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“Debandada geral” no governo Brandão: saídas de aliados expõem fissuras e azedam o plano Orleans

Trocas na Secap e Secid viram termômetro do desgaste e do descontentamento na base aliada

by admin
Orleans discursando

A saída, enfim oficializada, de Rubens Pereira, o Rubão, da Secretaria de Articulação Política (Secap), e de Robson Paz, da Secretaria de Cidades e Desenvolvimento Urbano (Secid), reabriu uma ferida que o Palácio dos Leões tenta estancar desde outubro. O recado, desta vez, veio com data, assinatura e substitutos nomeados, e o efeito político é direto: a base aliada dá sinais de irritação, o governo perde quadros de um grupo historicamente central e a pré-candidatura de Orleans Brandão, sobrinho do governador Carlos Brandão, entra em 2026 com mais ruído do que tração.

As mudanças foram anunciadas com o padrão “troca técnica”, mas a leitura em Brasília e no Maranhão é política. Segundo o Imirante, Júnior Viana foi nomeado para a Secap, e Alberto Pessoa Bastos passou a responder também pela Secid, após a exoneração de Robson Paz.

O estopim veio em outubro e a conta chegou agora

Em outubro de 2025, Robson Paz já havia pedido para deixar o governo, dizendo que a decisão se dava “pela gravidade das denúncias” relacionadas a gravações clandestinas e ilegais atribuídas a membros e aliados do governo, segundo reportagem do Difusora News.

O episódio, apelidado nos bastidores de “escândalo das mensagens”, escalou quando Rubens Pereira Júnior, deputado federal e filho de Rubão, foi à tribuna e classificou como clandestina uma gravação envolvendo conversas no campo político, segundo o Imirante.

Do outro lado, Brandão negou que o governo tenha gravado e afirmou que “ninguém do meu governo gravou”, em declaração registrada por O Imparcial.

O que parecia “crise de uma semana” virou novela de meses. Tanto que, agora, a exoneração saiu junto com a recomposição do secretariado.

A base aliada range: cargos seguram, mas não resolvem

O ponto central não é só a troca de nomes. É o que ela revela. Parte da base que ajudou a eleger e sustentar a atual gestão cobra mais espaço, mais previsibilidade e, principalmente, mais respeito político. E isso fica mais visível quando até aliados antigos, com história dentro do grupo que governou o Maranhão na última década, preferem desembarcar.

Nesse cenário, cargos e acomodações viram a cola de curto prazo. Só que cola não é cimento. A crítica sobre a expansão de espaços para acomodar aliados aparece até dentro do plenário da Assembleia Legislativa. Em novembro de 2025, o deputado Carlos Lula votou contra uma medida provisória que ampliava cargos, e afirmou que a proposta, que criaria cinco cargos, teria sido transformada em “mais de 120” por decretos, na avaliação dele.

O detalhe político que incomoda não é apenas a máquina crescer. É a suspeita, repetida por adversários e por dissidentes, de que o crescimento não tem como prioridade a governabilidade, mas sim a engenharia de uma sucessão familiar.

Orleans no centro: o sobrenome ajuda e atrapalha

Orleans Brandão ocupa posição de destaque no governo e aparece com frequência como nome lembrado para a sucessão. Ele também entrou no noticiário nacional quando o debate sobre nepotismo cruzado atingiu o Maranhão. Reportagem do Metrópoles citou Orleans como um dos sobrinhos do governador em meio à controvérsia sobre nomeações de parentes em cargos.

Esse dado importa porque alimenta a narrativa que hoje cresce na boca miúda da política: a de que a fila anda diferente para quem carrega o sobrenome Brandão. E aí vem o ponto mais tóxico para qualquer governo em ano pré-eleitoral: quando a percepção vira conversa comum, a defesa vira explicação, e explicação repetida vira desgaste.

Críticos já fazem a ponte direta com o passado. E aqui entra um elemento que, goste-se ou não, tem força no imaginário do Maranhão: a rejeição a qualquer projeto que pareça reciclar “dinastias” no poder.

“Projeto oligárquico”: a acusação pública que virou munição

O PCdoB, que foi parte do grupo que sustentou o poder no Maranhão nos últimos anos, publicou nota denunciando o que chamou de “avanço de projeto oligárquico” e apontando “interesses familiares” no governo.

Esse tipo de afirmação não nasce no vácuo. Ela conversa com a memória política do estado, onde a ideia de oligarquia, e o fantasma de uma nova hegemonia, ainda são gatilhos potentes. É por isso que a frase “o Maranhão não quer uma nova oligarquia” cola fácil: não precisa de manual, basta de um empurrão.

Ao governo, sobra o papel chato, porém necessário, de responder com fatos e números, e com sinais políticos de que a gestão não virou assunto de família.

O aviso do calendário: até abril, a sangria pode aumentar

Há ainda um componente frio, e inevitável, que piora a fotografia do momento: o calendário. Ano eleitoral costuma forçar desincompatibilizações e rearranjos, e isso abre espaço para novas rupturas, inclusive de quem já vinha insatisfeito.

Segundo análise publicada no Imirante, mudanças no secretariado podem continuar, e outros secretários devem deixar o governo na primeira quinzena de março, por conta do ciclo eleitoral.

Traduzindo para o português claro: a lista de desembarques pode não ter terminado. E quando o governo entra em modo “troca-troca”, a oposição agradece, e a base cobra mais caro para ficar.

O fantasma recente: quando o governo quase perdeu o controle na Assembleia

Quem acompanha o xadrez político local lembra que o governo já viveu, recentemente, um susto na Assembleia Legislativa. Em 2024, a disputa interna em torno da presidência da Casa expôs o quanto a base podia ficar dividida e como a margem de controle era estreita, análise registrada em coluna do Imirante.

Esse antecedente volta agora como alerta: quando a base mostra que tem vontade própria, a sucessão vira um teste ainda mais duro. E candidaturas “de dentro” passam a depender menos do desejo do Palácio e mais da paciência de quem está fora dele.

O que está em jogo, no fim, é a sucessão, e o recado é simples

A “debandada geral” ainda não é matemática de maioria. Mas é termômetro. E termômetro não discute, ele aponta “febre”.

Para Orleans, o recado é que pré-candidatura não se sustenta só com estrutura. Precisa de clima, de alianças que parem de ser “por obrigação” e passem a ser “por convicção”. E isso exige uma correção de rota: menos sensação de favoritismo, mais gesto de composição real.

Para Brandão, a escolha é clássica, e ingrata: governar para fechar 2026 com legado, ou governar para eleger um sucessor. Quando a base começa a sair pela porta, é porque a pergunta já está na mesa, e ninguém quer ser o último a perceber.

O Ludovico

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