×

A polarização tem cura? – Meio

A polarização tem cura? – Meio

A polarização tem cura? – Meio

A atividade política é essencialmente competitiva, pois tem início na divergência e no conflito de interesses, vontades e valores. Isso não é negativo; pelo contrário, é uma forma mais civilizada de lidar com os inevitáveis conflitos decorrentes da liberdade e da singularidade humanas.

No entanto, a polarização é prejudicial, gerando efeitos nocivos sobre a política democrática. Em primeiro lugar, intensifica a hostilidade entre cidadãos e grupos, muitas vezes associando a identidade política a sentimentos de aversão, medo e desconfiança. Essa animosidade pode ultrapassar o plano simbólico, resultando em violência, intimidação e outras formas de agressão direcionadas a indivíduos devido à sua filiação política. Em segundo lugar, a polarização enfraquece a coesão social, transformando adversários em inimigos morais e favorecendo processos de desumanização recíproca que dificultam o reconhecimento mútuo essencial à convivência democrática.

Além disso, a polarização promove percepções distorcidas sobre o grupo adversário, reforça estereótipos negativos e sustenta a crença de que o outro representa uma ameaça existencial à ordem política. Esse clima de antagonismo favorece a radicalização, levando indivíduos a considerar aceitável o uso de meios ilegais ou antidemocráticos para impedir a vitória do oponente, que deixa de ser visto como um concorrente legítimo e passa a ser encarado como uma ameaça a ser neutralizada. Por fim, ao generalizar emoções negativas e legitimar atitudes extremas, a polarização contribui para um ambiente político instável e destrutivo, minando a confiança nas instituições e tornando as democracias mais vulneráveis a rupturas e erosões internas.

Embora o negacionismo da polarização esteja se tornando comum no Brasil, principalmente na esquerda, é importante reconhecer sua existência e impacto. A polarização não requer simetria entre os polos, mas sim a percepção de incompatibilidade moral entre grupos políticos. Ela se manifesta quando a identificação política se torna a identidade social central e quando o adversário é visto como uma ameaça a ser neutralizada, em vez de um concorrente legítimo. Se essas características estiverem presentes em nossa sociedade em grande escala, então a polarização está presente.

A divergência não é mais vista como parte normal da vida democrática, mas como um sinal de ameaça.

A polarização política tornou-se um dos traços mais marcantes das democracias contemporâneas. Ela está presente em análises acadêmicas, colunas de jornais e na experiência diária de cidadãos que passaram a enxergar o adversário não apenas como alguém com opiniões diferentes, mas como representante de uma visão de mundo considerada moralmente ilegítima. A divergência não é mais vista como parte normal da vida democrática, mas como um sinal de ameaça.

Neste contexto, surge a questão: a polarização, que se intensificou nos últimos anos em todo o mundo, é uma condição permanente das democracias contemporâneas ou um fenômeno passível de redução?

Um estudo recente oferece uma resposta interessante. Publicado na revista Political Psychology, o artigo assinado por Steffen Moritz, professor do Departamento de Psiquiatria e Psicoterapia da Universitätsklinikum Hamburg-Eppendorf, em colaboração com pesquisadores da Universität Augsburg e do mesmo centro clínico em Hamburgo, investigou os mecanismos cognitivos por trás de convicções inflexíveis. O estudo abordou tanto pacientes clínicos com ideias fixas quanto questões de psicologia política.

Os pesquisadores testaram se a hostilidade política entre grupos rivais poderia ser reduzida por meio de uma intervenção metacognitiva simples. Essa intervenção consistia em confrontar as pessoas com seus erros em julgamentos factuais sobre o grupo adversário, especialmente quando esses julgamentos eram feitos com alta convicção. O objetivo não era mudar suas convicções políticas, mas levá-las a refletir sobre a confiabilidade de seus próprios julgamentos, principalmente quando descobriam que suas certezas sobre o grupo adversário não correspondiam à realidade.

O estudo focou em eleitores de dois partidos que representam extremos opostos da política alemã contemporânea: o Alternative für Deutschland (AfD), associado à direita radical populista, e o Bündnis 90/Die Grünen, o Partido Verde, identificado com a esquerda progressista. Ambos grupos simbolizam a distância ideológica que caracteriza a polarização contemporânea na Alemanha e são frequentemente alvos de hostilidade política recíproca.

A análise revelou que a hostilidade política depende de estereótipos rígidos sobre o outro lado, percepções equivocadas do pensamento do adversário e excesso de confiança nas próprias convicções. Esse excesso de confiança gera rigidez cognitiva, que favorece a desumanização e intensifica a hostilidade, podendo até justificar a violência. A principal implicação é que a intolerância política não se limita à ideologia, mas também a um estado cognitivo específico que impede o reconhecimento da falibilidade da própria perspectiva. A intervenção visava criar dúvidas metacognitivas, questionando a certeza excessiva das convicções.

Utilizando um treinamento metacognitivo, os pesquisadores conduziram um experimento com mais de mil participantes na Alemanha, todos identificados como eleitores de um dos dois partidos analisados. Eles responderam a perguntas factuais sobre o grupo político rival e indicaram seu grau de confiança nas respostas.

Após receberem feedback correto sobre suas respostas, acompanhado da indicação de que estavam errados em questões que afirmaram com alta convicção, os participantes experimentaram dúvidas sobre suas percepções. Essa confrontação entre convicção e erro resultou na diminuição da hostilidade em relação ao grupo político adversário. Os participantes não mudaram suas convicções políticas, mas passaram a enxergar o outro lado de forma menos hostil, reconhecendo-o como um grupo legítimo, mesmo que equivocado em suas posições.

Quanto maior a certeza em uma convicção falsa, maior a mudança após confrontar a realidade.

O estudo revelou que a redução da hostilidade estava diretamente ligada à certeza com que sustentavam convicções equivocadas. Quanto maior a convicção na falsidade, maior a mudança após a confrontação com a realidade.

Esses resultados destacam que a polarização destrutiva não se deve apenas às diferenças de opinião, mas à convicção absoluta na infalibilidade da própria posição e à desqualificação da posição adversária. O problema não está na divergência em si, mas na confiança excessiva nas próprias convicções.

A certeza excessiva leva a conclusões simplistas, como a ideia de que quem vota em um partido adversário é ignorante ou manipulado. A polarização surge quando a divergência deixa de ser vista como uma questão de opinião e passa a ser interpretada como uma falha moral, resultando em uma postura de deslegitimação da posição alheia.

O estudo liderado por Moritz e sua equipe sugere que a polarização é mantida pela confiança excessiva nas próprias convicções, gerando uma rigidez mental que impede o reconhecimento da própria falibilidade. Ao enfraquecer essa rigidez, temporariamente, a hostilidade diminui, não pela mudança de opinião, mas pela mudança na percepção do adversário como uma ameaça menos iminente.

Esses resultados indicam que a polarização não é um estado permanente ou inevitável das democracias contemporâneas, mas sim um fenômeno que pode ser modificado. O conflito político continuará a existir, como deve, mas a forma como os indivíduos lidam com suas convicções e com aqueles que possuem visões diferentes pode e deve ser alterada.

*Wilson Gomes é doutor em filosofia, professor titular da Universidade Federal da Bahia e autor de “Crônica de uma Tragédia Anunciada”.

Créditos