Na quarta-feira (14), a Polícia Federal deflagrou nova fase da Operação Compliance Zero, ampliando o alcance das investigações. A apuração passou a atingir familiares do controlador Daniel Vorcaro e outros nomes relevantes do mercado financeiro.
Foram cumpridos 42 mandados de busca e apreensão, com bloqueio de bens superior a R$ 5,7 bilhões, por ordem do ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), que tem tido uma postura um tanto ambígua, para dizer o mínimo, sobre o caso em que é relator na alta corte.
O episódio reacendeu um caso que já mobilizava Banco Central, TCU (Tribunal de Contas da União) e Supremo, extrapolando o campo policial.
Crescimento acelerado e modelo arriscado
O Banco Master cresceu rapidamente com base na emissão agressiva de CDBs, oferecendo juros muito acima do mercado — entre 140% e 150% do CDI, conforme explicou o economista José Kobori no ICL Notícias 1ª edição de terça-feira (13).
A estratégia se apoiava fortemente na garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que protege até R$ 250 mil por investidor.
Analistas apontaram que o banco:
- acumulou passivo bilionário;
- lastreou operações em ativos de baixa liquidez, como precatórios e participações em empresas em dificuldade;
- elevou seus custos e fragilizou sua estrutura financeira.
Por que isso importa:
A eventual quebra do banco não afetaria apenas investidores, mas o próprio FGC, um mecanismo privado mantido por instituições financeiras essencial para a confiança no sistema financeiro.
A operação do Master envolve 1,6 milhão de depósitos elegíveis para resgate, totalizando cerca de R$ 41 bilhões, caracterizando um movimento sem precedentes do FGC.
Conforme explicou Kobori, a operação do Banco Master se aproxima de 40% do saldo do FGC, apesar de o banco representar apenas 0,57% dos ativos totais do sistema financeiro.
Tentativas de venda e decisões do Banco Central
Diante da deterioração financeira, Vorcaro buscou vender o banco. O Banco de Brasília (BRB) anunciou a compra, mas o negócio foi vetado pelo Banco Central em setembro passado.
Em novembro, a Fictor Holding anunciou a aquisição do Master, com promessa de aporte de R$ 3 bilhões.
Poucas horas depois:
- Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos;
- o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do banco em novembro de 2025.
Liquidação extrajudicial: o ponto de ruptura
O BC decretou:
- administração especial temporária;
- liquidação extrajudicial do conglomerado.
A medida:
- encerrou as atividades do banco;
- retirou a instituição do sistema financeiro;
- transferiu a gestão para um liquidante.
Segundo o BC, a decisão se baseou:
- na situação econômico-financeira crítica;
- em infrações às normas bancárias.
A liquidação ocorreu logo após o anúncio de venda, levantando questionamentos sobre timing, fundamentos e impactos sistêmicos.
O que a Polícia Federal investiga
Primeira fase
Emissão de R$ 50 bilhões em CDBs sem comprovação de liquidez.
Compra de ativos inexistentes da empresa Tirreno.
Venda desses créditos ao BRB por R$ 12,2 bilhões, sem documentação adequada.
Operações ocorreram enquanto o BRB negociava a compra do próprio Master.
Segunda fase
Suposto esquema de:
captação de recursos;
aplicação em fundos;
desvio para o patrimônio pessoal de Vorcaro.
Alvos incluem:
familiares do controlador;
o empresário Nelson Tanure;
o investidor João Carlos Mansur.
A PF apreendeu: celulares; carros e bens de luxo; e dinheiro em espécie.
Por que o caso saiu da esfera policial
O episódio passou a envolver:
- estabilidade do sistema financeiro;
- autonomia do Banco Central;
- competência de órgãos de controle.
O impacto potencial no FGC é considerado o maior da história:
- 1,6 milhão de investidores;
- R$ 41 bilhões em CDBs;
- cerca de um terço do caixa do fundo comprometido.
O embate institucional: BC x TCU
O TCU determinou inspeção para analisar a liquidação. O relator, ministro Jhonatan de Jesus, levantou dúvidas sobre possível precipitação. A decisão provocou reação imediata do mercado, em defesa da independência do BC.
Após impasse:
a inspeção foi suspensa;
BC e TCU negociaram uma saída técnica;
ficou reafirmada a prerrogativa exclusiva do BC para liquidar bancos.
Sigilo no STF e controvérsias
O inquérito foi transferido para o STF após menção a parlamentar — neste caso, com foro privilegiado, o que joga o caso sob os cuidados da corte.
Toffoli atendeu ao pedido da defesa do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Segundo a defesa de Vorcaro, o caso envolve um contrato imobiliário apreendido pela PF que cita o deputado João Carlos Bacelar (PL-BA), que tem foro especial.
O deputado, por sua vez, disse que participou da criação de um fundo para a construção de um condomínio em Trancoso (BA) e que Vorcaro manifestou interesse em integrar o projeto, mas a transação não foi adiante.
O ministro Dias Toffoli, então:
centralizou as decisões;
decretou sigilo;
alegou risco de impacto no mercado.
Episódios paralelos — como viagens e contratos revelados pela imprensa — ampliaram questionamentos públicos, embora nenhuma ilegalidade tenha sido, de fato, comprovada.
Impacto político e rede de conexões
Investigações indicam pressão política sobre:
- bancos públicos;
- fundos de pensão.
Surgiram ligações de Vorcaro com:
- governadores;
- parlamentares;
- ex-ministros;
- integrantes do Judiciário.
Doações eleitorais e contratos de consultoria reforçaram a percepção de capilaridade política do controlador.
Por que o Master virou um caso emblemático
Não se trata apenas da quebra de um banco médio.
O caso reúne:
- risco sistêmico;
- possível fraude bilionária;
- disputa institucional;
- relações entre mercado, política e Judiciário.
BC liquida a Reag
Nesta quinta-feira (15), o caso Master ganhou novo capítulo. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. A medida foi adotada após a constatação de graves infrações às normas do Sistema Financeiro Nacional (SFN), segundo informou a autoridade monetária.
A decisão representa o desfecho de um processo de supervisão que identificou falhas estruturais na atuação da instituição, especialmente no que diz respeito à gestão de riscos e à conformidade regulatória.
De acordo com informações encaminhadas pelo Banco Central ao Tribunal de Contas da União (TCU), fundos administrados pela Reag Trust estruturaram operações fraudulentas em parceria com o Banco Master entre julho de 2023 e julho de 2024.
O relatório aponta que essas operações estavam em desacordo com normas fundamentais do Sistema Financeiro Nacional (SFN), apresentando deficiências graves nos controles de risco, crédito e liquidez. Para o Banco Central, o conjunto de irregularidades comprometeu a solidez da instituição e justificou a adoção da medida extrema de liquidação.
