Lideranças ligam genocídio em Gaza e ao bloqueio contra Cuba: ‘Imperialismo e guerra são a mesma coisa’
Guerras, bloqueios econômicos, militarização e avanço da extrema direita fazem parte de uma mesma reorganização imperial do mundo, marcada pela disputa de territórios, destruição de soberanias nacionais e aprofundamento das desigualdades sociais. A avaliação foi compartilhada por lideranças da Palestina, Cuba e Brasil durante a mesa “Imperialismo, guerra e desordem global: uma resposta da esquerda”, realizada nesta sexta-feira (15), em São Paulo (SP), durante a conferência internacional “Good Night, Far Right – A Saída é Pela Esquerda”, organizada pela Fundação Rosa Luxemburgo.
Participaram do debate o militante palestino Imad Touma, o filósofo cubano Félix Valdés García e a presidenta nacional do Psol, Paula Coradi. A mediação foi feita por Philip Degenhart, diretor-executivo adjunto da Fundação Rosa Luxemburgo, e pela militante palestina Donia Abbas.
Ao longo da mesa, os participantes defenderam que a escalada global de guerras e conflitos internacionais está diretamente ligada ao fortalecimento de projetos autoritários e ao avanço da extrema direita em diferentes regiões do mundo.
“O mundo foi sequestrado por gângsteres da política e da economia”, afirmou Félix Valdés García ao abrir sua intervenção. O filósofo cubano relacionou o genocídio em Gaza ao bloqueio econômico imposto há décadas contra Cuba e avaliou que “imperialismo e guerra são a mesma coisa”.
Segundo ele, a normalização de sanções econômicas, ocupações militares e destruição de territórios depende da construção permanente de narrativas políticas que transformam países e povos inteiros em ameaças internacionais. “As narrativas construídas para justificar atos de pilhagem e barbárie são muito perigosas”, afirmou. “No caso de Cuba, seguem dizendo há décadas que somos uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos.”
García também criticou o que chamou de hesitação de setores progressistas diante da situação cubana. “Não estamos falando apenas de salvar um governo ou um país comunista, mas de salvar uma parte deste mundo e da América Latina”, disse.
‘O mesmo inimigo’
O militante palestino Imad Touma afirmou que a guerra em Gaza escancarou as divisões estratégicas da esquerda internacional e a dificuldade de construir respostas comuns diante do avanço imperialista.
Segundo ele, parte da esquerda ainda reage de forma fragmentada às guerras e às ofensivas militares promovidas por potências globais. “O mesmo inimigo está no Oriente Médio e na América Latina”, afirmou. “São as mesmas empresas armamentistas, o mesmo sistema que lucra com a guerra.”
Touma argumentou que o genocídio em Gaza não se sustenta apenas por decisões políticas do governo de Benjamin Netanyahu, mas também pelos interesses econômicos da indústria bélica internacional. “Essa guerra não continua apenas porque Netanyahu é louco. Existem empresas lucrando com isso”, disse.
O militante avaliou que a extrema direita conseguiu se apresentar como força política radical diante de uma esquerda cada vez mais institucionalizada e distante das bases populares. “A extrema direita tem sido mais radical do que nós”, afirmou. “Nós deixamos as ruas e fomos para ONGs e institutos.”
Segundo ele, o crescimento de movimentos ultraconservadores também está ligado à incapacidade da esquerda de organizar respostas concretas para trabalhadores e setores marginalizados. “O mundo virou um lugar selvagem e depois eles se apresentam como solução para esse mesmo caos que produziram”, resumiu.
Touma defendeu ainda que o movimento internacional de solidariedade à Palestina avance para além do apoio simbólico ao povo palestino e se transforme em uma articulação mais ampla contra a militarização global e o lucro das guerras.
“Precisamos transformar o movimento pró-Palestina em um movimento internacional antiguerra e antimilitarização”, afirmou. Ao encerrar sua participação, citou Antonio Gramsci ao defender que “o otimismo da vontade deve derrotar o pessimismo intelectual”.
“Se continuarmos divididos e inofensivos como estamos hoje, seremos cada vez mais derrotados”, defendeu o militante palestino Imad Touma. | Crédito: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato
Disputa civilizatória
A presidenta nacional do Psol, Paula Coradi, afirmou que a extrema direita contemporânea opera como uma das expressões políticas da reorganização imperial global após o desgaste do neoliberalismo.
Segundo ela, o crescimento internacional de discursos ultraconservadores está diretamente ligado às frustrações sociais acumuladas por décadas de precarização do trabalho e aumento das desigualdades.
“Esse imperialismo vem acompanhado de um conjunto de ideias que remetem a um passado fantasioso, em que mulheres, pessoas negras, LGBT e imigrantes devem voltar a posições de subserviência”, afirmou.
Para Coradi, os ataques a direitos das mulheres e das minorias não são elementos secundários da extrema direita, mas parte central de um projeto econômico e político de aprofundamento da exploração do trabalho. “Isso não é simbólico. É material, concreto e diretamente vinculado à exploração”, disse.
A dirigente do Psol avaliou ainda que mulheres têm ocupado papel central na resistência internacional ao avanço autoritário. “As mulheres têm sido um cordão sanitário contra a extrema direita”, afirmou.
Ao defender uma reconstrução internacionalista da esquerda, Coradi argumentou que os setores progressistas precisam voltar a apresentar um projeto amplo de transformação social. “A disputa que estamos travando é civilizatória”, disse. “A esquerda precisa apresentar um projeto de totalidade.”
Segundo ela, isso passa pela capacidade de reconectar a esquerda à diversidade concreta da classe trabalhadora contemporânea. “A classe trabalhadora tem gênero, tem raça, tem formas de amar e de existir no mundo”, afirmou.
A conferência Good Night, Far Right – A Saída é Pela Esquerda segue até sábado (16), em São Paulo, com debates sobre estratégias internacionais de enfrentamento à extrema direita.
*Esta produção é uma parceria entre Fundação Rosa Luxemburgo e Brasil de Fato.


