Transferência do acervo de Frida Kahlo para a Espanha gera protestos no México
Uma coleção histórica de arte mexicana do século XX, que inclui um conjunto de pinturas de Frida Kahlo, atraiu dezenas de milhares de visitantes ao Museu de Arte Moderna da Cidade do México nas últimas semanas. Multidões formaram filas para apreciar aproximadamente 70 obras da renomada Coleção Gelman, que não eram expostas no México há quase duas décadas. Para muitos amantes da arte, entretanto, a exposição é motivo de angústia.
Isso porque as peças de arte estão prestes a deixar o México em julho, sendo enviadas para a Espanha como parte de um acordo entre seu proprietário mexicano, a proeminente família industrial chamada Zambrano, e o Banco Santander da Espanha, responsável por administrar a coleção durante sua estadia no exterior.
A decisão de transferir a coleção, originalmente reunida no México por Jacques e Natasha Gelman, um glamouroso casal de imigrantes do Leste Europeu, causou indignação na elite cultural do país. Eles argumentam que isso priva os mexicanos de um tesouro artístico e vai contra as normas de preservação do patrimônio cultural, que proíbem a saída de obras importantes do país por longos períodos.
Cerca de 380 acadêmicos, artistas e outras personalidades da cultura assinaram uma carta exigindo que o governo da presidente Claudia Sheinbaum explicasse por que permitiu que essas obras deixassem o país. Além disso, em outra carta, convocaram museus na Noruega, Suíça e Alemanha, que têm exposições de Kahlo agendadas, a se solidarizarem com a causa em defesa dos direitos dos mexicanos.
“Uma geração inteira no México foi privada da presença pública permanente que os proprietários originais planejaram para esta coleção”, afirmou o grupo em sua segunda carta, publicada na plataforma de arte e-flux.
A controvérsia envolveu Sheinbaum, que defendeu o acordo e afirmou que as autoridades estavam agindo conforme a lei. Durante sua coletiva de imprensa diária, a presidente mexicana afirmou que a “maioria” das pessoas que “insistem que a coleção não permanecerá no México” são “contra o nosso governo”.
Conforme o acordo entre o Santander e a família Zambrano, do norte do México, as obras de arte serão expostas no Faro Santander, um museu no norte da Espanha com inauguração prevista para junho. Elas serão apresentadas ao lado de obras da coleção de cerca de mil peças da Fundação Santander.
Uma fonte próxima à família Zambrano, que preferiu não se identificar, estimou que a coleção Gelman vale “centenas e centenas de milhões de dólares”. (O valor segurado é de “menos de um bilhão”, de acordo com essa pessoa.)
As objeções ao acordo com o Santander se baseiam em regras estabelecidas para manter no país as obras de cerca de dez artistas mexicanos renomados dos séculos XIX e XX. A arte de Kahlo foi declarada “monumento artístico” em 1984, o que impede a saída permanente de suas obras que estavam no país naquela época, permitindo apenas empréstimos a instituições estrangeiras por até dois anos. As obras podem ser vendidas, desde que permaneçam no México.
O decreto foi emitido um ano após a publicação da biografia de Kahlo escrita por Hayden Herrera, em 1983, que desencadeou a “Fridamania” e se mostrou “profética”, segundo James Oles, professor de arte do Wellesley College residente no México. A demanda internacional pela obra de Kahlo disparou nas últimas três décadas. Um autorretrato de 1940, “El Sueño (La Cama)”, foi leiloado em Nova York em novembro de 2025 por US$ 55 milhões, incluindo taxas — um recorde para um artista latino-americano.
Os críticos do acordo entre a família Zambrano e o banco espanhol também alegaram que ele vai contra os desejos de Natasha Gelman, falecida em 1998.
Segundo Janet C. Neschis, advogada que representa a Fundação Jacques e Natasha Gelman, a família sempre pretendeu manter a coleção no México. No entanto, uma cópia do testamento de Natasha Gelman, de 1993, vista pelo New York Times, não é tão clara. Embora estipule que as obras de arte sejam exibidas em um museu, o documento descreve etapas específicas para a retirada da coleção do país, procedimento que a família Zambrano está seguindo, de acordo com uma fonte próxima a eles.
“A intenção de Natasha sempre foi manter a coleção no México”, afirmou Neschis.
Gelman legou a coleção a Robert Littman, um curador americano que foi seu conselheiro e amigo por muitos anos, porém uma série de disputas sobre a propriedade das obras de arte levou Littman a interromper as exposições no México em 2008.
As reivindicações foram rejeitadas judicialmente, disse Gerardo Estrada, ex-diretor-geral do Instituto Nacional de Belas Artes e Literatura (INBAL) do México, órgão governamental responsável por diversos museus. Ele acredita que Littman era o legítimo proprietário. O testamento de Gelman afirma que a coleção foi “legada” a Littman. Também estabelece que o núcleo original de 95 obras de arte da coleção deve permanecer intacto, porém Littman vendeu algumas peças e acrescentou centenas de outras. (Segundo Estrada, Littman ofereceu a Coleção Gelman ao governo em 2000, mas a oferta foi recusada. Ele não lembra o valor, mas relatos da imprensa indicam que na época era avaliada em US$ 200 milhões.)
Durante anos, o destino da coleção foi um mistério até que o Santander revelou em janeiro que a família Zambrano a havia adquirido em 2023. Littman não respondeu às ligações.
Estrada considerou “muito lamentável” o plano de transferir a Coleção Gelman para a Espanha. Comentários de autoridades espanholas e mexicanas sugerindo que ela poderia permanecer na Espanha por cinco ou dez anos alimentaram “suspeitas e rumores”, disse ele, de que a coleção talvez não retorne por muitos anos. Para os mexicanos, a coleção se tornou um verdadeiro mito e é imensamente valorizada.
De fato, a exposição “Contos Modernos” no Museu de Arte Moderna atraiu quase 120 mil visitantes desde sua abertura em meados de fevereiro, conforme relatou Alejandra de la Paz, a atual diretora-geral do INBAL. Entre as atrações estão uma pintura a óleo sobre Masonite de Kahlo, datada de 1943 e intitulada “Autorretrato (Diego em Minha Mente)”, bem como seu “Autorretrato (Com Colar)”, de 1933, além de obras de Diego Rivera, José Clemente Orozco, David Alfaro Siqueiros, Gunther Gerzso e María Izquierdo, todos figurando como peças-chave do movimento moderno.
Embora haja uma programação contínua de exposições de Kahlo em locais como Houston, Londres e Nova York este ano, há poucas obras da artista em museus mexicanos.
O INBAL possui algumas pinturas, conforme Luis-Martín Lozano, historiador da arte. Entre elas está “As Duas Fridas”, uma célebre tela a óleo de 1939, parte do acervo do Museu de Arte Moderna do México.
Enquanto isso, a maior coleção de Kahlo no mundo, mantida no Museu Dolores Olmedo, de propriedade privada, ao sul da Cidade do México, está fechada há seis anos.
O museu, que abriga também uma vasta coleção de obras de Diego Rivera, anunciou em fevereiro deste ano que reabriria no final de maio. Essa decisão veio após uma campanha de meses de organizações indígenas locais, que alegaram que o fechamento violava seu direito de acesso ao patrimônio cultural.
A obra de Kahlo é tão valiosa que pode não fazer mais sentido adquiri-la, opinou Oles. “Será que deveriam gastar dinheiro em uma única Frida?”, questionou ele em relação ao governo mexicano, “Ou deveriam investir na reforma dos museus?”


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