O futuro do SAF no Brasil passa pela gestão de riscos
A corrida global pela descarbonização da aviação já começou. O avanço do Sustainable Aviation Fuel (SAF), ou combustível sustentável de aviação, depende agora de um novo passo, que é criar as condições para que os projetos saiam do papel com segurança, escala e capacidade de atrair investimentos.
Produzido a partir de biomassa, resíduos agrícolas e óleos vegetais, o SAF permite reduzir a intensidade de carbono dos voos aproveitando, em grande medida, a infraestrutura já existente da aviação. Nesse contexto, desponta como uma das principais alternativas para reduzir as emissões do setor.
O Brasil reúne atributos que podem colocá-lo em posição de destaque nesse mercado. A experiência acumulada na produção de biocombustíveis, a disponibilidade de matérias-primas e o potencial de expansão da bioeconomia criam um ambiente favorável para a produção em escala.
Esse cenário ganha ainda mais relevância diante do aumento da demanda global por soluções de baixo carbono e dos compromissos assumidos por companhias aéreas e governos para reduzir as emissões da aviação nas próximas décadas.
A questão central passa a ser converter esse potencial em projetos competitivos. O desenvolvimento de novas plantas industriais, a estruturação das cadeias de suprimento, a logística, o acesso a financiamento e a evolução do ambiente regulatório exigem planejamento de longo prazo e decisões tomadas em um cenário ainda marcado por incertezas.
Em um mercado ainda em formação, a confiança dos investidores será tão determinante quanto a capacidade tecnológica.
É nesse contexto que a gestão de riscos assume um papel estratégico. Projetos de SAF combinam riscos já conhecidos de grandes obras de infraestrutura, como engenharia, construção e interrupção de negócios, com riscos mais específicos do setor.
Entre eles, estão a dependência de cadeias de suprimento agrícolas ainda pouco estruturadas para esse fim, a responsabilidade ambiental associada ao uso da terra e das matérias-primas, e a incerteza regulatória de um mercado que ainda está definindo suas próprias regras.
Quanto mais cedo esses fatores forem incorporados ao planejamento, maiores as chances de reduzir vulnerabilidades, fortalecer a governança e aumentar a previsibilidade para investidores, financiadores e demais parceiros.
A complexidade aumenta porque esses fatores não podem ser analisados de forma isolada. Uma alteração na disponibilidade ou no preço de determinada matéria-prima pode afetar a estrutura econômica do projeto e, ao mesmo tempo, pressionar contratos de fornecimento e a logística necessária para levar o combustível até os mercados consumidores.
Da mesma forma, escolhas tecnológicas feitas na fase de implantação podem ter consequências sobre custos, desempenho operacional e capacidade de adaptação a futuras mudanças regulatórias. Identificar essas relações ainda durante a estruturação do empreendimento permite avaliar cenários, estabelecer prioridades e definir mecanismos de proteção antes que os riscos se transformem em perdas.
Essa avaliação também é relevante para a relação com investidores e financiadores. Projetos de SAF exigem capital elevado e apresentam horizontes de retorno de longo prazo, em um mercado que ainda está construindo referências de preço, modelos de contrato e padrões de produção.
Quanto mais clara for a compreensão dos riscos envolvidos e das medidas adotadas para mitigá-los, maior tende a ser a confiança e a previsibilidade do empreendimento. A gestão de riscos passa, assim, a ser um elemento central na estruturação financeira do projeto, e não apenas da proteção dos ativos depois do início de operação.
Nesse processo, o seguro e outros mecanismos de transferência de riscos cumprem uma função estratégica. A estruturação dessas soluções precisa acompanhar as características de cada empreendimento, considerando desde os riscos de construção e montagem até possíveis interrupções da operação, responsabilidades e exposição da cadeia de suprimentos.
Mais do que contratar coberturas, trata-se de entender quais riscos podem ser evitados, quais devem ser mitigados e quais precisam ser transferidos, de forma que a proteção esteja alinhada à estratégia do projeto.
O Brasil já tem os atributos para se tornar um protagonista do SAF, ao aliar matéria-prima, experiência em biocombustíveis e uma bioeconomia em expansão. O desafio agora é transformar esse potencial em projetos viáveis, capazes de atrair investimentos e ganhar escala.
Esse caminho passa pela capacidade de identificar, avaliar e gerenciar riscos ao longo de toda a cadeia de valor. Essa gestão não é apenas uma salvaguarda, mas o caminho para viabilizar e liderar o futuro do SAF no Brasil.
Vanessa Falco é Diretora de Riscos e Seguros na Horiens.


