De vice de Flávio Dino a articulador da sucessão: o plano de Carlos Brandão para fazer de Orleans governador do Maranhão
Carlos Brandão chegou ao governo do Maranhão como herdeiro político direto do então governador Flávio Dino, eleito com o apoio de uma ampla frente de partidos e, hoje, tenta transformar esse capital em força para projetar o sobrinho, Orleans Brandão, como seu sucessor em 2026. O movimento, porém, ocorre em meio a um cenário de divisão na base governista, disputa com antigos aliados e pressão de nomes competitivos da oposição, o que torna a sucessão no Palácio dos Leões uma das mais imprevisíveis desde o fim da hegemonia sarneyista.
Como Carlos Brandão chegou ao governo
Em 2014, o então deputado federal Carlos Brandão foi escolhido para compor a chapa de Flávio Dino como vice, dentro de uma coligação que reunia siglas de esquerda e centro, com o objetivo de derrotar o grupo político de José Sarney no Maranhão. Em 2018, a aliança foi ampliada e Brandão foi novamente indicado como vice na chapa de Dino, dentro da coligação “Todos pelo Maranhão”, que uniu PCdoB, PDT, PRB, PPS, PTB, DEM, PP, PR, PTC, PPL, PROS, Avante, PEN, PT, PSB e Solidariedade, uma das frentes eleitorais mais amplas da história recente do estado.
Em 2022, a articulação se repetiu em outro formato. Flávio Dino decidiu disputar o Senado e deixou o governo em abril, abrindo espaço para que Brandão assumisse o comando do Executivo como governador em exercício. Naquele ano, Brandão concorreu à reeleição já na cadeira, pela coligação “Para o Bem do Maranhão”, formada por PSB, MDB, PP, Patriota, Podemos e pelas federações Brasil da Esperança e PSDB–Cidadania, tendo o petista Felipe Camarão como vice. O apoio de Dino, da esquerda nacional e do então candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi decisivo para consolidar a imagem de continuidade do projeto iniciado em 2015.
Na campanha, o discurso oficial era de unidade. Dino, então pré-candidato ao Senado, reiterava que o objetivo era manter o grupo no poder e fortalecer a parceria com Lula em Brasília. Em manifestações públicas, o ex-governador defendia a continuidade das políticas sociais e de investimentos estaduais, afirmando: “Nós vamos continuar trabalhando na ampliação de serviços públicos e políticas sociais” ao se referir ao projeto comum do grupo, do qual Brandão era um dos principais pilares.
Do aliado ao “governador sem partido”
Depois de consolidar o mandato, o cenário político começou a se alterar. A saída de Dino para o governo federal e, depois, para o Supremo Tribunal Federal mexeu com o equilíbrio de forças no Maranhão e abriu espaço para novas disputas internas. Análises publicadas na imprensa apontam que o rompimento entre Brandão e o grupo “dinista” redesenhou alianças e colocou em xeque a unidade que havia sustentado a vitória de 2022.
Reportagens destacam que, em 2025, as tensões se agravaram, com episódios de desgaste entre o governador e aliados históricos de Dino em torno de indicações políticas e da condução da sucessão de 2026. Em uma avaliação publicada em análise política, Brandão passou a ser descrito como um “governador sem partido”, expressão usada para sintetizar o distanciamento crescente do PSB e dos antigos parceiros de esquerda, ao mesmo tempo em que buscava construir uma base mais própria.
Paralelamente, a relação com o vice-governador Felipe Camarão se deteriorou. O petista, que inicialmente era visto como sucessor natural dentro do campo governista, passou a defender abertamente uma candidatura própria, em linha com o projeto nacional do PT e com o apoio do entorno de Flávio Dino. Em entrevistas e declarações públicas, Camarão passou a cobrar o cumprimento de um acordo político, afirmando que havia sido combinada a saída de Brandão para disputar o Senado, com sua consequente assunção ao governo e candidatura à reeleição em 2026.
A entrada de Orleans Brandão no tabuleiro
Enquanto o conflito se acentuava, o governador passou a trabalhar a figura do sobrinho, Orleans Brandão, hoje secretário extraordinário de Assuntos Municipalistas e presidente do MDB no Maranhão, como nome central da própria sucessão. Orleans ganhou espaço nos atos oficiais e nas campanhas institucionais do governo, muitas vezes apresentado como articulador junto aos municípios e porta-voz de ações nas áreas de saúde, educação, segurança e assistência social.
