Cartunista Santiago vê Vivaldi e Dostoievski pelas ruas do bairro Cidade Baixa; confira charge inédita
O que tem a ver o compositor clássico italiano Vivaldi e o escritor russo Fiodor Dostoievski com o bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre (RS)? Em princípio, nada. Para o cartunista Neltair Rebés Abreu, 75 anos, conhecido por Santiago, morador da região, tem tudo a ver. Ele quer mostrar a diversidade, a confluência de sons, tons, escritas, amores e desamores, punks e intelectuais, entre os moradores e os frequentadores da área. Todos se entrelaçam em diálogos impossíveis, em conversas animadas e até em alto astral sob efeito de alguma coisa.
Este trabalho foi feito especialmente para o Brasil de Fato para falar do seu bairro, que está no centro das atenções e, hoje, vítima das incorporadoras, que estão demolindo casas e arrastando junto as árvores para construir prédios gigantescos.
A Cidade Baixa é uma catarse única em Porto Alegre, uma liberação de emoções ou tensões reprimidas na sua visão. Santiago é uma figura alegre, simpática, com um humor extraordinário e que usa uma linguagem que varia do erudito ao gaudério. Fala de lá e de cá com desenvoltura e, quando coloca as mãos para funcionar, é um gênio irreprimível. Premiadíssimo no Brasil e exterior, nasceu lá nas bandas de Santiago do Boqueirão, cidade que lhe deu o nome artístico e que faz parte das Missões Jesuíticas, batizada de Terra dos Poetas por causa da tradição artística do município.
Seja a dor que sinta, Santiago não perde uma boa risada. Há poucas semanas passou por uma cirurgia emergencial de prostatectomia radical robótica não coberta por convênio. Se não fizesse o procedimento, muita coisa poderia acontecer no futuro já que é diabético. Foi tudo tranquilo. Está em paz e desenhando. Mas antes, para fazer a intervenção, vendeu 21 trabalhos originais com temas variados como ecologia, costumes, políticas e alguns poéticos e aquarelas com nanquim. Deu para pagar o robô e os médicos. Foi um sucesso.
Carreira premiadíssima
Criador do Macanudo Taurino Fagundes, personagem baseado no gaúcho típico do Pampa, foi chargista no jornal Folha da Tarde e colaborador no Correio do Povo, no Coojornal e no Pasquim. Em 1994, a revista Witty World, voltada a profissionais do desenho humorístico, o incluiu na lista dos 13 melhores do mundo no gênero Gag Cartoon (cartum de uma única cena) ao lado de Quino, Sempé e Aragonés.
Caricaturista, desenhista desde guri, não perdia uma chance, ideia ou dica para fazer as suas brincadeiras e gozações. Como ele disse para o site A Margem, o desenhista é movido a indignação. “Humor gráfico sem posicionamento crítico não funciona”, afirma ele.
De panfleteador dos seus trabalhos na sua cidade nos anos 60, Santiago se transformou num dos desenhistas de humor mais premiados do Brasil – quando a coleção de troféus ultrapassou a marca de quatro ou cinco dezenas, ele parou de contar. O reconhecimento vem de salões de humor promovidos em países como França, Espanha, Alemanha, Canadá, Japão, Bulgária e Turquia, entre outros. Sem falar nas premiações nacionais – no Salão Internacional de Humor de Piracicaba, por exemplo, foi tantas vezes agraciado que ganhou o cargo de “presidente de honra” do evento, em 1991.
Os diplomas de premiação mais relevantes estão guardados em molduras numa das paredes da sala com janela para a calçada do sobrado em que mora há mais de 20 anos numa travessa da Cidade Baixa. É o seu escritório de trabalho. “Eu chamo de meu cantinho de exibicionismo”, diz ele, um pouco envergonhado.
Desenhista compulsivo desde a infância, até hoje ele diz que é assim e que consegue até psicografar ilustrações quando está ao telefone, por exemplo. Ele veio para Porto Alegre jovem, para trabalhar e estudar desenho técnico e industrial. Tinha 20 anos e passou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) aos 22, para Artes Plásticas. Cursou só um ano, depois passou para Arquitetura. Aos 28, desistiu da faculdade, porque viu que avançava nas cadeiras humanas e artísticas e ficava empacado nas de cálculo e mecânica.
“Em 74, comecei a trabalhar como ilustrador na Folha da Manhã e, no ano seguinte, na Folha da Tarde, sem medo de ‘tomar porrada’. Como eu assinava os trabalhos como ‘Santiago’, tinha a sorte de estar sob um pseudônimo. Em 72, fiz um logotipo para o jornal Construção que foi parar no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), mas saí ileso devido ao pseudônimo”, recorda.
Depois, foi para o Coojornal junto com o Edgar Vasquez, Eugênio Neves, Eduardo ‘Peninha’ Bueno, para fazer charges assinadas e ilustrações. Começou também a fazer ilustrações para o Correio do Povo. “Sempre gostei de ilustrar, gosto de trabalhar com um tema e linha de pensamento definidos. E aí a vida foi em frente, sempre fazendo o que gosto e o que sei. As ideias fluem sempre, não importa o dia e a hora”.
Autores citados
Fiodor Mikhailovitch Dostoievski (1821-1881) foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores “psicólogos” que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique. Suas grandes obras foram Os Irmãos Karamázov e Crime e Castigo.
Antonio Lucio Vivaldi (1678-1741) foi um compositor e músico do estilo barroco tardio oriundo da República de Veneza, atual Itália. Tinha a alcunha de il Prete Rosso por ser um sacerdote católico de cabelos ruivos. Compôs 770 obras, entre as quais 477 concertos e 46 óperas. Três das suas grandes obras são As Quatro Estações, Magnificat e Glória.


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