ANP aprova conexão do TRSP e ilhas de gás tendem a virar exceção
PIPELINE. ANP autoriza conexão do TRSP à malha de gasodutos de transporte. E o fim das “ilhas de gás” deve ser a tendência daqui para frente, com aprovação da nova resolução de acesso aos terminais de GNL.
Preço do gás pressionado no 2º semestre. Reinjeção de gás volta à pauta na discussão sobre plano de desenvolvimento de Orca. Gasmig assina contrato de biometano com GeoMit. Ampla maioria do mercado apoia gas release e mais. Confira:
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A Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aprovou a conexão do Terminal de Regaseificação de São Paulo (TRSP) à malha de gasodutos da Nova Transportadora do Sudeste (NTS) – o que permitirá à Edge abrir novos mercados para o seu gás natural liquefeito (GNL) importado.
E o fim das “ilhas de gás” (plantas de regaseificação desconectadas) deve ser a tendência daqui para frente.
Na mesma reunião de diretoria desta sexta-feira (26/6), a ANP aprovou também o novo regulamento do acesso não discriminatório e negociado de terceiros aos terminais de GNL – que promete não só maximizar o uso das infraestruturas, mas também conectá-las.
A agência eixos apurou que a versão final da resolução (ainda não publicada) mantém o dispositivo original que obriga a interconexão entre os terminais de GNL e gasodutos de transporte, salvo exceções justificadas.
Afeta, assim, os novos projetos que estão sendo estruturados para abastecer as novas térmicas do Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) de março.
A seguir, a gas week se debruça sobre o tema e analisa seus impactos sobre o mercado de gás no Brasil.
O mapa das conexões
Já abordamos por aqui, na gas week, como o 2º LRCAP deve ancorar ao menos dois novos terminais de GNL no Brasil:
- a Eneva tem planos de construir uma planta de regás no Porto do Pecém (CE) e outra no Rio de Janeiro ou no Espírito Santo, para abastecer seus novos projetos termelétricos;
- e a OnCorp monetizou, com usinas próprias e contratos de venda de gás para terceiros, o seu terminal de GNL em Suape (PE) – projeto antigo, mas cujo desenvolvimento tende a ganhar tração pós-leilão.
Já dentre os ativos existentes, o TRSP talvez seja o caso mais emblemático de “ilha de gás” no Brasil – mas não é único.
Dos sete terminais em operação no país, mais dois além do TRSP estão fora, hoje, da malha de gasodutos:
- a unidade de regaseificação da GNA, no Porto do Açu (RJ), com capacidade de 21 milhões de m³/dia;
- e a planta da New Fortress em Barcarena (PA), de 15 milhões de m³/dia.
São dois casos com potenciais de conexão de maturidades bem diferentes: a conexão do terminal do Açu já está contemplada no Plano Nacional Integrado das Infraestruturas de Gás Natural e Biometano (PNIIGB), da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
A discussão, hoje, é sobre a rota: Transportadora Associada de Gás (TAG) e NTS travam uma disputa em torno da conexão do Porto do Açu à malha de gasodutos de transporte. Ambas as companhias têm projetos próprios com esse fim e tentam incluir suas respectivas rotas no PNIIGB.
Na versão colocada em consulta pública, a EPE recomendou a construção do Gasoduto dos Goytacazes (Gasog), da TAG, como a alternativa de menor custo sistêmico, vis a vis o projeto do Gasoduto de Integração Norte Fluminense (Gasinf), da NTS – que questiona as premissas do plano.
Já os consumidores industriais, representados pela Abrace, manifestam preocupação com os custos da conexão. Questionam se o projeto deveria ser, de fato, classificado como gasoduto de transporte – ou se não se trata de um gasoduto de conexão, com seus custos, portanto, não socializados.
Barcarena, por sua vez, é um caso à parte, por ser o único terminal instalado num estado sem acesso à malha — e, por isso, com a viabilidade da conexão mais desafiadora.
Na nota técnica que subsidiou a minuta de resolução do acesso de terceiros, a ANP reconheceu que os terminais só devem deixar de se conectar quando isso for inviável. E citou, como exemplo, justamente, aqueles terminais que são concebidos em localidades onde não existe rede de transporte.
