Edição de Sábado: Cercados – Meio
A estrada enlameada pela chuva forte da tarde faz qualquer curva parecer um desafio de rali. A caminhonete blindada rebola para um lado e para o outro, enquanto o motorista se esforça para manter o carro estável. Há um clima de tensão contida. Estamos todos quietos. Apenas a voz de um homem no rádio, em russo, corta o silêncio dessa noite fria, em que a garoa, de tempos em tempos, vira neve rala; mais grãos de gelo do que flocos. Nos aproximamos das linhas de combate. Estamos a 15 quilômetros da Rússia, na província de Kharkiv, na Ucrânia. Os drones dos dois lados infestam os céus em busca de qualquer coisa que se movimente, de noite ou de dia, sob o sol ou sob as nuvens. Entramos no que os soldados aqui chamam de Zona da Morte.
O homem do rádio fala mais alto, e os soldados que nos acompanham parecem inquietos. De repente, param o carro sob uma árvore e nos mandam sair da caminhonete e nos espalhar. Tudo agora parece rápido, barulhento. Meu tradutor grita para encontrarmos uma árvore e nos escondermos sob ela. Os soldados pegam as espingardas calibre 12 com munição para matar pássaros. Apontam-nas para o céu. Parecem buscar algo, mas, naquela escuridão, é impossível ver qualquer coisa. As armas seguem apontadas para o céu e então um zumbido distante faz com que tudo se aquiete novamente.
Minha colega, uma jornalista brasileira que me acompanha, pergunta sussurrando: “Tá ouvindo?”. Não estou. Sigo cego e surdo naquela estradinha enlameada, a poucos quilômetros das linhas de combate, onde russos e ucranianos se matam nas trincheiras como se estivessem na Primeira Guerra Mundial. De repente, o zumbido cresce, logo se parece com um enxame de abelhas e me faz lembrar do meu próprio drone caseiro. Estamos todos quietos, imóveis, como que esperando uma explosão ou que os soldados que nos acompanham abram fogo contra algo que não se vê.
Eu carrego comigo um detector de drones. Mas não consigo usá-lo. Estou muito concentrado em tentar filmar esta cena na escuridão, com meu foco automático ora concentrando-se nos galhos que me envolvem, ora na silhueta do soldados que contrastam com o céu levemente azul, iluminado pelas luzes de uma cidade próxima. Tenho medo de acionar o aparelho e, com a luz de sua tela, atrair a atenção do pequeno drone que nos sobrevoa. O zumbido é mais alto, mas não consigo distinguir se ele está a dois, três ou dez metros de distância. Na verdade, não consigo ter muita ideia de nada. Concentro-me na minha câmera e, pelo visor, a tranquilidade domina o medo.
O zumbido então vai se afastando. O drone talvez não tenha nos visto ou tenha considerado que não éramos um alvo importante o suficiente para encerrar sua breve vida de kamikaze sobre nós. Logo o homem do rádio volta. Está mais calmo. Informa que o drone está se afastando e que devíamos sair dali rápido e buscar abrigo. Voltamos para o carro. O motorista agora parece não se importar com a lama, com as curvas, com o bem-estar da caminhonete e de seus ocupantes.
Segue rápido. Seu colega está na carroceria da caminhonete com outro soldado. Ambos, sabe-se lá como, com espingardas apontadas para o céu e equilíbrio suficiente para não caírem. O carro para, um homem com uma lanterna vermelha surge e nos guia por um quintal até o porão de uma casa que, de fora, parece abandonada, como tantas outras aqui. Entramos em um bunker. Salvos.
Lá dentro quatro soldados observam o que se passa a nosso redor. Ao menos seis drones de observação estão no ar, monitorando o que se passa nos céus e na terra. Todos estão equipados com visão térmica. Tudo que emite calor, de alguma forma, se trona visível para os drones que permanecem em revezamento 24 horas observando tudo e todos. Dali de dentro, podem enviar o comando para uma das diversas unidades de artilharia que nos rodeiam para atingir algum inimigo que circule pela área. Ou acionar os drones de ataque que seguem a postos para perseguir alguma equipe de dois ou três soldados russos que eventualmente aventuram-se por trás das linhas inimigas em missões de sabotagem e investigação.
Cada vez mais, essa é uma guerra lutada nos céus, por equipamentos baratos, que custam entre algumas centenas de dólares a poucas dezenas de milhares de dólares. As previsões de que as guerras do futuro seriam dominadas por mísseis de custo milionário, tanques indestrutíveis e aviões de caça capazes de voar sem serem detectados por qualquer sistema de defesa anti-aérea caiu por terra na Ucrânia. O que faz a diferença no campo de batalha são esses pequenos aparelhinhos que surgiram como brinquedos de adultos e se transformaram em armas de guerra profundamente letais.
