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IA produzirá decisões com mais objetividade do que os juízes, diz Barroso

IA produzirá decisões com mais objetividade do que os juízes, diz Barroso

IA produzirá decisões com mais objetividade do que os juízes, diz Barroso

Luís Roberto Barroso. Foto: Divulgação/Esfera Brasil

Publicado no Conjur

O impacto das novas tecnologias — e da inteligência artificial, acima de tudo — sobre o sistema de Justiça é imenso, seja do ponto de vista instrumental, com o uso de IA para produzir decisões e peças processuais, seja sobre o Judiciário como um todo, com a redução do número de processos. Essa foi a avaliação feita pelo ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso em sua participação no 5º Fórum Esfera, neste sábado (23/5), no Guarujá (SP).

“Nós produzimos, ainda na minha gestão, um programa que faz minuta de decisão, que eu não liberei porque ainda não temos um código de ética maduro o suficiente para deixar a inteligência artificial produzindo decisões. Mas eu não tenho nenhuma dúvida de que este é o futuro: a IA produzindo decisões com maior objetividade do que os juízes”, disse Barroso, ex-presidente do STF.

O magistrado destacou, porém, que esse uso da IA no Judiciário precisa ser feito com a supervisão humana. Caberá a cada juiz explicar por qual motivo usou ou não a tecnologia ao decidir. Por tudo isso, explica o ministro, é preciso que o sistema esteja preparado para lidar com as muitas dimensões do fenômeno, em que pese a grande dificuldade de regulá-lo.

“O juiz terá o ônus argumentativo de demonstrar por que ele não está seguindo a inteligência artificial. As pessoas se preocupam com viés algorítmico, e é uma preocupação relevante. Mas juízes de carne e osso também têm preconceitos e fazem discriminações. Portanto, fazer de conta que a inteligência artificial não está acontecendo é como parar o vento com as mãos. Ela vai chegar, e temos de regulá-la da melhor forma possível”, disse Barroso em painel apresentado pela jornalista Daniela Lima.

Ele informou que, com a inteligência artificial, o STF conseguiu reduzir a carga de processos em estoque de 150 mil para 20 mil. E isso apenas com um programa capaz de fazer a seleção de temas em que já havia precedente, eliminando os recursos repetitivos.

Desafio

Por outro lado, Barroso destacou que o principal obstáculo referente à regulação jurídica da inteligência artificial diz respeito à velocidade com que essa tecnologia se desenvolve. Nesse sentido, ele lembrou que, se a internet levou cerca de sete anos para se popularizar, o ChatGPT, por exemplo, chegou a cem milhões de usuários em dois meses.

“A regulação da inteligência artificial é muito difícil. É como lidar com um trem em movimento. Mil cientistas já pediram por duas vezes para que seja dada uma pausa no desenvolvimento da IA a fim de que um código de ética seja produzido. Mas ninguém para, pois ninguém quer ficar para trás.”

O ministro apontou ainda um outro desafio à regulamentação: a assimetria de conhecimento entre reguladores e regulados no âmbito das novas tecnologias.

“É difícil regular alguma coisa na qual aquele (desenvolvedor) que se deseja regular sabe muito mais do que você (legislador). Isso não é singelo”, disse Barroso.

“Avenidas de desinformação”

ChatGPT. Foto: Shutterstock

Barroso começou o painel discorrendo sobre a substituição dos meios análogicos tradicionais pela tecnologia digital. Segundo ele, tal transformação possibilitou a universalização dos computadores pessoais, dos telefones celulares e do acesso à internet. Além disso, ampliou de maneira significativa a comunicação social.

“Democratizou o acesso ao conhecimento, à informação e ao espaço público. Essa é a parte boa. Porém, isso acabou com os filtros que existiam nos meios de comunicação tradicionais. De modo que qualquer coisa chega ao espaço público.”

Segundo o ministro, porém, tal substituição promoveu a “tribalização da vida” e uma crise no modelo de negócios da imprensa tradicional — que, embora seja um negócio privado, desempenha o papel muito importante de criar um “conjunto de fatos comuns” com base nos quais as pessoas formam suas opiniões.

“O que aconteceu é que agora cada tribo tem a sua narrativa. Portanto, não conseguimos mais trabalhar sobre fatos comuns. No meu bolso eu tenho uma caneta azul. A partir daí, alguém pode dizer que prefere uma caneta vermelha ou preta. Mas se alguém disse que isso aqui é um pneu, nós perdemos a capacidade de comunicação. Isso é um pouco o que aconteceu no mundo”, disse Barroso no Fórum Esfera. O evento é promovido anualmente no litoral paulista e discute caminhos para o crescimento sustentável do país.

O magistrado entende que esse fenômeno, ao mesmo tempo em que reduziu o número de assinantes de veículos da imprensa tradicional, abriu “avenidas de desinformação” e facilitou os discursos de ódio e as teorias conspiratórias.

“Esse é um problema civilizatório. Mas não tenho uma visão pessimista (do futuro). A questão é de educação, de como lidar com as novas tecnologias. As pessoas vão ter que ser reeducadas para esse novo mundo.”

Lado bom

Ele abordou ainda o impacto positivo da inteligência artificial na sociedade. Segundo Barroso, a IA traz diversos benefícios, como a maior capacidade de tomada de decisões e de armazenamento de informações. Ela traz mais velocidade e dinamismo para a difusão das informações e impactos positivos na medicina, por exemplo.

“Mas traz impactos negativos. O uso bélico da inteligência artificial. O impacto sobre o mercado de trabalho. E o impacto em termos de desinformação. Pois somos todos ensinados a acreditar naquilo que vemos e ouvimos. No dia em que não pudermos mais acreditar nisso, a liberdade de expressão terá perdido o significado.”

Ainda sobre os obstáculos enfrentados pelas iniciativas de regulação da inteligência artificial, o ministro insistiu na necessidade de conscientização das pessoas para os riscos e malefícios provocados pelo mau uso da IA generativa — o que, em sua visão, deve ocorrer em paralelo com a regulamentação dessa tecnologia.

“É preciso civilizar e educar as pessoas a não usarem a inteligência artificial de uma maneira negativa, criminosa. Eu tenho fé que isso possa acontecer, como já aconteceu em muitas áreas. Mas é um processo, e esse processo envolve riscos.”

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