Via de mão dupla
A conexão permite, por um lado, que os terminais injetem mais gás no mercado:
- o que não só maximiza o uso da infraestrutura e gera receitas adicionais para o dono da planta de regás;
- mas também amplia as opções de fontes de molécula no mercado.
Em seu voto, o diretor Pietro Mendes, relator da resolução do acesso de terceiros, destacou que os terminais de GNL são “portas de entrada” para novos supridores e modelos de negócios e que o novo regulamento visa aumentar a capacidade de contestação de preços no mercado.
“Num mercado que busca superar estruturas historicamente concentradas, o acesso transparente, objetivo e não discriminatório é indispensável para viabilizar a entrada de novos agentes, estimular investimentos e ampliar a contestabilidade dos mercados regionais do gás natural”, disse.
Por outro lado… a conexão aumenta a segurança do sistema, ao permitir às termelétricas baseadas em GNL importado acessar outras fontes de gás – e eventualmente arbitrar.
A grande contratação de térmicas a gás no 2º LRCAP tende a elevar a demanda por gás flexível – o que pode contribuir para aumentar a volatilidade dos preços no mercado spot de gás no Brasil.
Em entrevista ao podcast gas week, o vice-presidente do Mercado de Gás da Rystad Energy na América Latina, Vinícius Romano, analisou esse aspecto.
A contratação acima do esperado de térmicas conectadas na malha tende a deixar o gás spot mais nervoso.
- eventuais excedentes de gás das termelétricas estarão disponíveis para compra, pressionando preços para baixo;
- enquanto a conexão também permite que as térmicas “puxem” mais gás do mercado spot, pressionando preços para cima.
Romano conta que, em momentos de alta nos preços do GNL no mercado spot global, a termelétrica pode encontrar com certa facilidade gás mais barato no mercado spot local. Assista na íntegra
“[As térmicas] Podem gerar um excedente, mas podem gerar uma falta [de gás no mercado spot]… Se você tem uma térmica que vai despachar e alguém está sobrando com gás no mercado, é fácil [para a termelétrica] comprar a menos de US$ 15 o milhão de BTU [preço atual]. E aí usa todo o gás do mercado secundário, para depois fazer a importação de GNL”, analisa.
Edge mira térmicas do LRCAP
A estratégia da Edge é, justamente, conectar-se à malha para conseguir acessar novos mercados – sobretudo as térmicas do LRCAP.
A companhia vinha pedindo celeridade na autorização, já que os primeiros contratos do leilão começam a vigorar a partir de agosto.
A obra de conexão é relativamente simples: trata-se de um duto de 55 metros entre o terminal e o gasoduto Gasan I, da NTS.
É mais uma opcionalidade para a monetização do TRSP – que tem capacidade para 14 milhões de m³/dia.
O terminal paulista abastece, hoje, a Comgás, via o gasoduto Subida da Serra; e o mercado livre – a Edge é uma das líderes nesse nicho.
A empresa do grupo Cosan também inaugurou, este ano, uma nova vertical: a distribuição de GNL off-grid e anunciou esta semana um novo projeto para escalar o uso de GNL no transporte rodoviário de longa distância.
Batizado de GreenTech Logística Integrada, o projeto lançado em conjunto com o Grupo Nimofast e a Green Cargo, contempla investimentos de R$ 8,3 bilhões em dez anos e promete atingir 2 mil caminhões em dois anos.
A Edge entra como a fornecedora do gás a partir do TRSP.
A ‘República do Possível‘
Ao autorizar a conexão à malha da NTS, a ANP entendeu que o projeto traz benefícios para o sistema de transporte.
A obra permitirá injetar até 7,5 milhões de m³/dia de gás importado na malha, atenuando os efeitos do declínio da oferta de gás nacional pela UTGCA (Caraguatatuba/SP) e do gás boliviano no Gasbol – ao qual a NTS se conecta.
O TRSP traz, assim, um reforço para a malha a curto prazo e permite contornar parte dos gargalos entre Rio-São Paulo enquanto a Estação de Compressão de Japeri (SP), prevista para 2028, não fica pronta.
