nesse aspecto. Em 2022, quatro mulheres disputaram a Presidência da República, o maior número do século. Simone Tebet, Soraya Thronicke, Sofia Manzano e Vera Lúcia.
Tebet teve uma campanha surpreendente para uma iniciante na corrida presidencial, ficando em terceiro lugar no primeiro turno, com quase cinco milhões de votos, e se tornou fundamental para a eleição de Lula. Posteriormente, assumiu o Ministério do Planejamento.
Marina Silva concorreu a deputada federal em 2022, após três tentativas anteriores à Presidência. Com passagem pelo Ministério, é uma das políticas mais reconhecidas do país.
Onde estão essas duas hoje? Fora da disputa pela Presidência. Tebet tentará o Senado por São Paulo na chapa de Haddad. Marina provavelmente fará o mesmo. Nenhuma das duas foi sequer considerada para o Executivo, pois no campo progressista, Lula dominou as candidaturas e concentrou todos os esforços em si mesmo.
E as estruturas partidárias de ambas não as fortaleceram para manter seus nomes viáveis na corrida presidencial. Simone não teve apoio total de seu ex-partido, o MDB, em 2022, e deixou de ser vista como uma alternativa liberal devido à sua abordagem mais próxima do petismo do que do liberalismo econômico. Já o PSB, partido atual da ministra, oferece Alckmin como opção para a vice-presidência.
Marina também não se posicionou como alternativa a Lula em sua sucessão, enquanto a Rede luta para se manter como partido. Assim, o campo progressista se encaminha para ter Guilherme Boulos e Fernando Haddad como potenciais sucessores após Lula.
Lula teve o mérito de apostar em Dilma Rousseff em 2010 e 2014. Vale ressaltar como Dilma foi tratada em questões de gênero. Basta lembrar do adesivo depreciativo usado pela direita, retratando Dilma com pernas abertas no tanque de combustível dos veículos. Curioso como isso não se repete com presidentes homens, não é mesmo? Sugiro um design alternativo. Mas não é ético fazer isso com outro ser humano, concorda?
Não acredito que Dilma caiu por ser mulher. É claro que sua queda ocorreu devido a desagrados em diversos setores da sociedade. Sua gestão econômica tinha pouco apoio nos mercados, seus movimentos políticos desagradaram líderes e aliados, e até movimentos sociais se ressentiram de seu governo. No entanto, ignorar o aspecto machista na forma como sua queda foi conduzida é ingênuo ou desonesto.
Passando à ausência feminina na esfera política de direita, Soraya Thronicke abandonou sua breve associação com o bolsonarismo antes de 2022. Desde então, se manteve no União Brasil, depois migrou para o Podemos, adotando uma postura cada vez mais centrada. Posteriormente, migrou para o PSB, partido de centro-esquerda.
O PL transformou Michelle Bolsonaro em um ativo político valioso. Ela preside o PL Mulher e afiliou dezenas de milhares de mulheres ao partido. No entanto, não conseguiu se viabilizar como vice devido à resistência do marido e enteados.
Valdemar Costa Neto foi questionado sobre isso recentemente. Estava claro que ela desejava ser vice na chapa de Tarcísio de Freitas. Mas por que não ser vice de Flávio? Ele foi direto: “com o mesmo sobrenome? Para quê? O que ela acrescentaria?”
O cálculo é exatamente esse, não sejamos ingênuos. A escolha do vice é baseada em agregar votos. Nesse caso, a senadora Tereza Cristina traria votos do agronegócio. Mas Flávio já não atrai esses mesmos votos? A questão é que Teresa é mulher. Michelle também, além de ser evangélica. O que Valdemar não podia admitir é que dois Bolsonaros na mesma chapa afastariam votos da direita, por radicalizarem demais a plataforma.
Curiosamente, as duas mulheres mais proeminentes na política brasileira hoje são primeiras-damas. Janja, esposa de Lula, é frequentemente evocada pelo presidente e desempenha um papel significativo na política do governo. Michelle se tornou a principal porta-voz do bolsonarismo junto ao eleitorado feminino.
