Empresa cobra até R$ 1,2 mil para fornecer artigos e certificados científicos para residência médica
Empresa cobra até R$ 1,2 mil por artigos e certificados científicos para residência médica
Por Beatriz Dragues Ramos – Brasil de Fato
Uma empresa denominada Revista Elevate está vendendo certificados de iniciação científica para estudantes interessados em ingressar na residência médica em diversas especialidades da medicina. O chamado “periódico científico” comercializa esses documentos por valores que variam de R$ 500,00 a R$ 1,2 mil. Segundo informações do site da Revista Elevate, a empresa se dedica à divulgação de produções acadêmicas que contribuem para o avanço do conhecimento em várias áreas das ciências da saúde, humanas e biológicas.
No perfil do Instagram da empresa, que foi suspenso após contato da reportagem, era mencionado o oferecimento de serviços de mentoria científica personalizada, livros, artigos, currículos, capítulos e iniciação científica. Segundo as informações disponíveis no perfil, a fundadora do instituto é Bianca Cajé.
Em um grupo no WhatsApp intitulado “Artigos Científicos”, com cerca de 445 membros, a Elevate também oferece a coautoria em artigos científicos pelo valor de R$ 780,00. Conforme evidências obtidas pela reportagem a partir de capturas de tela do grupo, essas coautorias são em artigos indexados em portais científicos como Scielo, Scopus, Web of Science, Latindex, entre outros.
Em uma mensagem divulgada no grupo do WhatsApp, a Elevate anuncia oportunidades para coautoria em um artigo denominado “Precarização docente e subfinanciamento como fatores críticos na formação médica no Brasil: Revisão de escopo”.
Outra mensagem da Elevate informa sobre a inclusão de coautoria em um capítulo de livro com ISBN nacional, um código numérico de 13 dígitos que identifica publicações monográficas, como livros, apostilas e e-books.
Além disso, em outro comunicado no grupo do WhatsApp, a organização divulga a participação em congresso com certificado de 40 horas, abordando o tema “Impacto do uso excessivo de redes sociais na ansiedade e qualidade do sono em adultos jovens: uma revisão integrativa”, pelo valor de R$ 290,00.
A residência médica é um programa de pós-graduação que capacita especialistas por meio de treinamento intensivo em hospitais e instituições de saúde, com duração geralmente entre dois e seis anos, sob supervisão.
Para ingressar em um programa de residência, é necessário prestar um concurso que engloba prova teórica, análise curricular, e, eventualmente, entrevista e prova prática. Os médicos precisam participar de experiências extracurriculares, como monitorias, pesquisas, congressos e ligas, para enriquecer o currículo e pontuar no processo seletivo.
A reportagem entrou em contato com a Elevate para adquirir um certificado de iniciação científica na área de pediatria. Em poucos minutos, a empresa respondeu: “Basta efetuar o pagamento e fornecer seus dados, emitiremos pelo instituto”.
A Elevate também mencionou a possibilidade de emissão de certificado para pesquisa com bolsa, com valores de R$ 1.000,00 para um ano e R$ 500,00 para seis meses.
O médico recém-formado entrevistado pelo Brasil de Fato relatou ter conhecido a empresa por meio do grupo do WhatsApp. Ele mencionou que a Elevate oferece a emissão de certificados retroativos para iniciação científica, o que o levou a questionar a legitimidade desses documentos.
A Revista Elevate afirmou já ter emitido certificados para alunos de diversas instituições reconhecidas na área da medicina, incluindo a Santa Casa da Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e os hospitais 9 de Julho e Oswaldo Cruz.
A prática de comercialização desses documentos expõe fragilidades na fiscalização das atividades extracurriculares, conforme alertou um médico entrevistado. Ele destacou a importância da iniciação científica, publicação de artigos e cursos extracurriculares na formação de profissionais da saúde e criticou a venda de certificados pela empresa.
Os cursos de medicina foram avaliados pelo Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), revelando que cerca de 30% dos alunos tiveram desempenho insatisfatório e menos de 60% foram considerados proficientes. Diante desse cenário, medidas de supervisão podem ser adotadas em cursos com nota insatisfatória, incluindo a redução de vagas e a suspensão de oferta via Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).
O Enamed, instituído em abril de 2025, avalia a qualidade da formação médica no Brasil e seu desempenho pode ser critério de seleção para o Enare, exame de residência unificado do MEC/Ebserh.
As instituições de saúde e universidades destacaram a importância da veracidade e comprovação das atividades extracurriculares realizadas pelos estudantes, reiterando a necessidade de transparência e integridade acadêmica nos processos seletivos.
A Elevate defendeu-se das acusações, afirmando que não comercializa certificados nem realiza práticas ilegais. Segundo a organização, os valores mencionados referem-se a custos operacionais externos, como taxas de submissão e publicação exigidas por revistas e periódicos, não configurando venda de títulos acadêmicos.
A Elevate não reconheceu a legitimidade das perguntas enviadas pela reportagem e se reservou o direito de tomar medidas judiciais caso haja divulgação de seu nome, dados internos ou prints de conversas. Após o envio da nota, a empresa excluiu a repórter do grupo em que as atividades de vendas eram realizadas e apagou seu perfil do Instagram.


