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A democracia brasileira entrou em transição autocratizante

A democracia brasileira entrou em transição autocratizante

A democracia brasileira entrou em transição autocratizante

Os democratas brasileiros estão perplexos com as mais recentes ações e palavras de Gilmar Mendes. Ele não parece um juiz típico de suprema corte e sim um oligarca do novo arranjo de poder que se erigiu no Brasil graças ao hegemonismo lulopetista. Mas Gilmar é apenas o sintoma de uma transição política adversa à democracia que está em curso neste momento.

Se Lula for reeleito veremos a tentativa de consolidação de outro tipo de regime político no país, situado na zona de transição entre democracia eleitoral (não-plena e não-liberal, como é hoje – segundo as classificações da The Economist Intelligence Unit e do V-Dem) e autocracia eleitoral.

Ou seja, teremos no Brasil a consolidação de um tipo de regime híbrido (contra-liberal) em que uma maioria parlamentar de oposição ao governo, não importa o seu número, será neutralizada por uma oligarquia político-judiciária (com gilmares, alexandres, dinos, messias et coetera) a serviço de uma máquina administrativa crescentemente aparelhada em aliança com oligarcas “russos” (como os irmãos Batista, da JBS) e com a banda podre, corrupta, do Congresso. O Brasil se afastará ainda mais das democracias liberais e avançará no seu alinhamento ao eixo autocrático (já reunido sob a denominação genérica de Sul Global e articulado em várias iniciativas políticas fantasiadas de blocos econômicos, como o BRICS).

Tudo isso foi favorecido por uma oposição bolsonarista gerada, por enantiodromia, pelo populismo lulopetista. A esquerda populista (em parte revolucionária travestida de “progressista”) tanto caluniou quem não se subordinava a ela de extrema-direita, que “produziu” afinal uma direita populista (em parte reacionária disfarçada de “conservadora”).

Não ocorre apenas no Brasil. Na América Latina, por exemplo, Petro (da Colômbia) “produziu” Espriella, Kirchner (da Argentina) “produziu” Milei, Evo e Arce (da Bolívia) “produziram” Rodrigo Paz, Funes e Cerén (de El Salvador) “produziram” Bukele, Correa (do Equador) “produziu” Noboa e Lula (do Brasil) “produziu” Bolsonaro.

Aqui não há como fugir da realidade. Lula é o grande favorito para vencer as eleições de 2026 mais uma vez. Não se sabe como já não está 20 pontos acima do Flávio (aquele candidato escolhido para perder, mas manter a liderança da direita populista nas mãos da famiglia Bolsonaro). Com tantas besteiras que os bolsonaristas fazem, seria o esperável racionalmente.

Os dirigentes históricos do PT (como Dirceu) avaliam que estamos na antessala de uma situação revolucionária. É assim que eles chamam sua almejada mudança no regime político brasileiro, trocando democracia por cidadania ofertada ao povo pelo líder populista no comando do Estado e colocando a soberania (nacional) acima da democracia (como valor universal).

Não é absolutamente certo que os populistas de esquerda conseguirão consumar seu intento. Mas é certo que não há saída democrática, no curto prazo, para superar tal constelação aziaga de fatores.

Como foi dito, os democratas estão imprensados entre reacionários disfarçados de conservadores e revolucionários travestidos de “progressistas” – ambos populistas e, como tais, avessos à democracia liberal.

Nestas circunstâncias, qualquer saída será de longo prazo. A situação não vai mudar por um golpe de sorte eleitoral nos próximos dois pleitos. É necessário configurar comunidades políticas (redes humanas, mais distribuídas do que centralizadas), verdadeiras “poleis paralelas” (interativas) capazes de gerar agentes democráticos (reformistas liberais-inovadores), multiplicando seu número até alcançar o nível crítico necessário para fermentar o processo de emergência de uma opinião pública democrática, de resistir às tiranias e aos processos de autocratização (seja por meio de golpes de Estado ou de conquista de hegemonia) e de ensaiar a democracia como modo-de-vida, usinando novos padrões democráticos capazes de se replicar em outras regiões do tempo.

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