França: vitória da esquerda nas eleições municipais mostra caminho para derrotar extrema direita
França: esquerda vence eleições municipais e aponta alternativa contra extremismo
A França realizou eleições municipais no último domingo (22), trazendo um resultado surpreendente para a esquerda radical. Além de manter grandes cidades como Paris, Marselha e Lyon sob controle de forças de centro-esquerda, o destaque foi a vitória de candidatos provenientes da imigração, negros, árabes e muçulmanos, nas periferias. Muitos deles apresentaram propostas que incluem serviços públicos, transporte gratuito e combate ao racismo.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a vereadora eleita em Saint-Denis, a brasileira Silvia Capanema, do movimento França Insubmissa (La France Insoumise, LFI), analisa os resultados das eleições, o cenário para as eleições presidenciais de 2027, o legado de Emmanuel Macron e os desafios de seu mandato no departamento mais pobre da França.
Capanema destaca o feito mais impactante das eleições municipais. “A esquerda tradicional manteve Paris, Marselha e Lyon, as três maiores cidades. No entanto, o mais interessante foi a vitória de uma esquerda radical nas periferias, elegendo figuras de origem imigrante, africana e árabe, muçulmanos. Essa nova categoria social, proveniente das classes populares, agora assumirá a representatividade nas periferias.”
Ela ressalta as plataformas dessas novas administrações. “São governos com propostas democráticas de distribuição de recursos, que irão defender moradia social, redução de preços, transporte gratuito e cantina gratuita nas escolas. Para mim, isso é mais significativo do que a vitória da esquerda tradicional.”
Essas vitórias, segundo ela, representam um desafio direto à extrema direita. “É uma forma clara de combater as ideias nocivas, falsas e enganosas da extrema direita, promovendo uma visão positiva e inclusiva da imigração.”
O perigo da extrema direita e a aposta em Mélenchon
Sobre as eleições presidenciais de 2027, nas quais Emmanuel Macron não poderá concorrer, Capanema reconhece o risco, mas relativiza as pesquisas que apontam Jordan Bardella (Reunião Nacional) como favorito. “Pesquisa não é eleição. Bardella não é visto em lugar algum, não se pronuncia, não tem presença. Nós temos Jean-Luc Mélenchon, que quase chegou ao segundo turno nas duas últimas eleições. Provavelmente ele será nosso candidato.”
A vereadora lembra que a esquerda já derrotou a extrema direita antes. “Ganhamos as eleições parlamentares de 2024. Todas as pesquisas indicavam que perderíamos, mas a Nova Frente Popular venceu, diminuindo a força da extrema direita. Faremos isso novamente.”
Ela descreve o programa da esquerda radical. “É um programa de direitos sociais, que melhora a renda das pessoas, restabelece os serviços públicos, opõe-se à guerra e às ocupações colonialistas, propõe uma diplomacia independente, próxima da ideia de multipolaridade do governo Lula, e promove uma transformação ecológica profunda, mais do que uma simples transição.”
Capanema critica severamente o mandato de Emmanuel Macron. “Foi muito ruim. Ele desaparecerá sem deixar legado. Cumpriu seu papel ao favorecer os setores econômicos privilegiados e os multimilionários com isenções fiscais. Vindo do setor bancário e do neoliberalismo, o balanço de seu governo é extremamente negativo.”
Ela também aponta falhas na política externa de Macron, especialmente no contexto da guerra no Oriente Médio. “Deveria utilizar o poder diplomático da França para promover negociações de paz. Em relação à Palestina, limita-se a um reconhecimento simbólico do Estado. A diplomacia francesa não está sendo efetivamente empregada, servindo às decisões da União Europeia e a um alinhamento com os Estados Unidos.”
Capanema denuncia ainda o aumento da militarização na França e na Europa. “Os orçamentos para educação e saúde estão sendo reduzidos, enquanto os serviços públicos pioram. O único orçamento em crescimento é o da defesa, para adquirir armamentos que Trump deseja vender para a Europa. A política de Macron endossa esse absurdo e retira da França todo o potencial diplomático que poderia ter.”
Mandato em Saint-Denis: serviços públicos e combate ao racismo
Sobre seu mandato em Saint-Denis, o departamento mais carente da França continental, Capanema destaca as prioridades. “Nosso prefeito é negro, filho de pais do Mali, muçulmano. Ele representará muito bem a luta contra o racismo e a busca pela igualdade republicana.”
Ela contrasta com a gestão anterior, do Partido Socialista, que adotou uma política “neoliberal e ultrassecuritária”. “O prefeito anterior focava em aumentar a segurança de forma exagerada, armando a polícia. Nossa abordagem é diferente. A principal preocupação dos franceses não é a segurança, mas sim a renda: como pagar moradia, transporte e educação.”
As prioridades da nova gestão são claras. “Vamos priorizar políticas voltadas para a juventude, com transporte gratuito para os jovens, serviços escolares gratuitos e ampliação da cobertura de saúde. Nossa plataforma visa fortalecer os serviços públicos, especialmente para a juventude. O prefeito anterior fechou centros de juventude; nós vamos reabri-los.”
Para ouvir e assistir
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