Até onde vai o desconto do gás da União para a indústria no leilão da PPSA?
PIPELINE. PPSA estreia leilão de gás com preço de largada com desconto superior a US$ 2 o milhão de BTU. Mas até onde a indústria está disposta a ir na disputa pelo gás da União?
ATGás pede intervenção do MME na revisão tarifária. White Martins entra na comercialização de biometano e mais. Confira:
Ainda não é assinante? Inscreva-se aqui
EDIÇÃO APRESENTADA POR:
A Pré-Sal Petróleo S.A. (PPSA) realiza na próxima quinta-feira (22/10) o primeiro leilão de gás natural da União, que ofertará 1,1 milhão de m³/dia e funcionará como um teste de preços para a indústria.
Na largada, o preço inicial do certame promete ser atrativo,abaixo dos US$ 6 o milhão de BTU – o que representa um desconto de mais de US$ 2 o milhão de BTU em relação aos preços mais competitivos do mercado brasileiro.
Ao fim, a real competitividade do gás da União vai depender do grau de concorrência pela molécula, que tende a jogar o preço final para cima.
Mas até onde a indústria está disposta a ir nessa disputa?
A seguir, a gas week mostra até que ponto o gás ofertado pela PPSA poderá se manter competitivo frente às demais alternativas.
E analisa algumas das nuances do edital e os seus riscos envolvidos – e que, no conjunto da obra, podem corroer parte do desconto e que tendem, ao fim, a precificar o gás da União.
Quanto mais barato?
O gás da União seguirá uma fórmula de preços:
- 115% do Henry Hub mais um prêmio a ser ofertado pelo comprador e que parte de US$ 1,82 o milhão de BTU.
A estatal do pré-sal estimou, em setembro, que a fórmula representaria um preço mínimo de cerca de US$ 5,2 o milhão de BTU, aos preços vigentes.
Mas olhando as perspectivas do Henry Hub para 2027, consultores estimam um preço de largada equivalente a entre US$ 5,5 o milhão de BTU (Wood Mackenzie) e US$ 5,95 o milhão de BTU (Rystad Energy).
Isso representa um desconto importante em relação aos preços do mercado.
- A Rystad estima que o piso está US$ 2,5 o milhão de BTU abaixo da projeção de preços médios da Petrobras no mercado cativo para 2027, num cenário de Brent médio a cerca de US$ 80 o barril;
A Wood Mackenzie também analisou até que ponto o gás da União poderá permanecer competitivo frente às alternativas de contratação disponíveis.
E concluiu que ocenário de preços projetado para o mercado brasileiro em 2027 pode criar oportunidades de contratação competitiva no leilão de gás da União, tanto na comparação com o mercado cativo quanto o livre, sobretudo num cenário de preços mais elevados.
- No mercado cativo, a WoodMac estima que, com um Brent próximo dos US$ 100 o barril, o preço médio ponderado do gás no Brasil em 2027 deve ficar acima dos US$ 10 o milhão de BTU.
- No mercado livre, estima um preço na casa dos US$ 9 o milhão de BTU.
A consultoria ressalva que as estimativas, claro, estão sujeitas à volatilidade dos indexadores internacionais.
Mas ajudam a delimitar o ambiente de preços que os participantes deverão considerar ao avaliar suas ofertas no leilão da PPSA.
“A disposição de cada participante para oferecer prêmios mais elevados dependerá de seus custos alternativos de suprimento e de sua estratégia comercial”, pontua a Wood Mackenzie.
Mas qual o espaço para ágio?
A real competitividade do gás da União vai depender, ao fim, do grau de concorrência no leilão. Quanto maior a disputa, maior o preço final.
Com o preço inicial descontado, existe espaço para competição. Mas não necessariamente o teto para os ágios será os US$ 2 o milhão de BTU.
Porque há uma série de fatores que podem segurar os ágios.
Um deles é o próprio desenho do certame, no qual o gás da União foi dividido em cotas. Ao todo, serão ofertados 110 lotes de 10 mil m³/dia cada, divididos em cinco grupos industriais diferentes:
- químico e petroquímico (com 35 lotes, totalizando 350 mil m³/dia);
- siderúrgico, metalúrgico e mineração (32 lotes – 320 mil m³/dia);
- ceramista (20 lotes – 200 mil m³/dia);
- fertilizantes (13 lotes – 130 mil m³/dia);
- e vidreiro (10 lotes – 100 mil m³/dia).
A tendência é que alguns desses grupos tenham mais concorrência que outros – com impactos, claro, sobre o conservadorismo ou maior apetite na hora dos lances.
O espaço para ágio vai depender muito da disposição a risco e das particularidades de cada participante.
Uma indústria que opte por assumir a contratação do transporte não precisará de um comercializador intermediário que achate suas margens, por exemplo.