Não se sabe ainda o número correto de vítimas dessa guerra. Os últimos estudos dão conta de que cerca de 2 milhões de pessoas, russos e ucranianos, foram mortos e feridos desde fevereiro de 2022. Tampouco se sabe exatamente quantas dessas vítimas foram atacadas pelos drones. Mas há uma certeza entre quem vive o dia a dia no front: os drones são, nesse momento, os maiores causadores de ferimentos e mortes no conflito. Até há poucos anos, a artilharia era responsável por cerca de 80% das vítimas dessa guerra. Os drones assumiram a liderança e estima-se que hoje 90% de quem morre ou sobrevive aos ferimentos no campo de batalha tenha sido vítima de um desses aparelhinhos.
Andrii, um anestesiologista de combate, passa a maior parte de seus dias no subsolo de uma farmácia destruída perto das linhas de frente de Kharkiv, parcialmente ocupada pelos russos e sob intensa pressão das tropas de Moscou. Ele e um grupo de médicos, paramédicos e enfermeiros coordenam um hospital de campanha, o primeiro ponto de atendimento médico de urgência após alguém ser ferido em combate. “Pelo menos aqui, 99% dos nossos pacientes chegam com ferimentos provocados por drones”, me conta ele, entre um gole de café e outro, enquanto aguarda a chegada de novos pacientes.
“Tudo depende muito do tempo. Se estiver nublado, chovendo ou com neve significa que teremos uma noite tranquila.” Naquela madrugada nevou e nenhum soldado foi levado para o hospital de campanha. “Com o tempo assim há pouca atividade nas linhas de frente”, me dizia ele, quase em tom de consolo por não termos assistido sua equipe trabalhando. “Mas se você ficar aqui uns dias vai ver cenas bastante fortes, os drones são piores que a artilharia”.
O que impressiona nesta guerra de drones ultra-baratos é a quantidade deles em qualquer ponto dos quase 1 mil quilômetros das linhas de contato entre as tropas russas e ucranianas. Apenas em 2025 a Ucrânia sozinha colocou no ar todos os dias quase 11 mil drones para combater os russos. E a imensa maioria deles não são do porte dos famosos Shahed 136 iranianos que são usados amplamente nesta guerra e que se tornaram o terror das defesas israelenses e americanas na recente guerra contra o Irã. Para este ano a estimativa é de que a média diária de drones no ar seja de 19 mil drones, um salto de 4 milhões de drones por ano para 7 milhões em 2026. Isso tudo sem contar o número desses aparelhos letais usados pela Rússia, que deve ser ainda maior que os ucranianos.
Guerra artesanal
Aqui na Ucrânia, a guerra aérea se dá com pequenos drones de plástico ou isopor, fabricados nas chamadas “fazenda de drones” com impressoras 3D e equipados com pequenos e baratos motorzinhos elétricos importados da China. São montados pelos soldados ali mesmo no front, e produzidos às centenas diariamente. Não há muita tecnologia no processo. Há, na verdade, muita inventividade. Aos drones com visão em primeira pessoa, muito usados no Brasil para gravações de vídeos para publicidade, são acopladas bombas simples, usadas em armas ou em minas terrestres. Os explosivos são presos aos drones por garras plásticas, aquelas conhecidas como “engasga gatos”, ou fitas. Tudo muito improvisado, tudo muito letal. Há, claro, drones de produção industrial, com capacidades e tecnologia avançadas.
Mais recentemente, o terror está nos drones equipados com carretéis de cabos de fibra óptica, que conectam o aparelho ao controle sem a necessidade de envio de sinais eletrônicos. Há dois anos os drones atingiam seus alvos a cerca de 5 quilômetros dos operadores, que sempre estavam nas primeiras linhas de combate. Os carreteis acoplados aos drones podem ter até 40 quilômetros de cabos de fibra ótica e os transformaram em uma espécie de pipa, em que os comandos e as informações dependem apenas das linhas que os conectam. Assim, voam sem ser detectados pelos modernos sistemas de embaralhamento de sinais que se proliferam no front. A zona da morte, uma área em que a chance de ser atingido por um drone é muito alta, pulou daqueles 5km em 2023 para os atuais 30km. Tudo mudou. Os tanques se foram, o movimento de grandes contingentes de soldados se acabou e nem mesmo a evacuação dos feridos pode ser feita por veículos.
A única forma eficaz de abatê-los antes que explodam sobre seus objetivos é utilizando espingardas calibre 12 com munição para matar passarinhos. “Usamos uma tecnologia do século 17 para destruir um equipamento que é o símbolo do século 21”, conta um jornalista americano que trabalha para um veículo de imprensa ucraniano. Ele, como outros aqui, vai agora para o front armado com uma espingarda. “Os meus conflitos éticos na cobertura de guerra se acabaram, estou atirando contra uma máquina, não contra um ser humano”, diz ele, em um bar de Kiev, enquanto me mostra fotos de suas andanças pela região do Donbas, sem no entanto me autorizar a usar seu nome por medo de ser criticado por seus pares.
