×

Aposentados que ainda trabalham querem reforçar renda e manter rotina, em prática crescente

Aposentados que ainda trabalham querem reforçar renda e manter rotina, em prática crescente

Aposentados que ainda trabalham querem reforçar renda e manter rotina, em prática crescente

GABRIELA CECCHIN E ANA PAULA BRANCO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O fiscal de obras Deusdédit Rodrigues, 70, se aposentou em 2017, porém continuou trabalhando. Permaneceu na construtora MBigucci até 2020, quando se afastou devido à pandemia, retornando em 2022, onde permanece ativo. Ele inicia o dia por volta das 4h, utilizando dois ônibus e metrô diariamente, e pretende manter-se ativo enquanto tiver saúde.

“A aposentadoria é um suporte, não é viável ficar inativo. É necessário reforçar o aspecto financeiro, caso contrário é insuficiente”, declara.

Casos como o de Deusdédit ajudam a explicar por que a aposentadoria não significa mais, para muitos brasileiros, o fim da vida profissional. Em 2024, aproximadamente 1 em cada 4 pessoas com 60 anos ou mais estava trabalhando, conforme dados do IBGE. A taxa de emprego nesse grupo atingiu 24,4%, a maior desde 2012, excluindo o período da pandemia.

Entre os homens idosos, 34,2% estavam empregados; entre as mulheres, 16,7%. Na faixa etária de 70 anos ou mais, 15,7% dos homens e 5,8% das mulheres continuavam ativos no mercado de trabalho.

Atualmente, Deusdédit reside com sua esposa, de 66 anos, sem contribuição para o INSS. Ele ficou surpreso ao descobrir que sua renda impede que sua esposa receba o BPC (Benefício de Prestação Continuada). “Considero isso um absurdo. Ela me auxiliaria muito se também se aposentasse.”

Embora seu trabalho não exija esforço físico intenso, Deusdédit o considera estressante. Ele é responsável pela fase final dos apartamentos antes da entrega aos compradores. Ele supervisiona os detalhes de acabamento e coordena equipes terceirizadas para garantir que tudo esteja em perfeitas condições, como se fosse “um imóvel novo”. O prédio sob sua responsabilidade possui cerca de 150 apartamentos.

Uma pesquisa realizada pela Serasa em colaboração com o instituto Opinion Box revela que essa situação é comum. Cerca de 60% dos aposentados seguem trabalhando. Dos entrevistados, 63% afirmam que continuam ativos para complementar a renda, 57% para manter uma vida mais dinâmica e 32% para se sentirem produtivos. A pesquisa entrevistou 952 pessoas entre dezembro e janeiro.

A pesquisa da Serasa também mostra que metade dos entrevistados precisou recorrer a crédito para pagar contas e despesas, enquanto 35% utilizam empréstimos para cobrir gastos essenciais. Para 46%, o valor da aposentadoria não é suficiente para manter o padrão de vida anterior, 33% enfrentam dificuldades para manter as contas básicas em dia e 44% temem precisar de auxílio financeiro de terceiros.

A doméstica Maria Aparecida Moura, 66, conhecida como Cida, trabalhou informalmente como diarista por décadas em São Bernardo do Campo (SP) e foi registrada como babá há 20 anos. Ao completar 62 anos, optou por se aposentar por idade, recebendo o salário mínimo.

Embora tenha se aposentado, Cida enfrenta dificuldades financeiras devido a responsabilidades familiares. Há oito anos, sua filha mais velha faleceu após um AVC, deixando uma bebê de seis meses. Dois anos atrás, seu ex-marido, que vivia nos fundos de sua casa, sofreu quatro AVCs, ficou paralisado e agora é acamado. A aposentadoria do ex-marido cobre apenas uma cuidadora em meio período.

A neta também necessita de acompanhamento psicológico devido à morte da mãe.

Com diabetes e problemas vasculares que causam dores nas pernas, Cida cuida do ex-marido e da neta com a ajuda da filha mais nova e da irmã. “Atualmente, não é viável viver apenas com a aposentadoria. Os aposentados não conseguem sobreviver”, afirma.

Cida optou por continuar trabalhando para a mesma família e não sabe quando conseguirá se aposentar.

