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Por que a esquerda não entendeu Musk

Por que a esquerda não entendeu Musk

Por que a esquerda não entendeu Musk

Reflexão sobre a Entrevista de Elon Musk para The Economist

A análise da esquerda sobre os magnatas da tecnologia, que lideram as gigantes do setor, está equivocada ao rotulá-los como extremistas de direita.

Quando se trata de Elon Musk, a esquerda não o compreendeu ou talvez o compreendeu demais.

Recentemente, Diogo Dutra publicou um interessante artigo na Revista Inteligência Democrática (27/06/2026) sobre a entrevista de Elon Musk para Zanny Minton Beddoes, editora-chefe da The Economist. Embora concorde com Diogo, interpreto as declarações de Musk da seguinte forma:

Musk não se alinha com a extrema-direita, não é partidário do MAGA. Há semelhanças entre seu pensamento e a ideologia dos seguidores de Trump em relação a certos aspectos da política atual (como o apoio ao nacional-populismo de grupos extremistas europeus, como a AfD da Alemanha).

No entanto, ele não é um reacionário que deseja retroceder no tempo, mas sim avançar diretamente para o futuro, como no século 23 de Star Trek, ambientada entre 2255 e 2293. Para Musk, o que importa é o avanço, mesmo que alguns sejam deixados para trás nesse processo.

Ele se inspira em um mundo futuro de abundância (sem dinheiro), como em Star Trek e na série Culture de Ian M. Banks, que descreve uma sociedade interestelar pós-escassez. Musk não se preocupa com o fato de a Frota Estelar de Star Trek ser uma sociedade hierárquica e sem democracia, pois ele próprio não é um democrata.

Musk demonstra pouco entendimento sobre política, o que o leva a não valorizar a democracia. Em sua visão de futuro, a política não terá lugar, o que, conforme Hannah Arendt (c. 1950) expressou em seus escritos póstumos sobre o tema, é assustador. Para Musk, assim como a utopia marxista de um mundo sem política (ou seja, sem democracia), a ideia de um mundo sem política é terrível:

“O ideal socialista de uma condição final da Humanidade sem Estado — que, em Marx, significa sem política, não é de maneira alguma utópico: só é pavoroso”.

Musk é um impulsionador de sua própria utopia (ou distopia), prevendo uma singularidade daqui a 10 anos, na qual a inteligência artificial digital e física substituirão todas as atividades humanas necessárias à sobrevivência. Isso ecoa a visão de Karl Marx sobre a abundância, na qual as pessoas trabalharão por prazer e autorrealização, não por necessidade.

Em sua obra “A Ideologia Alemã” (1845-1846), Marx descreve uma sociedade comunista na qual a liberdade individual é possibilitada pela regulação coletiva da produção, permitindo que cada pessoa exerça diferentes atividades conforme seu desejo, sem se limitar a uma única função.

A visão de Musk é de que a tecnologia libertará o indivíduo para buscar atividades produtivas, artísticas, científicas e recreativas conforme sua vontade, em um futuro de abundância.

Musk, longe de ser um extremista de direita, pode representar algo ainda mais desafiador. Em vez de alienar o presente por meio de uma nostalgia do passado, ele o aliena antecipando um futuro também mitológico. Sua habilidade de acertar previsões, embora afirmada, não é baseada em profecias, mas sim em criar o futuro. Musk tenta realizar uma reengenharia temporal, tema abordado de forma profunda na obra de Asimov, “Fundação”.

A esquerda rotulou Musk, assim como outros magnatas da tecnologia, como o inimigo número um, porque ele compete no mesmo campo da construção do futuro, terreno que também é explorado pelo discurso utópico-moral da esquerda. Ambos buscam moldar o futuro, escolhendo uma linha temporal específica e excluindo outras possibilidades. Nesse sentido, Musk se torna um oponente da sociedade aberta, que pressupõe um futuro diverso e aberto.

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