Os pequenos drones também estão alterando a vidas nas cidades próximas dos campos de batalha. Izium, por exemplo, está a 30 quilômetros das trincheiras. Ainda assim, a cidade está quase toda coberta por redes estendidas sobre altas estacadas de madeiras em uma tentativa de impedir que os drones atinjam civis e militares que circulam por suas ruas. As redes, muitas delas usadas para a pesca no Mediterrâneo, cobrem ruas, postos de gasolina, check-points e cafés. “A gente vai se acostumando com tudo na guerra, a cada dia nos acostumamos com algo novo. Agora essas redes estão por todos os lugares e nos acostumamos com elas também”, conta Violeta, uma cozinheira desempregada cujo marido segue lutando no front.
Izium é a última cidade na província de Kharkiv antes de se entrar na região do Donbas, no extremo Leste da Ucrânia e alvo prioritário da Rússia desde 2014, logo após assumir o controle da Crimeia. Dali em diante não há rodovia que não esteja coberta pelas redes de pesca e pelas telas usadas pelos agricultores holandeses para proteger suas tulipas e que foram doadas para a Ucrânia. É possível dirigir dezenas e dezenas de quilômetros em estradas “teladas” contra os drones. A imagem é distópica e a ideia de utilizar redes de pesca para proteger-se contra máquinas de guerra soa algo como ridícula. No entanto, as telas são altamente eficazes.
Outra tela
Não muito longe do centro de Izium um grupo de soldados se esconde em um bunker rodeado de telas tentando localizar inimigos para atacar. São jovens e operam drones de asa fixa, feitos de isopor, e que carregam antigas bombas soviéticas que seguem no arsenal ucraniano. As telas que cobrem as cidades ucranianas também cobrem as posições russas, distantes dali menos de uma dúzia de quilômetros. Com a ajuda de drones de observação, identificam seus alvos e disparam seus drones com pressa, temendo eles mesmos serem alvos de outros drones.
Pela tela um deles avista dois soldados russos escondidos sob as árvores. Um primeiro drone é enviado e explode ao lado dos dois soldados. Pelo drone de observação, o ataque parece ter sido certeiro. Os dois estão imóveis, provavelmente mortos. No entanto, um deles volta a se mover. Um novo drone é enviado e atinge o soldado ferido. Questionado por uma colega jornalista o que sentia ao matar duas pessoas pela tela do computador, ele demonstra frieza e diz simplesmente não sentir nada. “É como um jogo de videogame”, conta ele.
Giuliano Valêncio tem 26 anos e sempre amou games. Com o dinheiro que ganhou trabalhando como vigia no Mato Grosso montou o computador de seus sonhos para jogar Battle Field, uma das mais famosas franquias de jogos de guerra. Gostava tanto da coisa que veio para a Ucrânia ser soldado. Bom de mira, virou o responsável por abater drones em áreas sensíveis para a logística de guerra. “Meu papel era limpar a área por onde caminhões e equipamentos passariam”, diz ele. Derrubou múltiplos drones, combateu por quase oito meses e jamais viu um russo. “A guerra de verdade não tem nada a ver com o que a gente imagina”, diz. No dia cinco de março deste ano, Giuliano pediu que seu comando enviasse um powerbank para sua posição para recarregar seu rádio. Estava tão perto das linhas de frente que a distribuição de equipamentos, comida ou água só pode ser feita, claro, por drones. “Naquela noite vários pacotes caíram sobre nossa posição”, conta.
Pela manhã encontrou um dos pacotes em que ele imaginava estar a bateria que pedira. Ao se aproximar dele, o pacote explodiu. Dilacerou sua mão e seu pé direitos. Estilhaços cobriram suas pernas. Mas Giuliano sobreviveu. Recuperando-se em um hospital dedicado apenas a amputados no Leste da Ucrânia, Giuliano ainda vai demorar a voltar ao Brasil. Ele relata que os dias que se seguiram à explosão foram de dores tão intensas que ele acredita que com uma arma na mão poderia por fim à vida para parar de sentir dor.
Mais do que isso, o que lhe apavorava mesmo era ver seu antebraço direito sem a mão. “Ali, ainda sangrando, com os ossos expostos, eu olhava e pensava: ‘meu deus, nunca mais vou conseguir jogar videogame no computador que tanto lutei pra montar’”. Giuliano aguarda uma prótese na mão e outra na perna. Seus médicos lhe garantiram que ele vai conseguir continuar combatendo nos jogos de guerra.
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