- Relembre: o edital do leilão permite, no modelo de contratação indireta, que o consumidor industrial entre com um comercializador associado, para gestão do transporte. Nesse modelo, as partes podem pactuar remuneração pelos compromissos assumidos.
Pedro Franklin, diretor-executivo da NewGas, empresa que faz a gestão de contratos de consumidores livres, destaca que as incertezas geopolíticas – e seus impactos sobre os indexadores – também merecem atenção dos participantes na hora de calcular o prêmio.
Segundo ele, a guerra no Oriente Médio é um fator importante na análise de risco do leilão da PPSA e, por isso, tende a minimizar a disposição dos compradores a grandes ágios, apesar do desconto do gás da União.
“Nas nossas simulações, não vai ter muito espaço para subir o preço, não. O principal ponto é o cenário de incertezas sobre os indexadores, que pode reverter a relação de competitividade do gás da União”, pontua.
Também existem riscos envolvidos nas regras do leilão e que, ao fim, podem reduzir o efeito prático do desconto obtido com a compra do gás da União.
O vice-presidente de Mercado de Gás para América Latina da Rystad Energy, Vinícius Romano, cita que o contrato de dez meses ofertado pela PPSA (que não cobre, portanto, o suprimento do ano todo), além do elevado take-or-pay(compromisso de retirada mínima) são pontos de atenção.
“Esse gás da União vem com desafios que podem jogar o preço final para baixo”, disse.
O início do fornecimento do gás pela PPSA somente a partir de março exigirá dos compradores o ônus de contratar volumes complementares para o primeiro bimestre, enquanto o take-or-pay elevado aumenta os riscos de penalidades.
- O edital definiu uma retirada mínima de 95% do volume contratado, com apuração mensal;
- a penalidade corresponde ao preço do gás multiplicado pela quantidade não retirada, mais tributos, e sem direito à recuperação do volume pago e não retirado;
- a PPSA poderá, excepcionalmente, autorizar a redução do volume contratado ou repasse temporário a um terceiro, mas não há direito automático à transferência, que deve ocorrer sem margem ou ágio.
Romano explica que é comum que consumidores industriais tenham oscilações na demanda (devido a paradas programadas, consumo menor no fim de semana etc). Um take-or-pay elevado, segundo ele, demanda um complemento no mix de suprimento, com contratos mais flexíveis.
“E flexibilidade no mercado de gás geralmente vem com preço”, analisa.
Esse risco de penalidades por take-or-pay, aliás, é maior quanto maior a exposição final do gás da União no mix de suprimento do consumidor.
E, para grandes consumidores, essa exposição é menor. O gás da União, nesses casos, tende a entrar na base, deixando outras fontes, mais flexíveis, para complemento do portfólio.
Tudo depende, portanto, do perfil da atual carteira de suprimento de cada cliente.
Quem sai em vantagem
Consumidores mais sofisticados, que já têm histórico no carregamento (ou seja, na contratação de capacidade na malha de gasodutos) saem em vantagem, por não precisarem contratar, para esse fim, um comercializador (um intermediário com quem dividir a margem).
Este é o caso da CSN e Braskem (por meio da Voqen) – a Gerdau também já atuou como carregadora no passado. São empresas mais familiarizadas com as penalidades, por exemplo.
- Três exemplos de consumidores industriais, aliás, com diferentes fábricas pelo país. A PPSA aceitou, no edital, que uma oferta possa reunir mais de uma unidade consumidora, desde que todas elas se enquadrem no mesmo setor escolhido e que a capacidade máxima agregada seja comprovada.
“Os grandes consumidores estão demonstrando muito interesse. Quem está ficando de fora são aqueles com consumos menores, que veem muita complexidade no leilão, na burocracia envolvida, e que não acompanham o mercado de gás tão de perto”, analisa Franklin.
Quem também sai ligeiramente em vantagem é a indústria situada na malha da Nova Transportadora do Sudeste (NTS), sem custos de interconexão – já que o gás será entregue na saída da unidade de tratamento da Petrobras em Itaboraí (RJ).
- Pedro Franklin, da NewGas, analisa que estar dentro da malha da NTS é uma vantagem, mas não um fator decisivo para sucesso no leilão.
A PPSA também ajustou o edital e aceitou que a indústria que ainda está no mercado cativo pode se habilitar. Fica obrigada a comprar por meio de comercializadora nesse caso.
- Franklin, no entanto, acredita que a participação no leilão deve ser, majoritariamente, de consumidores já presentes no mercado livre. Ele destaca que as complexidades e burocracias envolvidas no leilão – o que se torna ainda maior para quem está entrando só agora no mercado livre.