Desde 2023, ele ocupa um gabinete dentro do Palácio dos Leões e, segundo seu próprio perfil oficial, tem a função de “ouvir a população” e levar as demandas diretamente ao governador. Em textos críticos publicados por analistas e acadêmicos, essa ascensão foi descrita como parte de um “negócio de família”, em que a pré-candidatura de Orleans à sucessão estadual seria vista como “coroamento de um grande processo de nepotismo” dentro da estrutura de poder de Brandão. Essa visão, entretanto, é contestada por aliados do governador, que afirmam, em reservado, que Orleans construiu capilaridade junto a prefeitos e lideranças locais e que sua presença à frente da secretaria reforça a agenda municipalista do governo.
Um episódio que ganhou repercussão nacional foi o gesto em que o governador, em um palanque em Imperatriz, teria literalmente empurrado o sobrinho para tirar uma foto ao lado do presidente Lula, durante evento oficial. Para observadores, a cena sintetizou o esforço de Brandão em associar a imagem de Orleans ao governo federal e ao próprio presidente, em um contexto em que tanto ele quanto Felipe Camarão disputam o apoio formal de Lula à sucessão de 2026.
Disputa por Lula e cisão na base
Hoje, o principal ponto de tensão no campo governista é a definição de quem será o candidato apoiado pelo presidente Lula no Maranhão. De um lado, Brandão defende abertamente a candidatura do sobrinho e afirma, em bastidores, que essa decisão é “irreversível”, segundo relato atribuído ao vice Felipe Camarão em entrevista recente. Do outro, o grupo ligado ao PT e a Dino tenta consolidar o nome de Camarão como cabeça de chapa, com Orleans no máximo como vice.
Felipe Camarão tem adotado um tom firme ao falar sobre o impasse. Em declaração reproduzida pela imprensa local, ele afirmou: “Eu sou vice-governador do Maranhão e sou candidato a governador no ano que vem. Com ou sem Brandão. A decisão é dele. Se ele quiser renunciar e me apoiar, nós caminharemos juntos. Se ele não quiser, eu enfrento o sobrinho dele no debate político e nas ruas”. A fala expõe o grau de ruptura interna e indica que, se não houver um acordo mediado por Lula, o campo governista pode chegar dividido à eleição.
Por sua vez, o governador tenta preservar a imagem de lealdade ao presidente e de coerência política. Em publicações e pronunciamentos, ele costuma afirmar que mantém parceria com Lula em qualquer circunstância e que seu alinhamento com o governo federal é um compromisso de gestão e de projeto para o estado. Reportagens sobre o tema indicam que o presidente quer resolver o impasse apenas após o carnaval, para não perder a base de apoio de Brandão no interior nem desagradar o PT e o grupo de Dino, que defendem Felipe Camarão.
Cenário eleitoral para 2026
Enquanto o governo tenta se reorganizar internamente, as primeiras pesquisas apontam um quadro competitivo para 2026. Em levantamento registrado no TRE e divulgado em janeiro de 2026, o prefeito de São Luís, Eduardo Braide, aparece como um dos principais nomes da oposição e figura entre os líderes na disputa pelo governo, em cenários que incluem Orleans Brandão e outras lideranças estaduais. Em um cenário estimulado analisado em vídeo de Olavo Sampaio, Orleans surge com cerca de um terço das intenções de voto, em empate técnico com Braide, o que mostra uma disputa acirrada e ainda aberta, com alta taxa de indecisos.
Ao mesmo tempo, o nome de Carlos Brandão se mantém forte em simulações para o Senado, nas quais aparece na liderança com cerca de 20 por cento das intenções, segundo os dados divulgados. Apesar disso, informações recentes indicam que o governador decidiu permanecer no cargo até o fim do mandato, abrindo mão de concorrer ao Senado para concentrar esforços na campanha do sobrinho ao governo. Essa escolha reforça a percepção de que a sucessão estadual se tornou prioridade absoluta para o grupo Brandão.
