Como vivem as famílias que moram debaixo da ponte há 30 anos em MT
Título: Vivência das famílias residentes há 30 anos sob a ponte em MT
Há quase trinta anos, famílias ocupam os espaços sob a Ponte Júlio Müller, em Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá, vivendo de modo improvisado e sem acesso a políticas públicas que atendam suas necessidades básicas de moradia. Informações fornecidas pelo G1.
Situado às margens do Rio Cuiabá, o local é caracterizado por residências construídas sob a estrutura da ponte, onde muitas famílias subsistem através da pesca e da criação de animais de pequeno porte. O que inicialmente foi uma ocupação temporária persiste até os dias atuais, evidenciando a ausência de políticas habitacionais eficazes na área.
As moradias, em sua maioria erguidas precariamente, têm acesso a energia elétrica e água encanada, porém enfrentam desafios relacionados à falta de saneamento básico e à insegurança jurídica da ocupação.
Atualmente, restam apenas três famílias no local, representando uma redução em relação ao número original de nove residências. Apesar das condições adversas, os habitantes resistem devido ao forte vínculo emocional com o lugar e à atividade pesqueira.
Os moradores, que preferem ser identificados por apelidos ou pelo primeiro nome, incluem figuras como “Jacaré”, responsável pela horta e pelos animais, e “Nardo”, que atua como mediador entre os vizinhos. Vitória, que utiliza cadeira de rodas, também faz parte da comunidade, com seu esposo envolvido na pesca.
A ocupação teve início em 1994, quando 30 pessoas, em sua maioria pescadores, atravessaram o Rio Cuiabá de barco e se estabeleceram em Várzea Grande, após a proposta de realocação feita pela Prefeitura de Cuiabá, que ofereceu moradias para as famílias que estavam na outra margem.
Embora muitos tenham aceitado a oferta, alguns resistiram e optaram por permanecer na margem oposta, onde residem até hoje. A área é classificada como Zona de Preservação Permanente (APP) devido à proximidade com o Rio Cuiabá, tornando a ocupação irregular conforme o Código Florestal.
A prefeitura de Várzea Grande reconhece o local como área ocupada, e o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) tem prestado assistência às famílias, embora ainda não haja planos concretos para regularização ou remoção.
Apesar da ausência de políticas habitacionais, a Prefeitura de Várzea Grande está em fase de captação de recursos para a elaboração do Diagnóstico Habitacional e do Plano Municipal de Habitação, ferramentas essenciais para o planejamento habitacional do município.
Antes da Copa do Mundo de 2014, houve tentativas de remoção, quando um projeto do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) considerou retirar as famílias, porém o projeto foi abandonado em favor de um BRT. Atualmente, apesar do reduzido número de moradores, a comunidade é vista como um ponto de trabalho para os pescadores locais, com resistência contra a presença de drogas ou outros problemas sociais no local.
A pesca permanece como a principal fonte de renda, mas, conforme relatado pelos próprios moradores, a instabilidade econômica e as condições climáticas impactam diretamente na atividade. Durante a piracema, período de proibição da pesca para conservação das espécies, muitos moradores não recebem o seguro-defeso, agravando a situação de vulnerabilidade social.
A situação de pobreza reflete um quadro mais amplo em Várzea Grande, onde mais de 35 mil famílias vivem em situação de vulnerabilidade, segundo dados do Laboratório de Visualização e Georreferenciamento do Sistema Único de Assistência Social (GeoSUAS-MT).
Aproximadamente 73 mil famílias em Mato Grosso enfrentam dificuldades para obter moradias adequadas, sendo muitas delas residentes em ocupações informais, áreas irregulares ou de risco.
“O maior desafio é sensibilizar quem tem o poder da caneta. Muitas pessoas acabam ocupando áreas que não são delas porque não têm alternativa. Moram em beira de córrego, em área de preservação, correndo risco. E muitas vezes as autoridades passam e nada muda,” afirmou o diretor-presidente da Associação Comunitária de Habitação do Estado de Mato Grosso (ACDHAM), Emídio de Souza.
Como tentativa de solucionar a questão, a Prefeitura de Várzea Grande anunciou recentemente o lançamento de um novo programa habitacional com o objetivo de regularizar mais de 8.000 imóveis em 25 bairros da região, visando entregar as novas moradias em até dois anos e meio.


