Vale a pena indexar o preço do gás ao Henry Hub agora que o petróleo está mais caro?
PIPELINE. Novidade de 2026, contrato de gás da Petrobras vinculado ao Henry Hub tende a se tornar mais competitivo com a elevação dos preços do petróleo.
Fórum do Gás pede pacto nacional para diminuir a dependência do Brasil de choques externos. ANP credencia 1º certificador de CGOBs. Importação privada de GNL na Argentina e mais. Confira:
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O ano de 2026 marca a introdução da indexação do preço do gás natural da Petrobras ao Henry Hub (HH).
Ou seja, a partir deste ano quase 20% do volume vendido pela estatal às distribuidoras passa a ser atrelado ao preço de referência do gás no mercado dos Estados Unidos, e não exclusivamente à cotação do petróleo.
A mudança ocorreu num momento turbulento: primeiro, coincidiu com o início dos contratos vinculados ao Henry Hub, durante um pico de preços nos EUA devido à tempestade de inverno Fern que afetou o mercado americano no início do ano.
No entanto, o cenário desfavorável ao novo indexador logo se transformou: a crise energética nos Estados Unidos passou e a guerra no Oriente Médio elevou o preço do barril do Brent para cerca de US$ 100, mostrando que os contratos vinculados ao Henry Hub podem se tornar mais competitivos no futuro.
Na semana passada, abordamos como o impacto do conflito deve começar a refletir nos custos do gás a partir de maio, durante o próximo ajuste trimestral dos contratos da Petrobras com as distribuidoras; e que o aumento dos preços da estatal, previsto em 18%, só não será maior, devido ao início da indexação ao Henry Hub.
No entanto, será que o HH é mais vantajoso?
A seguir, a gas week analisa como a indexação ao preço do gás nos EUA influencia no mercado nacional e qual a perspectiva dos contratos vinculados ao Henry Hub em comparação com os contratos baseados no Brent a curto e longo prazo.
Antes, uma correção: ao contrário do informado na newsletter da semana passada, o reajuste estimado dos preços da Petrobras, para maio, é de 18%, e não 13%. Segue a versão corrigida e o nosso pedido de desculpas.
O indexador gás-gás
Com o início da indexação dos contratos da Petrobras ao Henry Hub, o preço do gás brasileiro deixa de ser influenciado apenas pelos preços do petróleo e passa a contar com uma indexação gás-gás – apesar do preço do gás nacional ainda estar sujeito a referências externas.
A indexação ao Henry Hub não é exatamente uma novidade:
- em sua chegada como fornecedora de gás no Brasil, em 2021, a Shell chegou a firmar um contrato (que já expirou) que permitia à Copergás escolher o indexador de sua preferência (HH ou Brent);
- desde então, a Galp também implementou a indexação gás-gás em alguns de seus contratos – com a Gasmig, por exemplo.
Os contratos da Petrobras marcam, no entanto, um ponto de virada em termos de volume – embora o Brent continue sendo o principal indexador.
Conforme levantamento da Wood Mackenzie, cerca de 82% do volume contratado pelas distribuidoras permanece vinculado ao Brent – essa exposição pode variar entre 80% e 86% ao longo do período de 2026 a 2030.
O petróleo ainda é o principal indexador e, se você é um consumidor de São Paulo ou Rio de Janeiro, os dois maiores mercados de gás do país, as variações do preço do barril ainda continuarão a influenciar sua conta de gás, por exemplo.
No entanto, algumas distribuidoras estaduais já possuem uma exposição maior ao Henry Hub. Cinco delas têm mais da metade de seus contratos vigentes até 2030 vinculados ao mercado americano, segundo a consultoria:
- Algás (AL): 55% vinculado ao HH
- ES Gás (ES): 60% vinculado ao HH
- Gasmig (MG): 95% vinculado ao HH
- PBGás (PB): 55% vinculado ao HH*
- SCGás (SC): 52% vinculado ao HH
* o contrato da PBGás ainda não foi finalizado
O que vale mais a pena: Brent ou Henry Hub?
A escolha entre um indexador ou outro apresenta vantagens e riscos distintos:
- a exposição ao Henry Hub tende a proteger as distribuidoras em crises geopolíticas globais, como o atual conflito no Oriente Médio;
- mas pode aumentar a exposição às dinâmicas do mercado dos EUA, sem eliminar, portanto, a exposição a fatores externos ao mercado brasileiro.
E embora o mercado dos Estados Unidos tenha suas particularidades, isso não significa que o Henry Hub esteja totalmente imune aos impactos globais.
Por exemplo, o aumento da demanda por gás natural liquefeito (GNL) no mercado internacional pode eventualmente pressionar os preços do HH.
Além disso, a competitividade entre os dois indexadores depende muito das condições comerciais oferecidas pela Petrobras: um contrato vinculado ao petróleo pode ser precificado em um percentual de 11% do Brent ou 13%. Da mesma forma, um contrato vinculado ao HH pode apresentar condições distintas, dependendo do tempo de contrato, por exemplo.
A Wood Mackenzie destaca que, em 2026, o Brent e o Henry Hub seguem movimentos distintos:
No 1º semestre, os contratos vinculados ao Henry Hub estão mais caros, em média:
- uma combinação dos efeitos da tempestade de inverno Fern, já incorporados aos preços do HH desde o início do ano;
- e o fato de o pico de preços do Brent ser diluído nos ajustes trimestrais da Petrobras, com impactos sobre os contratos a partir de maio.
