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Eletromobilidade entre China e Brasil: perspectivas de cooperação e desafios para a transição energética

Eletromobilidade entre China e Brasil: perspectivas de cooperação e desafios para a transição energética

Eletromobilidade entre China e Brasil: perspectivas de cooperação e desafios para a transição energética

Título: Eletromobilidade entre China e Brasil: cooperação e desafios na transição energética

A transição energética global, cada vez mais relacionada à competitividade industrial e ao avanço tecnológico, coloca os veículos elétricos (VEs) em uma posição estratégica. Este artigo analisa a parceria entre China e Brasil no setor de eletromobilidade, investigando se o investimento direto estrangeiro (IDE) chinês pode impulsionar a inovação e a produção industrial no Brasil ou, inversamente, gerar novas formas de dependência nas cadeias de valor.

Desde o início do século XXI, o Brasil se destacou como um destino atraente para o IDE chinês, recebendo investimentos em diversos setores, como petróleo, energia elétrica e agricultura.

No entanto, essa relação é assimétrica: enquanto a China lidera em tecnologias avançadas, o Brasil enfrenta o desafio de diversificar sua economia, ainda fortemente dependente da exportação de commodities.

Embora a China seja um dos principais emissores de poluentes, também está na vanguarda da transição para tecnologias renováveis.

Uma questão central é: até que ponto os investimentos chineses no Brasil podem fortalecer a capacidade de produção e inovação local? Além disso, como o Brasil pode aproveitar esses recursos para avançar em áreas críticas, como baterias e veículos elétricos?

Para maximizar os benefícios do IDE, é essencial estabelecer políticas industriais coerentes.

O Brasil precisa transformar esses investimentos em uma plataforma que desenvolva suas capacidades internas, evitando cair na armadilha da dependência, onde a falta de coordenação entre políticas de inovação pode restringir o país a atividades de montagem e extração de recursos.

O impacto da colaboração na produtividade e inovação depende da solidez das instituições brasileiras. O capital e a tecnologia trazidos pelo IDE chinês não garantirão um desenvolvimento sustentável.

Sem uma estrutura institucional adequada, as empresas podem operar como enclaves voltados para a exportação, contribuindo pouco para a economia local.

A divisão da cadeia de valor dos VEs em três segmentos – upstream, midstream e downstream – fornece uma visão mais clara das oportunidades e desafios.

O segmento upstream envolve a extração e o processamento de insumos críticos, como lítio, cobre e cobalto, essenciais para baterias. A China domina essa fase, respondendo por 60% do refino global dessas matérias-primas.

O Brasil, com suas vastas reservas minerais, ainda não agrega valor de maneira eficaz, necessitando de políticas públicas que promovam o processamento, em vez da simples exportação de commodities.

No segmento midstream, que inclui a montagem e produção de baterias, empresas chinesas estão explorando a verticalização da produção.

Esse movimento pode abrir oportunidades para o Brasil, permitindo o desenvolvimento de capacidades locais e uma rede de fornecedores na montagem e integração de packs de baterias.

Especialmente no segmento midstream, existem oportunidades ainda pouco exploradas para o desenvolvimento de empresas com capacidades locais, tornando-se fornecedoras de produtos qualificados para as montadoras chinesas.

Os investimentos chineses na eletromobilidade oferecem uma oportunidade única para o Brasil. A criação de marcos regulatórios que promovam a capacitação técnica e a geração de valor local é crucial para assegurar uma reindustrialização sustentável.

A relação Brasil-China no setor de veículos elétricos deve ser acompanhada por políticas que incentivem a integração real e o desenvolvimento, evitando que o Brasil se torne apenas uma extensão da produção chinesa.

A participação de empresas chinesas em leilões de armazenamento de energia no Brasil pode, por sua vez, promover sinergias inter-setoriais e aprendizado tecnológico.

O segmento downstream, que engloba a montagem e comercialização de veículos, pode gerar empregos e oportunidades, mas as sinergias são maximizadas quando os investimentos incorporam engenharia e adaptação ao mercado local.

Globalmente, o investimento chinês no segmento downstream é significativo, mas na América Latina ainda se concentra nas atividades upstream, com exceção do Brasil.

A crescente presença de empresas chinesas no Brasil reflete uma reconfiguração das cadeias de valor, impulsionada pela pandemia de COVID-19.

A combinação dos recursos minerais brasileiros com o ecossistema de inovação chinês pode gerar resultados positivos, desde que os investimentos estejam alinhados às estruturas institucionais locais.

O BNDES desempenha um papel fundamental na transição energética e na promoção do ecossistema de mobilidade elétrica no Brasil, atuando como provedor de crédito e política pública.

No entanto, o país enfrenta desafios significativos, como a demanda limitada por veículos elétricos em comparação com os mercados globais.

Além do BNDES, políticas industriais como a iniciativa Mover e a Nova Indústria Brasil (NIB) buscam reduzir emissões no setor automotivo por meio de novas tecnologias.

Apesar das inovações trazidas pela cooperação com a China, desafios econômicos e diferenças nas estruturas de mercado têm dificultado essa parceria.

A implementação de estações de recarga, por exemplo, ainda é limitada, demonstrando a fragilidade da cooperação em inovação de baixo carbono.

A política industrial deve priorizar o chamado “elo intermediário ausente” da cadeia de valor — ferramentas, automação, eletrônica, software industrial, sistemas de qualidade e certificação verde.

Nesses segmentos, os efeitos de encadeamento são significativos e as empresas brasileiras ainda apresentam vulnerabilidades.

O fortalecimento dessas áreas exigirá políticas industriais direcionadas, incluindo o desenvolvimento de parques industriais especializados e coordenação financeira entre os governos federal e subnacionais, em parceria com empresas líderes.

Para que a colaboração entre China e Brasil traga benefícios duradouros, o país deve se posicionar como um agente ativo, utilizando essa interação para fortalecer sua base industrial e tecnológica, fundamentais para sua transição energética e descarbonização.

Ricardo Lopes Kotz é pesquisador no Centro de Energia, Finanças e Desenvolvimento (CEFD). Doutorando em Políticas Públicas e Estudos Internacionais pela City University of Hong Kong, possui dois títulos de mestrado: o primeiro em Política Chinesa (LL.M) pela Renmin University of China e o segundo em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atuou como pesquisador (research fellow) na City University of Hong Kong por quatro anos e publicou trabalhos sobre tecnologia, inovação, energia e as relações China-América Latina.

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