Um olho no Brasil, outro nos EUA
A escolha do Henry Hub como indexador foi uma das novidades do leilão.
O HH é o preço de referência do gás no mercado dos Estados Unidos e, embora tenha começado a ganhar mais espaço no Brasil, ainda tem um peso marginal nos contratos no mercado doméstico.
- O Henry Hub é menos exposto aos choques geopolíticos globais, em relação ao preço do petróleo Brent, o principal indexador do gás no Brasil.
- Mas isso não significa que o HH não seja volátil. O preço de referência dos EUA segue uma volatilidade sazonal (verão/inverno) e é sensível a desequilíbrios do mercado estadunidense (como os impactos de fenômenos climáticos como a tempestade de inverno Fern, no início de 2026, e oscilações na estocagem).
Além disso, tem sido pressionado pelo boom de demanda por projetos de data centers e pelo aumento da capacidade de exportação de gás natural liquefeito (GNL) pelos EUA.
Com a escalada do preço do petróleo no mercado internacional, o HH ganhou competitividade como indexador no mercado brasileiro este ano.
O diretor-executivo da NewGas, Pedro Franklin, no entanto, prega cautela diante das incertezas geopolíticas.
Ele cita que o Henry Hub ainda é um indexador com o qual o consumidor brasileiro está pouco habituado e destaca que, apesar de o Brent estar acima dos US$ 100 o barril, numa eventual pacificação do conflito no Oriente Médio, os fundamentos do mercado tendem a derrubar o preço do petróleo.
E aí o risco é que o gás da União, atrativo aos olhos de 2026, perca competitividade ao longo de 2027, durante a execução dos contratos.
“O comprador tem que fazer conta, traçar cenários, porque pode começar ganhando mais no início, mas ver o quadro se reverter no final do contrato”, comenta.
Ele defende que a PPSA reveja a regra para os próximos leilões, permitindo outros indexadores.
“O Brent tem previsão de queda e o Henry Hub de tendência gradativa de alta. Não é um bom indexador no médio prazo”.
Espaço para hedge
Pedro Franklin pontua que, dadas as incertezas, operações com hedge possam começar a fazer sentido na compra do gás da União, a depender do custo da operação.
A StoneX, fornecedora de serviços financeiros, é uma das empresas que têm buscado se aproximar dos agentes do mercado brasileiro de gás, na tentativa de destravar operações de hedge no segmento.
A companhia mira consumidores livres e comercializadoras interessadas em participar do leilão de gás da PPSA.
O consultor de Gerenciamento de Riscos da StoneX Brasil, João Amaral, acredita que o desconto do gás da União permite absorver os custos com hedge, mantendo a competitividade da molécula.
“O leilão da PPSA vai oferecer um gás com uma precificação com uma fórmula definida e com um preço inicial com um desconto interessante. Mas o Henry Hub tem uma volatilidade grande ao longo do ano e ganhar a fórmula não significa ganhar molécula barata”]
“O comprador vai continuar com risco e uma exposição muito grande a um Henry Hub, que é um ativo volátil. Se você passa a ter não só a fórmula bem definida, mas também o preço da molécula”, comenta.
Dar maior previsibilidade ao preço do gás da União foi uma demanda que apareceu na consulta pública do pré-edital do leilão.
Agentes chegaram a pedir à PPSA a inclusão de um teto para o Henry Hub – um mecanismo de proteção econômica para hipóteses de elevação extraordinária do preço de referência.
A estatal negou o pleito, sob a justificativa de que a variação do indexador é risco de mercado alocado à compradora e que um teto alteraria a base da disputa.
GÁS NA SEMANA
Transportadoras pedem intervenção do MME. A ATGás entrou com recurso hierárquico impróprio – instrumento que permite que um ministério reveja a decisão de uma agência reguladora. Pede a intervenção da pasta, caso a ANP não reveja a decisão que levou à redução da base de remuneração da TAG e NTS na revisão tarifária.
Os planos da Aguila. Principal compradora de blocos exploratórios em terra no 6º Ciclo da Oferta Permanente de Concessões, a Aguila Energia se prepara para começar a produzir gás em 2027 e mira parceria com Indo Energy, da Indonésia, em projetos híbridos gás-solar para data centers.
White Martins estreia no biometano. A empresa iniciou as operações de comercialização e distribuição do gás renovável no Brasil, com entrega de 130 mil m³/mês para a Cebrace em Santa Catarina. A companhia já atuava, desde os anos 2000, na distribuição de GNL off-grid e dá mais um passo no mercado brasileiro de gás.
CGOB na B3. A bolsa de valores brasileira foi aprovada como entidade registradora de Certificados de Garantia de Origem de Biometano pela ANP. Agora, o mercado passa a ter três entidades registradoras habilitadas.


