Três anos depois, a condenação histórica dos golpistas confronta o Brasil com seu passado e com os riscos do presente.
Este é um editorial do Portal Cubo.
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Três anos separam a barbárie da responsabilização. Do caos insuflado das ruas ao rigor solene do tribunal, o Brasil testemunhou, entre o 8 de janeiro de 2023 e o 11 de setembro de 2025, um doloroso e fundamental ciclo de sua frágil democracia. A condenação de um ex-presidente, cinco generais e dois ex-ministros é, como bem aponta a advogada constitucionalista Damares Medina, um acerto de contas com o passado que sempre nos assombrou: o da ditadura militar que, sob o manto de uma anistia que perdoou carrascos e torturadores, nunca foi verdadeiramente julgada.
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O simbolismo é forte e necessário. Pela primeira vez, as altas patentes que conspiraram contra o povo brasileiro (não em quartéis obscuros, mas à luz do dia e nas redes sociais) viram-se não no palanque, mas no banco dos réus. Não como “heróis”, mas como criminosos condenados por tentativa de golpe de Estado e por atentar violentamente contra o Estado Democrático de Direito. Esta é a inflexão histórica: a demonstração clara, ainda que tardia, de que a impunidade para as elites que tramam contra a soberania popular não é mais uma lei não escrita da República.
No entanto, eis que a celebração desta justiça, ainda que parcial, esbarra no presente. A advogada Medina lança o alerta crucial: de que vale o Judiciário punir se o Congresso, refém de uma base conservadora e muitas vezes cúmplice do projeto golpista, trabalha para esvaziar as penas? O chamado “PL da Dosimetria”, aprovado no fim de 2024, é a prova viva de que as estruturas que sustentaram o bolsonarismo seguem ativas, operando no campo da legalidade para minar a força da condenação. Transformar um julgamento histórico em mero símbolo, esvaziando seu conteúdo punitivo, é a estratégia final para garantir que a lição não seja aprendida.
Este é o verdadeiro campo de batalha da democracia brasileira em 2026. Não se trata mais apenas de lembrar, com justa indignação, os vidros quebrados e os móveis destruídos. Trata-se de entender o 8 de janeiro como um sintoma de uma doença profunda: o projeto de poder de uma extrema-direita que vê as instituições como obstáculos e o povo como massa de manobra. A luta agora é para que a correlação de forças no Congresso não anule, pela via legislativa, a sentença do Supremo.
Portanto, a vigilância democrática deve migrar do passado para o futuro imediato. Como bem orienta a análise, em ano eleitoral o voto deve ser um instrumento de defesa. Eleger candidatos e candidatas que não apenas condenam o vandalismo do passado, mas que se comprometem publicamente a não apoiar leis que perdoam golpistas, é um passo concreto. É preciso perguntar a todos que buscam nossos votos: você apoia a redução das penas dos condenados pelo 8 de janeiro? A resposta define de que lado da história eles estarão.
A democracia que resistiu ao vandalismo agora precisa resistir à normalização. Resistir à narrativa de que “já passou” e “está resolvido”. O 8 de janeiro não foi um evento isolado; foi o ápice de um projeto. As condenações são um marco vital, mas a luta continua nas urnas, no Congresso e na consciência de que a defesa da democracia é um ato diário e permanente. Só assim a frase “Nunca Mais” deixará de ser uma esperança e se tornará, finalmente, uma garantia.