Análises políticas publicadas em veículos nacionais ressaltam que a presença de Braide, a candidatura em construção de Orleans e a possível entrada de Felipe Camarão criam uma configuração tripolar, capaz de fragmentar o campo governista e fortalecer a oposição se não houver recomposição de alianças. Para alguns observadores, a disputa reproduz, em escala estadual, a tensão entre o pragmatismo de governadores aliados e os projetos próprios do PT e de figuras de projeção nacional, como Dino.
Pontos positivos da estratégia de Brandão
Do ponto de vista dos aliados, a tentativa de lançar Orleans tem alguns pontos considerados favoráveis. Em primeiro lugar, há o argumento da continuidade administrativa, já que o sobrinho acompanha de perto o cotidiano do governo e mantém relação direta com prefeitos e lideranças do interior por meio da secretaria de Assuntos Municipalistas. Essa proximidade é apresentada como garantia de manutenção de programas e investimentos federais que chegaram ao estado nos últimos anos, em articulação com o governo Lula.
Além disso, defensores de Brandão destacam a possibilidade de renovação geracional dentro do grupo político que chegou ao poder em 2014, sem romper completamente com o legado de Flávio Dino. Nessa leitura, Orleans representaria um rosto novo, enquanto o governador poderia, em um segundo momento, buscar espaço nacional, seja em um futuro Senado, seja em funções de articulação com Brasília, mantendo o Maranhão ligado ao centro de decisões.
Outro ponto ressaltado por esse campo é a força da máquina estadual. Com o controle do Executivo até o fim de 2026, Brandão tende a manter influência sobre repasses, programas e obras em todas as regiões do estado, o que, tradicionalmente, tem peso nas disputas para o Palácio dos Leões. Para prefeitos alinhados, a candidatura de Orleans é vista como caminho mais seguro para preservar a parceria institucional firmada na atual gestão.
Riscos e desafios do projeto Orleans
Por outro lado, existem riscos claros apontados por analistas e políticos de dentro e fora do grupo. Em primeiro lugar, a acusação de nepotismo, que vem sendo utilizada por críticos da pré-candidatura para desgastar a imagem do governo. A leitura de que a sucessão teria se tornado um “negócio de família” pode bater de frente com o discurso de renovação e de ruptura com práticas tradicionais da política maranhense, que marcou a ascensão de Dino em 2014.
Em segundo lugar, a divisão na base governista pode abrir espaço para o crescimento de adversários. Se Felipe Camarão mantiver a disposição de concorrer “com ou sem Brandão”, como declarou, e se o PT confirmar candidatura própria, o campo que hoje sustenta o governo corre o risco de ir rachado para a eleição, enquanto a oposição se organiza em torno de nomes como Eduardo Braide. Neste cenário, a capacidade de Lula de arbitrar o conflito e construir uma chapa de consenso será um fator decisivo.
Há ainda o desgaste oriundo do rompimento com o grupo de Flávio Dino. Antes visto como herdeiro político direto do ex-governador, Brandão passou a enfrentar resistência de ex-aliados, inclusive em Brasília, o que pode limitar sua margem de negociação por recursos e apoio político federal. Em análises recentes, especialistas apontam que o novo arranjo fez do Maranhão um campo de disputa não apenas local, mas também entre projetos e correntes dentro da própria base de apoio do governo federal.
Leitura do cenário atual
O quadro, portanto, é de incerteza e disputa intensa. Em síntese, o governador que chegou ao cargo apoiado por uma ampla coligação liderada por Flávio Dino e reforçada pelo palanque de Lula agora tenta usar o poder conquistado para impulsionar um sucessor da própria família, em um contexto de base dividida e oposição fortalecida. O desfecho dependerá de três fatores principais: a posição final do presidente Lula, a capacidade de recomposição entre Brandão e o grupo de Dino e o desempenho de Orleans e de seus adversários nas ruas e nas pesquisas até 2026.
Para quem deseja acompanhar a evolução desse quadro, análises detalhadas sobre o rompimento entre Brandão e o grupo dinista e os possíveis cenários para 2026 podem ser encontradas em colunas especializadas de política, como jota.info, que destrincha o “governador sem partido” e as novas alianças no estado.
O Ludovico.



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