Os dados do IBGE indicam que, embora os idosos empregados tenham renda média superior à população em geral, persistem desigualdades. Em 2024, a renda média real habitual das pessoas com 60 anos ou mais foi de R$ 3.108, 14,6% acima da média dos trabalhadores. As mulheres idosas ganharam R$ 2.718, em comparação com R$ 4.071 dos homens.

A principal forma de inserção dos idosos no mercado de trabalho é por conta própria, representando 43,3% das ocupações nessa faixa etária.

De acordo com a advogada trabalhista Priscila Arraes, sócia do escritório Arraes & Centeno, a legislação permite que aposentados continuem trabalhando com carteira assinada, mantendo seus direitos trabalhistas. “Os direitos trabalhistas permanecem devido à relação de emprego, não à aposentadoria”, afirma.

A exceção é a aposentadoria por incapacidade permanente, que é suspensa em caso de retorno ao trabalho. No caso da aposentadoria especial, o segurado pode trabalhar, desde que não volte a se expor aos agentes nocivos que originaram o benefício.

Se um aposentado trabalhar, ele continua contribuindo para o INSS, mas não tem direito a recálculo do benefício nem a auxílios como o por incapacidade temporária. A contribuição é obrigatória e se baseia no princípio da solidariedade do sistema previdenciário.

Aos 84 anos, o caminhoneiro Lourival Vieira também não pensa em parar de trabalhar. Aposentado há mais de 20 anos, ele nunca abandonou a profissão. “Não me sinto bem parado. Já tentei algumas vezes, mas não me adaptei”, declara.

Casado há 62 anos, Lourival reside com a esposa e dois filhos solteiros. Entre 15% e 20% de seus ganhos são destinados a um projeto social mantido pela esposa, que distribui brinquedos, roupas e cestas básicas para crianças de comunidades. “Fico feliz quando consigo ajudar alguém.”

Apesar disso, sua rotina envolve riscos. Ele foi assaltado sete vezes e sequestrado com uma carga de bacalhau no valor de R$ 1,8 milhão. “O único problema é o perigo, o resto a gente dá um jeito.”
A contadora Mônica Acencio, 58, se aposentou em 2019, mas optou por permanecer na mesma empresa e função. “Quando me aposentei, achei que não fazia sentido parar”, afirma.

Segundo ela, a decisão foi motivada tanto por necessidades financeiras quanto por seu estilo de vida. Adepta de motociclismo, viaja longas distâncias e lidera um motoclube feminino. “Algumas amigas que se aposentaram começaram a sentir estresse e até depressão em menos de um ano. Continuarei trabalhando enquanto estiver saudável.”

Priscila Arraes destaca que essa decisão deve ser acompanhada de um planejamento previdenciário. “É essencial avaliar o valor da aposentadoria, a incidência de imposto de renda sobre os rendimentos totais e o impacto sobre benefícios como plano de saúde”, afirma.

O metalúrgico Euclécio Cerri, 75, se aposentou aos 46 anos devido à insalubridade de sua profissão. Problemas de saúde o impediram de trabalhar diretamente com máquinas, mas ele continuou atuando na empresa da família até sofrer um infarto aos 70 anos. Mesmo assim, permaneceu trabalhando por mais dois anos. Atualmente, vai à empresa apenas ocasionalmente para orientar funcionários mais jovens. “Faço isso para manter a mente ocupada”, diz.

De acordo com ele, sua aposentadoria não é suficiente para cobrir as despesas da casa. Além das despesas fixas, sua esposa está passando por um tratamento de quimioterapia. “Apenas com a aposentadoria seria muito difícil. Recebo R$ 4.000. Como posso sobreviver?”

A jornalista Regina Diniz, 63, se aposentou no ano passado após mais de três décadas de carreira, mas continua à frente de sua própria agência de comunicação. “Trabalho porque desejo continuar ativa, nunca pensei em parar.”

Além de suas atividades profissionais, ela presta atendimentos em práticas integrativas e prestou recentemente o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) para ingressar no curso de Filosofia em uma universidade pública. “Vida divertida e animada. Fluir com as oportunidades e a vontade de sempre aprender. Em constante movimento.”

Créditos