Pesquisa realizada em ratos reforça que inibidores da bomba de prótons, amplamente utilizados no tratamento de problemas estomacais, podem afetar absorção de minerais e comprometer a saúde óssea
Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC) alerta que o uso prolongado de inibidores da bomba de prótons (IPBs) pode prejudicar a absorção de nutrientes. A classe de medicamentos, representada por fármacos como omeprazol, pantoprazol e esomeprazol, é utilizada no tratamento de distúrbios gástricos e seu uso inadequado, por períodos superiores aos recomendados por médicos, pode causar deficiências nutricionais, como anemia, além de comprometer a saúde óssea. Os resultados foram publicados na revista ACS Omega.
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A pesquisa, apoiada pela FAPESP, avaliou os efeitos do uso contínuo desse medicamento na absorção de minerais essenciais como ferro, cálcio, zinco, magnésio, cobre e potássio em ratos. Os animais que receberam o medicamento apresentaram alterações na distribuição desses nutrientes pelo organismo. Os pesquisadores observaram que o medicamento altera a distribuição de minerais no corpo, com acúmulo no estômago e desequilíbrios no baço e no fígado. No sangue, observaram aumento de cálcio e queda de ferro, indicando risco de osteoporose e anemia. Também foram detectadas mudanças importantes nas células do sistema imune.
Na pesquisa, ratos adultos foram divididos em diferentes grupos: controle e tratado com omeprazol. Os experimentos tiveram duração de 10, 30 e 60 dias, períodos escolhidos para simular diferentes níveis de uso prolongado do medicamento em humanos.
“O achado mais preocupante foi o aumento significativo de cálcio na corrente sanguínea dos animais, o que pode indicar um desequilíbrio com a retirada do mineral dos ossos e risco futuro de osteoporose. No entanto, são necessários estudos mais longos para confirmar essa hipótese”, afirma Angerson Nogueira do Nascimento, professor da Unifesp que coordenou o estudo em parceria com Fernando Fonseca, da FMABC.
Medicamentos como omeprazol, pantoprazol e esomeprazol atuam inibindo a enzima H+, K+, ATPase. Conhecida como bomba de prótons , ela é responsável pela etapa final da produção de ácido clorídrico no estômago. Ao reduzir a acidez gástrica, esses medicamentos aliviam sintomas de úlceras, gastrite e refluxo, mas também dificultam a absorção de nutrientes que dependem de um meio ácido.
Com mais de 30 anos no mercado, o omeprazol tornou-se amplamente utilizado, muitas vezes de forma prolongada e sem acompanhamento médico. “Não se trata de demonizar o medicamento, que é eficaz para diversas condições gástricas. O problema é o uso banalizado, inclusive para sintomas leves como azia, e por períodos prolongados por meses e até anos. Seus efeitos adversos não devem ser negligenciados”, alerta Andréa Santana de Brito, pesquisadora da Unifesp. O estudo foi objeto de sua pesquisa de mestrado.
Ela ressalta que a situação pode se agravar com a nova portaria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que liberou, em novembro de 2025, a venda de omeprazol 20 mg sem prescrição médica. “Essa facilidade pode estimular a automedicação e o uso contínuo, desrespeitando a recomendação de limitar o tratamento a 14 dias”, alerta.
A posição da Anvisa
De acordo com a Anvisa, a inclusão do omeprazol 20 mg como medicamento isento de prescrição (MIP) representa “um avanço na racionalização do seu uso e na promoção do uso seguro e responsável”.
“Ao limitar o tratamento a, no máximo, 14 dias, é reforçada a mensagem de que o medicamento deve ser utilizado apenas para o alívio de sintomas leves e temporários, estimulando o paciente a buscar avaliação médica em casos de persistência ou recorrência dos sintomas”, informou a Anvisa em nota à redação da Agência FAPESP. “As orientações claras na bula e no rótulo – como o tempo de uso, sinais de alerta e possíveis interações medicamentosas – auxiliam o consumidor na tomada de decisão consciente.”
A Anvisa esclarece, ainda, que as embalagens que possuam número de cápsulas que extrapolem um tratamento de até 14 dias não poderão ser comercializadas sem receita médica.
Pesquisa com outras moléculas
A investigação foi realizada com omeprazol, mas a pesquisadora destaca que moléculas mais modernas da mesma classe de medicamentos, como pantoprazol e esomeprazol, atuam pelo mesmo mecanismo. “Nesses casos, o efeito pode ser ainda mais intenso, já que essas moléculas têm ação mais potente e duradoura. Algumas levam mais de cinco dias para permitir a formação de novas bombas de prótons, enquanto o omeprazol leva cerca de um a três dias, o que pode intensificar os efeitos colaterais”, explica.
Segundo os pesquisadores, os impactos dos IBPs na absorção de nutrientes já eram conhecidos, mas o estudo amplia esse entendimento ao incluir magnésio e zinco nas análises. “Reforçamos a importância do uso racional desses medicamentos e, inclusive, de avaliar a necessidade de suplementação em alguns casos. Entretanto, é preciso ter um acompanhamento médico para avaliar cada caso individualmente”, afirma Nogueira.
O artigo Evaluation of the long-term administration of proton pump inhibitors (PPIs) in the mineral nutrient’s bioavailability pode ser lido em: pubs.acs.org/doi/10.1021/acsomega.5c07700.
