Intervenções em restinga de Panaquatira preocupam pesquisadores da UFMA
Uma sequência de intervenções em uma área de restinga na Praia de Panaquatira, em São José de Ribamar, tem preocupado pesquisadores e moradores. O trecho, de aproximadamente 390 metros, faz parte do projeto Re-MARE, de recuperação ambiental coordenado pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
A situação foi registrada em um relatório técnico elaborado pela bióloga e professora da UFMA Adriani Hass, de 56 anos. O documento reúne fotos, vídeos, imagens de drone e registros feitos durante as visitas ao local. Segundo Adriani, as mudanças aconteceram em etapas. Primeiro, foram colocadas estacas para cercar 390 metros da área. Depois, em 14 de setembro de 2025, um incêndio atingiu aproximadamente 6,9 hectares de vegetação. O ponto onde o fogo teria começado coincide com o início da linha de estacas.
Mais recentemente, em 14 de agosto de 2026, pesquisadores registraram a movimentação de areia e o soterramento de parte da vegetação. “Minha preocupação não decorre de um fato isolado, mas da sucessão de alterações sobre a mesma área”, afirma Adriani. Ela ressalta, porém, que a eventual responsabilidade pelas intervenções ainda precisa ser apurada pelos órgãos competentes.
Área estava se recuperando
O incêndio de 2025 causou a morte ou danos graves a várias plantas, entre elas cajueiros, muricis, palmeiras e outras espécies da restinga. Também foram encontrados animais mortos, como anfíbios, aracnídeos e outros pequenos animais. A área também era usada por corujas-buraqueiras, que possuem tocas no local.
Depois do incêndio, foram realizadas ações para ajudar a vegetação a se recuperar. O trabalho apresentou resultados positivos. Em 7 de agosto de 2026, apenas uma semana antes da nova intervenção, fotos mostravam a área novamente coberta por vegetação e com plantas em floração. No dia 14 de agosto, porém, parte dessa área foi novamente atingida. Os pesquisadores encontraram grande quantidade de areia sendo colocada sobre plantas que ainda estavam vivas. Também foram observadas marcas de veículos ou máquinas passando pela vegetação.
Por que a restinga precisa ser protegida
A vegetação da restinga tem uma função importante: ajuda a segurar a areia e a manter as dunas estáveis. Isso contribui para proteger a faixa costeira. Por causa dessas características, a área deve ser analisada pelos órgãos competentes para confirmar seu enquadramento como Área de Preservação Permanente (APP).
A legislação considera APP as restingas que ajudam na fixação de dunas ou na estabilização de mangues. “O soterramento recobre vegetação ainda viva, incluindo espécies herbáceas e arbustivas que participam da fixação das dunas”, explica a bióloga. Segundo ela, a movimentação de areia também altera o terreno e a forma como os sedimentos se distribuem. “A vegetação tem papel importante na estabilização desse material. Sua perda ou soterramento pode aumentar a vulnerabilidade da área à erosão e à remobilização da areia”, afirma.
A pesquisadora ressalta que ainda não é possível medir com precisão todos os impactos futuros, mas já existe uma preocupação com a maior vulnerabilidade ambiental causada pela intervenção.
Aves migratórias e projeto de recuperação
A região também é importante para aves migratórias que passam pelo litoral durante seus deslocamentos. Entre as espécies registradas estão Calidris canutus rufa, Calidris pusilla e Pluvialis squatarola. Em abril de 2026, foram registrados 550 indivíduos de Calidris canutus rufa em Panaquatira.
O trecho afetado integra o Re-MARE (Restauração Ecológica de Manguezais e Restingas da Amazônia Costeira Maranhense). O projeto recebe financiamento do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO), é executado pela Fundação Sousândrade e tem coordenação técnica da UFMA. Depois do incêndio, a área passou a ser acompanhada pelos pesquisadores e recebeu ações para recuperar a vegetação. O novo soterramento atingiu justamente uma parte que estava voltando a se recuperar.
Fiscalização foi acionada
Quando o aterramento foi identificado, a atividade ainda estava acontecendo. Os pesquisadores acionaram o 190, gerando um protocolo de atendimento. No mesmo dia, uma equipe de Fiscalização Ambiental da SEMAM esteve no local. Até o momento, não há identificação oficial dos responsáveis. Moradores disseram aos pesquisadores que a área poderia estar ligada a um corretor que mora nas proximidades, o que ainda está sendo investigado.
Os pesquisadores também registraram a placa de um veículo ligado à equipe que fazia o aterramento. O dado foi encaminhado às autoridades e pode ajudar na investigação. O relatório recomenda que a fiscalização continue, que seja verificada a situação do cercamento e das intervenções e que todo o material produzido seja preservado. Também é recomendado o encaminhamento do caso aos Ministérios Públicos Estadual e Federal.
A principal preocupação dos pesquisadores é evitar que a intervenção avance para outras áreas. Para Adriani, a proteção da restinga envolve não apenas a preservação da vegetação, mas também dos animais, das dunas e de um ambiente que já vem recebendo trabalho para se recuperar. “Existe uma vulnerabilidade ambiental adicional criada pela intervenção, principalmente pela terraplenagem do local, que antes tinha alto declive”, destaca.
O relatório alerta que interromper novas intervenções é essencial para impedir que um problema localizado se transforme em uma ocupação maior e cause novos danos à faixa de restinga.
Com informações de O Imparcial
O Ludovico



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