Bolsonaristas perseguem e invadem gabinete de vereadora que combate feminicídio em Campinas
Bolsonaristas perseguem e invadem gabinete de vereadora que combate feminicídio em Campinas
Por Explicador-Geral da República/ Portal do Ricardo Mello
A vereadora Guida Calixto (PT) de Campinas foi alvo de uma série de ataques coordenados por um grupo bolsonarista associado a vereadores da extrema-direita na cidade. A perseguição teve início quando a vereadora apresentou o Projeto de Lei nº 70/2026, que estabelece o Sistema Municipal de Enfrentamento ao Feminicídio, e se intensificou com a invasão de seu gabinete, ameaças às suas assessoras e constrangimento público.
Um boletim de ocorrência registrado na Delegacia de Defesa da Mulher na noite de quarta-feira (18/3) descreve que a violência política teve início na segunda-feira (16/3), quando duas assessoras de Calixto distribuíam material sobre o combate ao feminicídio na Praça da Catedral, no Centro de Campinas. Três homens se aproximaram, começaram a gravar as mulheres sem consentimento e as intimidaram com comentários políticos provocativos. Segundo o relato no boletim de ocorrência, os agressores buscavam criar um confronto ao provocar as assessoras, o que não ocorreu. A Polícia Militar foi acionada, interveio e pediu que os homens se retirassem do local.
No dia seguinte, terça-feira (17/3), o mesmo grupo foi até uma escola onde havia um outdoor da vereadora sobre a campanha contra o feminicídio. “Eles pressionaram o diretor da escola, exigindo a remoção do outdoor”, relatou Guida. A pressão surtiu efeito, levando à remoção do outdoor.
Nesse mesmo dia, os agressores invadiram o gabinete de Guida, gravaram vídeos intimidando uma de suas assessoras e fizeram ameaças. “Você é funcionária pública, amanhã vou postar seus vídeos nas redes sociais”, disse um dos envolvidos.
Para ter acesso à Câmara Municipal, os agressores informaram que visitariam o gabinete de um vereador bolsonarista, obtendo assim permissão para entrar. “Sabemos que esse grupo que tenta nos silenciar é instigado por vereadores que se opõem à nossa agenda de combate à violência contra a mulher”, comentou a parlamentar.
No dia seguinte (18/3), enquanto Guida participava de uma reunião com representantes do Ministério das Mulheres em uma atividade do Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio, o grupo retornou à Câmara, acompanhado por outros militantes bolsonaristas conhecidos por provocar opositores políticos e divulgar as cenas nas redes sociais. “Eles tentaram entrar em meu gabinete, mas eu não estava lá. Um dos meus assessores desconfiou e foi atender os homens na recepção da Câmara. Ele foi hostilizado e gravado sob ameaça de exposição nas redes sociais”, contou Guida.
Na sessão, o grupo tentou acompanhar os trabalhos legislativos, mas foi temporariamente impedido pela segurança. Neste dia, Guida usou seu tempo na tribuna para denunciar publicamente a perseguição. “Estou sendo ameaçada e perseguida por um grupo de homens bolsonaristas, machistas, misóginos, que têm aversão às mulheres”, declarou. Segundo Guida, a motivação real dos ataques é o projeto de lei que propõe o monitoramento eletrônico de agressores de mulheres. “Eles temem a possibilidade de os agressores serem obrigados a usar tornozeleira eletrônica. Eles querem proteger esses homens feminicidas”, acusou.
Ação na Justiça
Além do registro do crime, a parlamentar planeja solicitar à Justiça a concessão de uma medida cautelar que impeça o grupo de se aproximar dela. “Não tenho medo de covardes. Sou uma mulher negra, criada na periferia, e conheço bem os perigos que as mulheres enfrentam. Vou enfrentar de frente aqueles que estão perseguindo meu mandato”, afirmou Guida, em vídeo divulgado nas redes sociais.
A Câmara Municipal de Campinas emitiu uma nota condenando “qualquer tipo de agressão, física e moral, principalmente contra as mulheres”, e se prontificou a colaborar com as investigações. Contudo, a Casa ressaltou que não pode proibir a entrada dos acusados no prédio sem uma ordem judicial.
Histórico de violência política de gênero
A violência política de gênero em Campinas afetou outras mulheres na cidade. A vereadora Mariana Conti (PSOL) relatou ter recebido ameaças de morte desde o início de seu mandato e reconheceu o padrão de violência política contra parlamentares mulheres. “A violência política de gênero é uma realidade diária na Câmara”, afirmou Mariana.
Recentemente, Mariana, que se afastou temporariamente do mandato para participar da Flotilha Global Sumud, foi alvo de um pedido de cassação apresentado por vereadores bolsonaristas com base em notícias falsas, incluindo uma acusação infundada de tráfico de drogas divulgada nas redes sociais de um vereador bolsonarista. “Tomamos medidas judiciais e conseguimos uma liminar para a remoção do conteúdo. Estamos processando criminal e civilmente esse vereador”, ressaltou. O pedido de instauração de uma Comissão Processante contra Mariana foi rejeitado após votação.
Os casos de Guida Calixto e Mariana Conti exemplificam como grupos extremistas utilizam intimidação, gravações não autorizadas e ameaças de exposição pública como táticas para silenciar mulheres que defendem agendas progressistas. A perseguição não é um incidente isolado, mas parte de uma estratégia coordenada para desacreditar e afastar parlamentares que promovem políticas de proteção às mulheres ou outras pautas inclusivas.
Confira a nota da Câmara na íntegra
“A Câmara Municipal de Campinas condena qualquer tipo de agressão, física e moral, principalmente contra as mulheres. A denúncia é muito grave e a Câmara está à disposição para colaborar com as investigações. Caso a Justiça conceda uma medida protetiva de urgência, os acusados serão proibidos de entrar no prédio do Legislativo. Para lidar com o aumento de casos desse tipo, a Câmara realizará um seminário em 26 de março sobre direitos, garantias, prevenção e políticas públicas para combater a violência de gênero. O evento contará com a presença de representantes da Delegacia dos Direitos da Mulher, da Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres, da Ordem dos Advogados do Brasil e da sociedade civil”.