Ao mesmo tempo, ministras, senadoras e deputadas com trajetórias políticas próprias estão sendo mantidas à margem. O espaço reservado para as mulheres no sistema político é cada vez mais de apoio e mobilização, sempre em torno de um homem.
Gostaria de discutir mais sobre isso? Sou Flávia Tavares, editora do Meio. A ausência de mulheres na política revela muito sobre como o jogo de poder é jogado no Brasil. Se deseja compreender melhor esse jogo, além do Cá Entre Nós, os assinantes premium do Meio receberão a edição de abril da Pesquisa Meio/Ideia na madrugada desta quarta-feira, antes de todos, com dados exclusivos sobre o eleitor brasileiro. O assinante premium receberá o relatório completo em PDF para compartilhar, além de vantagens como acesso ao catálogo completo de nosso streaming e duas newsletters especiais por semana, por apenas R$ 15 por mês. Assine agora o Meio Premium e mude sua forma de acompanhar a política e o mundo.
Por que as candidaturas femininas na corrida presidencial estão em declínio? Manter as mulheres fora do centro da disputa, mesmo quando possuem habilidades e capital eleitoral, é resultado das barreiras persistentes criadas pelas organizações partidárias. Isso enfraquece o debate político.
Há uma razão estrutural para isso. Os partidos brasileiros são predominantemente masculinos em suas instâncias decisórias. São os homens que determinam quais candidaturas recebem recursos, quais nomes são promovidos, e quais figuras são construídas como viáveis ao longo do tempo.
Desde 1998, existe um sistema de cotas que obriga os partidos a lançar pelo menos 30% de candidaturas femininas — mas isso vale apenas para eleições proporcionais. Para presidente, governador e prefeito, não há cota.
Mesmo onde a cota é aplicada, pesquisas indicam que muitas vezes ela é apenas cumprida no papel: o partido lança mulheres nas listas, mas não investe em suas campanhas. Isso ocorre por duas razões distintas: ou as mulheres são candidatas de fachada, usadas apenas para cumprir a cota ou desviar recursos de outras candidaturas, ou os partidos não as consideram competitivas.
Assim, vemos um ciclo vicioso: o sistema de cotas foi estabelecido ao longo de 30 anos, reforçado pelo STF e TSE com punições cada vez mais severas, porém resultando em candidaturas fictícias em larga escala, em uma profecia auto-realizável. O partido não investe, a candidatura não decola, o partido conclui que mulheres não vencem e não são competitivas, e o ciclo se repete.
Essa dinâmica se reflete na estrutura partidária, onde as mulheres representam em média apenas 3 em cada 10 membros dos órgãos nacionais dos partidos com as maiores bancadas na Câmara dos Deputados, segundo dados do TSE. Isso significa que elas têm muito menos poder de decisão internamente.
Mas afinal, por que devemos desejar mais mulheres na política? Além da questão da representatividade, há implicações práticas. Mulheres em cargos de liderança política tendem a priorizar a alocação de recursos para saúde e educação, conforme indicam pesquisas. Essa diferença pode resultar em até 7% a mais em bens públicos, com impacto mensurável na mortalidade infantil e no acesso à educação.
As mulheres, historicamente, vivenciam de perto os desafios que esses serviços públicos buscam resolver. Elas oferecem uma perspectiva única e valiosa.
Em uma democracia que sistematicamente exclui metade da população de seus espaços decisórios, não há democracia plena. A metade excluída fica à mercê das decisões masculinas sobre seus futuros, escolhas e corpos. Ficamos presas a piadas de mau gosto, como o Partido da Mulher Brasileira, composto exclusivamente por homens.
Antes de debater se uma mulher trans é a melhor representante em uma comissão de políticas para mulheres, liderada principalmente por homens, precisamos ser honestos sobre o lamentável estado da representatividade feminina na política brasileira.
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