Flávio Bolsonaro atuou por regra que favorecia setor onde Master investia
Flávio Bolsonaro defendeu dispositivo que beneficia setor onde Master investia
Por Cleber Lourenço
Durante seu mandato como senador, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atuou em diversas fases da tramitação da nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental para apoiar uma cláusula que reduz a responsabilidade dos bancos em casos de danos ambientais causados por projetos financiados.
O artigo 58 da Lei nº 15.190/2025, objeto de disputa atualmente no Supremo Tribunal Federal (STF) após questionamento feito pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e pelo PSOL com apoio do Observatório do Clima e outras organizações, estabelece que as instituições financeiras que concedem crédito para atividades sujeitas a licenciamento ambiental, como mineração e infraestrutura, não serão responsabilizadas se tiverem exigido a licença no momento da contratação.
No período em que a proposta avançava no Congresso, o Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, mantinha operações em setores diretamente ligados ao licenciamento ambiental, como mineração, minerais críticos e créditos de carbono.
Embora não haja evidências de que a atuação de Flávio Bolsonaro tenha sido para favorecer Daniel Vorcaro ou o Banco Master, a Polícia Federal identificou que Vorcaro teria influenciado a apresentação de emendas parlamentares, como na articulação com o senador Ciro Nogueira (PP-PI) em proposta relacionada à ampliação da cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Uma linha de investigação relacionada ao caso Dark Horse examina a possibilidade de atos parlamentares de Flávio Bolsonaro terem relação com repasses atribuídos ao controlador do Banco Master para supostamente financiar um filme inspirado em Jair Bolsonaro, mas a PF não encontrou indícios de contrapartida ou irregularidade.
Impacto do artigo 58
O artigo 58 da Lei Geral do Licenciamento Ambiental é o cerne da controvérsia.
Ele determina que instituições financeiras supervisionadas pelo Banco Central devem exigir a licença ambiental antes de financiar projetos sujeitos a essa fiscalização, não tendo a obrigação de monitorar continuamente a regularidade ambiental do empreendimento após isso.
Essa mudança afeta uma construção jurídica consolidada no Brasil, que atribui ao poder público e à sociedade a responsabilidade de proteção ambiental. A especialista Monique Rocha Salerno Lisboa destaca que o artigo 58 altera significativamente a lógica de responsabilização no setor financeiro.
Segundo Monique, a apresentação da licença passa a ser suficiente para reduzir a responsabilidade do financiador, deslocando o eixo da responsabilidade para uma responsabilização mais limitada.
O advogado especializado em meio ambiente, Fernando Persechini, explica que a nova regra torna mais difícil responsabilizar os bancos por danos ambientais, pois exige a comprovação do nexo direto entre a atuação do banco e o dano efetivo.
O veto do presidente Lula ao artigo foi derrubado pelo Congresso, levando a questão ao STF.
A atuação de Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro participou ativamente de todas as etapas de tramitação do dispositivo.
Ele votou a favor da Lei Geral do Licenciamento Ambiental, que incluía o artigo 58, e posteriormente apresentou uma emenda durante a tramitação da Medida Provisória nº 1.308/2025. Flávio votou pela derrubada do veto ao artigo 58 em novembro de 2025, permitindo sua incorporação definitiva ao texto legal.
Mesmo com a liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025, a regra aprovada tem alcance geral e afeta todo o sistema financeiro.
Persechini destaca que a medida reflete um interesse mais amplo do setor financeiro e do agronegócio.
O Banco Master e os setores afetados
O Banco Master estava envolvido em áreas impactadas diretamente pela regra, como mineração, infraestrutura e créditos de carbono. Projetos nesses setores dependem de licenciamento ambiental e envolvem riscos de responsabilização por danos.
A nova regra reduz o risco jurídico dos bancos que financiam esses projetos ao limitar sua responsabilidade à verificação inicial da licença.
Relatórios da Folha de S.Paulo apontaram que familiares de Daniel Vorcaro estavam ligados a projetos investigados por possível inflação de fundos associados ao Banco Master e à Reag, além de investigações no Tribunal de Contas da União.
A sequência de eventos
A cronologia dos acontecimentos aumenta o interesse público sobre o assunto.
Flávio Bolsonaro teria conhecido Daniel Vorcaro em dezembro de 2024 no caso Dark Horse, em que o banqueiro teria repassado recursos para um projeto audiovisual. Em abril de 2025, um escritório ligado a Flávio emitiu notas fiscais para empresas associadas a Vorcaro, conforme noticiado pelo Metrópoles. O senador votou a favor da lei, apresentou emendas e votou pela derrubada do veto ao artigo 58.
A Polícia Federal investiga possíveis tentativas de influenciar emendas parlamentares relacionadas ao sistema financeiro, incluindo o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
A assessoria de Flávio Bolsonaro foi contactada, mas não houve resposta até o momento da publicação.


