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crescemos juntos, governamos separados – CartaCapital

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Há precisamente três décadas, Sergipe deu um passo crucial ao estabelecer a região metropolitana de Aracaju (RMA), reconhecendo o processo de metropolização que se iniciara em 1980, através da Lei Estadual nº 25/1995. A capital Aracaju e os municípios de Barra dos Coqueiros, Nossa Senhora do Socorro e São Cristóvão deixaram de ser localidades isoladas para formar um sistema urbano integrado, caracterizado pela expansão da área urbana e pelo aumento dos deslocamentos pendulares.

No começo dos anos 80, Aracaju concentrava quase que exclusivamente os empregos e os serviços especializados. Os municípios próximos tinham papéis secundários, sendo dependentes da capital. Esse cenário começou a mudar ao longo dos anos 90 e se acentuou nos anos 2000, devido a políticas federais que impulsionaram mudanças socioespaciais.

Dados do IBGE indicam que, de 1990 a 2022, a população da RMA cresceu de cerca de 530 mil para mais de 932 mil habitantes, mostrando um crescimento significativo. Em 1990, a RMA representava aproximadamente 29% da população de Sergipe, mas atualmente conta com mais de 42%. Esses números se somam aos indicadores econômicos que revelam que 59% das empresas sergipanas estão na RMA, assim como 64% da força de trabalho, demonstrando sua grande importância no contexto estadual.

Entretanto, esse aumento populacional ocorreu em ritmos diferentes entre os municípios. Aracaju continuou crescendo de maneira mais moderada, enquanto os municípios periféricos assumiram um papel relevante na região metropolitana. Barra dos Coqueiros, em especial, teve a maior taxa de crescimento nas últimas décadas, mais que dobrando sua população entre 2000 e 2022.

Esse movimento está intimamente ligado às transformações urbanas que marcaram a região metropolitana de Aracaju a partir dos anos 2000. A expansão do setor imobiliário, presente no Brasil desde o final dos anos 2000, resultou na formação de novos bairros e áreas de interesse do mercado imobiliário, especialmente nas áreas urbanas a sul, oeste e norte da RMA — gerando conflitos ambientais devido à falta de infraestrutura e serviços públicos nessas localidades.

Por outro lado, as melhorias viárias facilitaram os deslocamentos diários entre os municípios da RMA. A inauguração da Ponte Construtor João Alves, em 2006, conectando Aracaju a Barra dos Coqueiros, redesenhou o litoral norte como área de expansão urbana, especialmente focada no mercado imobiliário-turístico, impulsionando construtoras locais, regionais e nacionais a promover, cada vez mais, a moradia fechada e a apropriação privada da paisagem litorânea.

No sentido sul, a Ponte Joel Silveira, inaugurada em 2010, ligando Aracaju a Itaporanga d’Ajuda, fortaleceu a integração regional e impulsionou novas dinâmicas turísticas e imobiliárias. Essas infraestruturas não só facilitaram os deslocamentos, mas também reorganizaram fluxos, redefiniram pontos centrais no conjunto metropolitano e reestruturaram espaços.

Nesse processo, Nossa Senhora do Socorro deixou de ser apenas uma “cidade-dormitório” e fortaleceu sua importância intraurbana, ampliando comércio, serviços e infraestrutura urbana, além de implantar novos empreendimentos habitacionais populares subsidiados pelo programa Minha Casa, Minha Vida.

São Cristóvão, por sua vez, passou por uma transformação urbana peculiar na última década, não apenas na Grande Rosa Elze — com melhorias na infraestrutura e habitação —, mas também ao combinar desenvolvimento urbano com a preservação e valorização do patrimônio histórico-arquitetônico e cultural, fortalecendo sua identidade como cidade-mãe de Sergipe.

Aracaju permaneceu como o centro decisório, econômico e simbólico da região, passando por intensas transformações em seu desenho urbano. A expansão da capital em direção aos municípios vizinhos tem sido mais evidente no sentido oeste, em direção a São Cristóvão.

No entanto, é importante ressaltar que, ao longo desses 30 anos de institucionalização da RMA, a fragilidade da governança metropolitana persistiu. As funções públicas de interesse comum (FICs) — como saneamento básico, transporte coletivo, habitação e uso do solo — continuaram a ser planejadas e executadas de maneira fragmentada, município a município, sem um planejamento integrado e sem instâncias decisórias permanentes.

Atualmente, a região metropolitana de Aracaju entra em uma nova fase, marcada por desafios ainda mais complexos. O crescimento urbano contínuo, aliado às mudanças climáticas, tende a agravar problemas como alagamentos, inundações, ilhas de calor, pressão sobre áreas costeiras e sobrecarga da infraestrutura existente.

Portanto, é fundamental destacar que o futuro metropolitano requer, inevitavelmente, a superação do modelo fragmentado, o que implica fortalecer a governança metropolitana, integrar políticas de mobilidade urbana, saneamento básico e habitação, e incorporar a agenda climática como elemento central do planejamento urbano metropolitano.

Após três décadas de sua institucionalização, a região metropolitana de Aracaju já demonstrou sua capacidade de crescimento. O desafio agora é provar sua habilidade em planejar, governar e assegurar seu próprio futuro como metrópole, com uma visão de longo prazo, justiça social e sustentabilidade.

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