Brasil tem tudo para transformar crise global do GNL em oportunidade, diz CEO da Edge
HOUSTON — Os recentes acontecimentos no Irã desencadearam uma crise global de segurança energética, mas o Brasil está em posição privilegiada para transformar essa situação em uma oportunidade, graças às suas reservas, demanda reprimida e capital disponível. Essa é a análise de Demétrio Magalhães, CEO da Edge, empresa pertencente ao grupo Cosan e focada no mercado de gás natural, em entrevista realizada no estúdio eixos, durante a CERAWeek 2026 em Houston.
Com o bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã e os danos causados aos trens de liquefação do Catar — que resultaram na retirada de 12,8 milhões de toneladas anuais de gás natural liquefeito (GNL) do mercado por até cinco anos —, os preços do GNL na Ásia dispararam 143% desde o início do conflito em 28 de fevereiro, alcançando cerca de US$ 25,30/(MMBtu), o nível mais alto em mais de três anos.
Magalhães reconhece que o choque é iminente a curto prazo, porém os fundamentos do mercado continuam favoráveis a uma perspectiva de excesso de oferta até 2030. Ele destaca que, apesar das dificuldades nos próximos meses, a tendência é de um aumento no volume global de GNL transacionado, passando dos atuais 1,6 bilhão a 1,7 bilhão de metros cúbicos por dia para entre 2,3 bilhões e 2,5 bilhões de metros cúbicos diários até o final da década.
Parceiros estratégicos para assegurar o fornecimento
Diante da volatilidade dos índices TTF (europeu) e JKM (asiático) — com o TTF registrando um aumento de 29,5% em um único dia após a paralisação no Catar —, Magalhães destaca a importância de selecionar adequadamente os fornecedores de GNL. Ele enfatiza que empresas com portfólios globais diversificados, como Shell, TotalEnergies e BP, oferecem maior segurança de abastecimento ao Brasil ao diluírem o risco proveniente de uma fonte única de suprimento.
A Edge adquire GNL da TotalEnergies para o Terminal de Regaseificação de São Paulo (TRSP), localizado no Porto de Santos — uma infraestrutura pertencente à Cosan, com capacidade para 14 milhões de metros cúbicos por dia.
O contrato de longo prazo firmado com a empresa francesa antes do início do conflito já resultou em entregas e, segundo Magalhães, ilustra a importância de contar com um parceiro global confiável. Ele ressalta: “É fundamental ter um parceiro sólido que cumpra o contrato e possua atuação global.”
Argentina, Vaca Muerta e os desafios do GNL regional
A Argentina, com suas reservas em Vaca Muerta estimadas em até 300 TCFs (trilhões de pés cúbicos), surge como uma potencial substituta para parte da oferta perdida pelo Catar. Contudo, Magalhães alerta para a complexidade dessa equação. Em sua opinião, o gás argentino tende a buscar paridade com os preços internacionais de GNL, o que torna as rotas on-grid — via gasodutos — mais economicamente atrativas para o Brasil do que o GNL transportado por navios.
O próprio executivo reconhece que a infraestrutura limitada e a falta de competitividade nos gasodutos representam os principais obstáculos para a integração regional. A rota via Bolívia é apontada como uma alternativa promissora. Em 2025, a Edge realizou sua primeira importação de gás argentino para o Brasil por meio da Bolívia, em parceria com a Tecpetrol.
Expansão do mercado livre e perspectivas futuras
A Edge foi lançada em janeiro de 2024 com o compromisso de desenvolver o mercado livre de gás, sendo pioneira na migração de seis indústrias do estado de São Paulo do mercado cativo para o livre. Desde então, a expansão tem sido significativa.
O mercado livre de gás no Brasil já atingiu a marca de 15 milhões de metros cúbicos por dia, um volume que se espera alcançar ao longo de 2026. O executivo projeta que esse mercado crescerá para 25 milhões e, posteriormente, 50 milhões de metros cúbicos diários, à medida que consumidores residenciais e comerciais também migrarem para o regime livre.
Magalhães observa que a crise global alterou a mentalidade dos clientes, que agora preferem contratos de médio e longo prazo (de dois a quatro anos) em vez de optarem por contratos de curto prazo baseados na expectativa de queda contínua de preços. Ele destaca a importância de se afastar da ideia de que os preços sempre cairão, já que, conforme ressalta, “não há garantias em relação a commodities.”
O executivo também avalia que a tendência de queda nos preços do mercado livre foi interrompida, mas não prevê um movimento de alta, apenas uma estabilização dentro de uma faixa específica de valores.
GNL fora da rede convencional: expansão e perspectivas
O segmento de fornecimento de GNL a clientes não conectados à infraestrutura de gasodutos, por meio de caminhões criogênicos, é apontado por Magalhães como um novo horizonte de oportunidades para a Edge.
O primeiro contrato foi estabelecido com a LD Celulose, uma joint venture entre a austríaca Lenzing e a brasileira Dexco, em sua unidade em Indianópolis, no Triângulo Mineiro, localizada a aproximadamente 700 km do terminal de Santos. O contrato prevê o fornecimento diário de 100 mil metros cúbicos por um período de oito anos.
No evento da CERAWeek, o executivo anunciou que já foram entregues 100 caminhões ao cliente inaugural e que estão em andamento negociações para aumentar o volume contratado. Atualmente, a Edge opera com capacidade instalada de 400 mil metros cúbicos por dia nessa fase inicial e planeja atingir esse patamar ao longo de 2026, visando a expansão para uma segunda fase.
Além de sua aplicação na indústria, o uso de GNL como combustível para o transporte de cargas pesadas começa a se consolidar como uma nova oportunidade de negócios.
A entrevista foi conduzida pelo jornalista André Ramalho, do estúdio eixos, durante a cobertura da CERAWeek em Houston.