No 2º semestre, a tendência é de que os contratos vinculados ao Henry Hub se tornem mais favoráveis.
- o Brent deve refletir o impacto direto da guerra, especialmente entre março e maio, pressionando os preços do barril à medida que os ajustes ocorrem, principalmente nos períodos de maio e agosto.
Tudo depende, é claro, da extensão da guerra e de quanto tempo seus efeitos persistirão nos preços internacionais.
E se a Petrobras adotará ou não medidas para mitigar esses efeitos, como discutimos na edição anterior.
Em uma visão de longo prazo, a Wood Mackenzie projeta que, a partir de 2027, os preços do gás serão determinados pelos fundamentos de mercado:
- o Brent deve se estabilizar na faixa de US$ 60 a US$ 70;
- o Henry Hub continuará sob pressão devido ao aumento estrutural da demanda nos EUA, especialmente por novos projetos de GNL e termelétricas, o que coloca os contratos baseados no Brent ligeiramente em vantagem.
Há nuances nessa análise: a Wood Mackenzie ressalta que, se os preços do petróleo permanecerem elevados, isso pode sinalizar um aumento na produção de petróleo nos EUA e, consequentemente, de gás associado – o que poderia ajudar a conter o aumento dos preços do Henry Hub, por exemplo.
Por que o HH pouco sentiu os efeitos da guerra?
Chama a atenção como o Henry Hub foi pouco afetado pelo conflito no Oriente Médio.
Enquanto os preços de referência do mercado europeu (TTF) e asiático (JKM) dispararam para os níveis mais altos desde 2022, em resposta ao bloqueio do Estreito de Ormuz e aos ataques iranianos às instalações de liquefação do Catar, a Administração de Informação de Energia (EIA), do governo dos Estados Unidos, reduziu suas projeções para o HH para o segundo e terceiro trimestres de 2026.
Essa situação reflete, em parte, a recuperação dos níveis de armazenamento de gás nos EUA; e a limitação da capacidade dos Estados Unidos de aumentar suas exportações de GNL para compensar a redução na oferta do Catar.
A EIA aumentou suas projeções de exportação de GNL dos Estados Unidos em 2026, de 16,4 para 17 bilhões de pés cúbicos/dia – novo recorde anual, decorrente da entrada de nova capacidade e do adiamento de manutenções programadas.
No entanto, existem limitações para que os produtores americanos exportem mais, o que poderia pressionar os preços do HH a curto prazo.
A Rystad Energy, em relatório publicado em março, comparou a situação atual com a de 2022, quando os preços spot do mercado dos EUA dispararam devido à guerra entre Rússia e Ucrânia.
- No episódio anterior, o mercado de gás dos EUA já estava sob pressão estrutural quando a Europa enfrentou a escassez de gás russo – o que levou à queda nos níveis de armazenamento nos Estados Unidos.
- Agora, os estoques estão mais confortáveis.
A consultoria destaca que o Henry Hub permanece sujeito aos fundamentos domésticos de oferta e demanda, embora desde 2022 os mercados de gás dos EUA e o de GNL global estejam mais interligados – a capacidade de exportação de GNL dos Estados Unidos aumentou 35% e representa atualmente 15% da produção total de gás do país.
Segundo a Rystad, mais de 90% da capacidade dos EUA está comprometida com contratos de longo prazo vinculados ao Henry Hub – e a probabilidade de o HH elevar os preços globais do GNL é maior do que o contrário.
Embora os operadores de GNL dos EUA possam aumentar a utilização em 5 a 10% nos próximos meses, a Rystad Energy prevê que o impacto nos preços será limitado.
GÁS NA SEMANA
Soberania energética. Fórum do Gás defende urgência em um pacto nacional para aumentar a oferta e competitividade do gás natural, visando reduzir a dependência do mercado brasileiro em relação a choques externos.
LRCAP. Willamy Frota, diretor da Aneel, foi sorteado para relatar os recursos da Âmbar Energia (grupo J&F) que buscam reverter parcialmente os resultados do leilão de 18/3.
GNV mais barato. O governo alagoano reduziu a alíquota do ICMS sobre o GNV, de 20% para 12%. A Algás estima que a redução resultará em uma queda de 31 centavos por metro cúbico no preço do gás veicular.
CGOBs. ANP aprova o credenciamento do Instituto Totum como primeiro Agente Certificador de Origem (ACO) do Brasil, autorizando a empresa a certificar a emissão dos Certificados de Garantia de Origem de Biometano (CGOBs).
Guerra no Oriente Médio. O acordo de cessar-fogo entre EUA e Irã não foi suficiente para garantir a retomada do trânsito de navios pelo Estreito de Ormuz, indicando que a volatilidade nos preços do barril persistirá.
Analistas alertam que o acordo para interromper o conflito é instável e a volatilidade nos mercados de energia deve continuar até o final de 2026.
- A QatarEnergy se prepara para retomar a produção de GNL em Ras Laffan, após interrupção devido a ataques militares iranianos à infraestrutura, em março.
- A empresa reiniciou duas das três unidades de liquefação do Qatargas-1, com capacidade total para 10 milhões de toneladas/ano.
Importação privada de GNL na Argentina. A Enarsa recebeu propostas técnicas da Trafigura e Naturgy na licitação internacional para importação e comercialização privada de GNL, visando atender à demanda no inverno.