A ANP reconhece, no entanto, que a conexão proposta pela Edge não é a solução mais eficiente.
“De fato, a gente não está fazendo a melhor escolha logística, mas está fazendo, como eu costumo nominar, a República do Possível. Então, dentro dessa República do Possível, é razoável pensar que a solução resolve a questão no médio e no curto prazo”, comentou a diretora Symone Araújo, em seu voto.
Na análise do caso, a Superintendência de Infraestrutura e Movimentação (SIM) pontua que o projeto de conexão do TRSP tem restrições técnicas: como a capacidade de movimentação de gás entre o Gasan I e o Gasan II, devido à diferença de pressões entre as malhas.
A área técnica cita ainda que, no cenário alternativo, de conexão do TRSP ao Gasan II via Subida da Serra (caso o gasoduto da Comgás seja integrado à malha de transporte), o reforço poderia alcançar o limite de 14 milhões de m³/dia – quase o dobro da conexão via Gasan I.
- A autorização, aliás, também não muda o entendimento da ANP sobre a classificação, como ativo de transporte, do gasoduto Subida da Serra, da Comgás.
A disputa federativa entre ANP e o Estado de São Paulo sobre a classificação do gasoduto está no Supremo Tribunal Federal (STF).
GÁS NA SEMANA
Para onde vão os preços do gás? Os preços do gás natural no Brasil devem se manter pressionados no segundo semestre, mesmo com reabertura do Estreito de Ormuz, analisa o vice-presidente do Mercado de gás da Rystad Energy para a América Latina, Vinícius Romano, em entrevista ao podcast gas week.
Reinjeção em pauta. A indefinição sobre a exportação do gás de Orca levou a diretoria da ANP a adiar a decisão sobre o plano de desenvolvimento da jazida, no pré-sal da Bacia de Santos. .
Diálogos da Transição. A agência eixos promoveu esta semana, no Energy Summit 2026, no Rio de Janeiro, mais uma edição dos diálogos da transição. E teve debate sobre os rumos do mercado de biometano:
Mais biometano. A Gasmig assinou com a GeoMit seu primeiro contrato de longo prazo para aquisição do biocombustível. Acordo prevê o entrega de 50 mil m³/dia e viabilizará chegada da rede de distribuição ao Triângulo Mineiro.
Gas release. Pietro Mendes afirmou que o programa de redução da concentração no mercado de gás, em discussão na ANP, não é uma “medida punitiva” contra a Petrobras — que faz oposição ao gas release.
Aproximação com o México. Petrobras e Pemex assinaram memorando de entendimento para potenciais colaborações em diversas áreas, dentre elas petroquímica, fertilizantes, processamento de gás e recuperação de líquidos.
Fertilizantes. Em evento com Lula, a Petrobras assinou contratos para retomar a construção da UFN 3 (MS), cujas obras foram interrompidas em 2015.
Retrocesso na reabertura do Estreito de Ormuz. Durou pouco o otimismo com a retomada nas exportações de petróleo e GNL pela região, após o acordo de paz entre EUA e Irã. Na quinta (25/6), navios que transitavam pela rota precisaram dar meia volta após ataque a um navio de carga. (Financial Times)
Acidente no Catar. Treze pessoas morreram e dezenas ficaram feridas após uma explosão no complexo de GNL de Ras Laffan, no Catar, ocorrida enquanto trabalhadores retomavam as operações interrompidas após um ataque iraniano em março. (Reuters/Valor).
Mais gás para data centers no Texas. Chevron fechou acordo de fornecimento de energia de 20 anos com a Microsoft para abastecer um centro de dados no Texas. Com capacidade de 2,67 GW, o empreendimento terá geração majoritariamente baseada em gás.
- Opinião: Inclusão de fontes firmes como gás, biometano e nuclear entre as opções incentivadas é condição essencial para atrair data centers e garantir segurança digital, escreve José Mauro Coelho, da Aurum Tank.
- Opinião: Na busca por gás mais barato, os fins justificam os meios?, escreve o sócio de Energia e Óleo e Gás do Mattos Filho e presidente da Comissão de Petróleo, Gás e Biocombustíveis da OAB/RJ, Felipe Feres.
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