São Luís (MA) — A intervenção judicial na Federação Maranhense de Futebol (FMF) aprofundou um cenário já crítico de dificuldades financeiras no futebol maranhense ao impor cobranças integrais, elevar taxas administrativas e, sobretudo, condicionar pagamentos ao uso de cartão de crédito. A medida atingiu diretamente clubes profissionais, ligas amadoras e competições de base, ampliando custos e restringindo ainda mais a capacidade operacional dos filiados.
O impacto torna-se ainda mais sensível com o início do Campeonato Maranhense neste sábado (10), quando os custos de arbitragem, logística e taxas federativas se concentram em curto espaço de tempo.
Embora dirigentes reconheçam que a limitação financeira sempre fez parte da realidade do futebol no Estado, antes da intervenção havia espaço para negociação, parcelamentos e alguma previsibilidade, o que permitia planejamento mínimo da temporada. Com a nova gestão, esse modelo foi substituído por cobranças imediatas e inflexíveis.
“A dificuldade financeira sempre existiu. O que a intervenção fez foi retirar o pouco fôlego que clubes e ligas ainda tinham. Antes, era possível negociar, parcelar e planejar. Hoje, a cobrança é imediata e atinge todos: clubes profissionais, ligas amadoras e a base”, afirmou um dirigente do futebol local.
Sob a gestão provisória conduzida pela advogada Susan Lucena, despesas passaram a ser exigidas sem flexibilização, muitas vezes condicionadas ao pagamento por cartão de crédito, transferindo aos filiados custos adicionais decorrentes de juros e taxas bancárias. Ligas municipais relataram que o modelo inviabilizou a realização de campeonatos locais e comprometeu a manutenção de atividades esportivas no interior do Estado.
Além disso, clubes e ligas apontam um ambiente de insegurança institucional e comercial, com dificuldades para formalizar patrocínios e ausência de políticas de fomento durante a intervenção. Para dirigentes, a federação deixou de exercer seu papel tradicional de coordenação e apoio ao desenvolvimento do futebol e passou a atuar, na prática, como instância arrecadatória, sem oferecer contrapartidas estruturais.
Na avaliação dos clubes e ligas, a intervenção não é legítima, pois as matérias que lhe deram origem são de natureza interna corporis, próprias da autonomia associativa, não se sujeitando à substituição da governança por atos do Poder Judiciário ou do Ministério Público. Nesse entendimento, a própria intervenção representaria violação à autonomia das entidades privadas e ao princípio constitucional da liberdade associativa.
Ressalvas semelhantes foram dirigidas à atuação do Ministério Público, no sentido de que sua fiscalização não pode implicar substituição da vontade dos associados nem supressão da autonomia privada das entidades esportivas.
Os dirigentes também ressaltaram que as críticas não possuem qualquer relação com gênero, preconceito ou discriminação, mas decorrem exclusivamente de aspectos técnicos, jurídicos e operacionais. Como exemplo, citaram a Sociedade Esportiva Palmeiras, presidida por uma mulher com reconhecida competência de gestão, destacando que liderança feminina é plenamente consolidada no esporte quando há domínio do setor. “Não é quem ocupa o cargo, é entender como o futebol funciona”, resumiu um representante.
Ao final, o entendimento predominante é de que o erro central não esteve apenas no modelo da intervenção, mas em sua própria manutenção sem base jurídica válida, que ignorou a fragilidade estrutural do futebol maranhense e agravou dificuldades preexistentes, atingindo a totalidade dos filiados.
