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Kyra Gracie e Malvino Salvador: da luta no tatame à batalha contra o silenciamento

Kyra Gracie e Malvino Salvador: da luta no tatame à batalha contra o silenciamento

Kyra Gracie e Malvino Salvador: da luta no tatame à batalha contra o silenciamento

Kyra Gracie e Malvino Salvador: da competição no tatame à luta contra o silenciamento

A trajetória da esportista Kyra Gracie, aos 40 anos, é marcada por conquistas de ouro e pela responsabilidade de um sobrenome que representa o Jiu-Jitsu mundialmente. Apesar disso, a empreendedora e vitoriosa atleta dos tatames revela que suas maiores batalhas não ocorreram em competições, mas nos bastidores de um ambiente historicamente sexista. Ao decidir expor anos de assédio e abusos, a esposa de Malvino Salvador, aos 50 anos, enfrentou uma nova forma de adversidade: a tentativa de silenciamento por meio de ameaças e processos legais.

Casada com o ator e empresário desde 2019 e mãe de três dos seus quatro filhos (Ayra, 11 anos; Kyara, 9; e Rayan, 5), a influenciadora une sua voz à de Malvino para mudar essa realidade. O casal utiliza sua visibilidade para educar homens e mulheres sobre os sinais da violência, salientando que, como enfatizam, “a violência não começa com um soco”.

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“É uma luta diária. Todos os dias recebo relatos, depoimentos, vemos nas notícias, todos os dias. Há momentos em que penso: meu Deus, será que chegará o dia em que não receberei notícias de mulheres que foram mortas ou feridas por terem dito ‘não’? Venho de uma geração em que, em festas, os homens tocavam em você sem permissão, e era considerado normal. Se você reclamasse, era xingada ou passava por algo pior, como beijos à força. Que tipo de mundo é esse? Relato isso para minhas filhas e elas questionam por que essas pessoas não são punidas.”

Kyra Gracie e Malvino Salvador com os filhos – Reprodução/Instagram

A pressão do silêncio e os desafios da denúncia

Em entrevista à IstoÉ Gente, Kyra descreve como o assédio opera de forma gradual. Segundo ela, o agressor testa os limites da vítima em momentos de fragilidade, começando com comentários desconfortáveis que evoluem para constrangimentos intensos. “Muitas vezes, quando você sofre assédio, o agressor espera por um momento em que esteja apenas vocês dois. Ele vai testando você. E se você não estabelece limites desde o início, a situação evolui”, explica.

A atleta destaca que cresceu em um ambiente em que a mulher era frequentemente colocada em posição de submissão — seja na remuneração de aulas ou no destaque em eventos. Essa mentalidade de “ser boazinha” e “não criar problemas” fez com que ela, mesmo sendo uma campeã mundial, se sentisse “paralisada” diante de abusos por muitos anos.

Interrogações constantes da sociedade, como “por que só denunciou agora?” ou “será que não deu margem?”, também funcionam como uma segunda forma de agressão, geralmente disfarçada de preocupação.

Represália: quando a Justiça é usada para calar

Ao optar por expor os abusos e denunciar entidades que negligenciavam protocolos de segurança, Kyra Gracie enfrentou represálias diretas. Ela revela ter sido alvo de múltiplos processos judiciais com o intuito de impedir que continuasse a se manifestar. A tentativa de silenciamento ocorre por meio de processos por calúnia e difamação usados como ferramenta de intimidação.

Apesar das retaliações sucessivas, Kyra saiu vitoriosa de todos os processos, com a Justiça reconhecendo que ela estava apenas relatando fatos e buscando mudanças.

“Já denunciei e fui processada, mas venci todos. Porque era injustificável, eu só estava falando a verdade. Recebi esses processos para que me calasse, para que não falasse sobre o assunto. Tentaram me silenciar, mas como venci os processos, posso continuar a falar a verdade e expressar minha opinião sobre o tema”, esclarece.

“Foi uma aprendizagem para mim, pois quando você é processada pela primeira vez, pensa: então agora não posso mais falar a verdade? Como funciona isso? E dentro desse contexto, entendemos o que é calúnia e que não se tratava de difamação, nem algo do tipo. Isso me deixou mais tranquila para seguir falando o que penso e buscando mudanças”, completa.

Malvino Salvador se junta à conscientização

A sintonia entre as declarações de Kyra e Malvino se concretiza no projeto “Violência Não Começa Com Soco”. Malvino traz a perspectiva masculina para o debate, atingindo um público que muitas vezes desconsidera as vozes femininas por preconceito. O ator ressalta que a violência é progressiva e que identificar os indícios precoces é crucial. Enquanto Kyra se concentra na defesa física e psicológica das mulheres, o artista enfoca na reeducação.

Em conversa, Salvador menciona que utiliza sua vivência familiar — proveniente de um lar em que a mãe jamais foi submissa — para evidenciar que o respeito deve ser fundamental. O casal destaca também que trabalha diariamente para que o filho homem compreenda o respeito às mulheres e para que as filhas saibam impor limites desde cedo.

“Por meio do nosso conhecimento em defesa pessoal, alertamos sobre a violência contra as mulheres. Ela não surge repentinamente. Geralmente, é um processo gradual”, afirma Malvino.

Legado para além da televisão e dos tatames

Para o casal, o empreendedorismo e a vida pública adquiriram um novo propósito. Além da expansão internacional de sua academia, a Grace Kore, o objetivo é reduzir os índices de feminicídio e violência no Brasil.

Kyra relata que recebe, diariamente, relatos de mulheres que saíram de relacionamentos abusivos após assistirem seus vídeos. A mensagem é clara: a autoconfiança e a comunicação assertiva são instrumentos de libertação. Ao unir a força física do Jiu-Jitsu à força emocional da denúncia, Kyra e Malvino estão contribuindo para formar uma nova geração em que o “não” é respeitado e o silêncio não é mais tolerado.

Malvino Salvador e Kyra Gracie estão casados desde 2019 – Reprodução/Instagram

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