Como falar sobre si mesmo sem parecer arrogante – CartaCapital
Em 1804, Napoleão Bonaparte se coroou, um gesto interpretado como grandioso, porém, ao longo do tempo, resultou no oposto: perda de aliados e diminuição da confiança. Ryan Holiday usa esse acontecimento em seu livro O Ego é Seu Maior Inimigo para exemplificar como um discurso focado apenas em conquistas, sem criar conexão, tende a afastar a audiência em vez de envolvê-la.
Giovana Pedroso, especialista em comunicação, parte desse mesmo ponto para compreender o que impede tantos líderes de falarem sobre suas trajetórias. “Quando um líder me relata o receio de parecer arrogante ao compartilhar sua história, muitas vezes percebo que o medo se disfarça de modéstia”, destaca.
A sensação descrita por ela é comum: mencionar conquistas pode soar como exibicionismo. No entanto, o silêncio não é a solução.
A armadilha da falsa modéstia
Um estudo da Harvard Business School, chamado Humblebragging: A Distinct and Ineffective Self-Presentation Strategy, revela que assumir méritos com falsa modéstia pode ser ainda mais prejudicial do que expor conquistas de forma direta. Essa estratégia diminui tanto a simpatia quanto a percepção de competência da pessoa que a adota.
O problema, segundo Pedroso, está em outra confusão: muitos líderes confundem autenticidade com autopromoção. “Eles esquecem uma das principais lições da comunicação: não falar para as pessoas, mas com elas”, destaca.
Falar sobre si mesmo sem parecer arrogante, sob essa perspectiva, depende menos do conteúdo em si e mais do enfoque da narrativa. É crucial que o público se identifique com a história, aprenda algo com ela ou evite erros que o narrador já cometeu.
Quando a história se torna uma lição universal
Para Pedroso, se uma narrativa pessoal oferece ao menos um desses três elementos – identificação, aprendizado ou prevenção de erros –, ela deixa de ser autopromoção e passa a ser uma lição autoral.
“Identificar lições universais em sua própria trajetória requer uma reflexão sincera”, destaca a especialista. O ponto de partida prático é visualizar a vida como um livro com vários capítulos, cada um correspondendo a um período ou área específica. Qual capítulo vale a pena contar depende sempre da audiência e do contexto.
Três perguntas antes de compartilhar
Pedroso sugere três critérios para determinar o que realmente é relevante compartilhar.
O primeiro: isso agrega valor para quem ouve? Se a resposta for “talvez”, a passagem deve ser descartada.
O segundo: qual é a lição que pode ser transmitida? Se não houver um aprendizado evidente, provavelmente ainda não é o momento de contar aquela parte da história.
O terceiro critério é o mais crítico: estou compartilhando para ensinar ou para impressionar? “Neste caso, a honestidade deve ser contundente”, destaca Pedroso.
A mudança de perspectiva decisiva
A transformação não está em falar menos sobre si mesmo. Está em mudar o foco da narrativa de “eu fiz” para “isso pode ser útil para você”. Essa alteração de perspectiva é o que diferencia falar sobre si com autoridade de falar com arrogância.
“Manter silêncio sobre suas conquistas não ajuda ninguém, apenas priva aqueles que precisam de sua jornada como referência”, conclui Pedroso. A recomendação da especialista é clara: fale, com propósito, generosidade e clareza sobre o porquê.
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