O trecho da Ferrovia Transnordestina que vai para o Porto de Pecém deve ser concluído em 2027. Foto: TLSA/Divulgação
O setor gesseiro de Pernambuco começa a se articular para escoar a sua produção pelo trecho cearense da Ferrovia Transnordestina, que deve chegar ao Porto de Pecém, na Grande Fortaleza, em 2027. “O início da operação da Transnordestina, no Ceará, vai ajudar o setor a chegar em mais mercados, abrindo um mundo novo de oportunidades para o polo do Araripe”, resume o presidente do Sindicato da Indústria do Gesso de Pernambuco (Sindusgesso-PE), Jorbeth Granja.
Antiga reivindicação do setor gesseiro, a Ferrovia Transnordestina é fundamental para a expansão do setor, segundo três empresários entrevistados nesta matéria. O polo se concentra na região do Sertão do Araripe e está perdendo espaço para a gipsita/gesso produzidos na Espanha e até no Maranhão. “Hoje, o Sul e Sudeste do Brasil importam a gipsita da Espanha, que sai mais barata do que a do Araripe por causa do transporte”, resume Jorbeth.
Segundo ele, ainda não é público quais empresas estão conversando com a TLSA para escoar a produção por Pecém, mas toda a indústria gesseira, de maneira geral, vai ter interesse em transportar o minério pelo trem. “A tendência é a produção de gipsita crescer com a ferrovia. É muito importante para o setor que precisa de um transporte mais barato e eficiente “, comenta Jorbeth, acrescentando que isso ainda é “uma expectativa futura”.
O sócio da SM Gesso, Fábio Monteiro, diz que o ramal ferroviário que chegar primeiro à região, vai receber a carga do polo. “Vai ser muito bom o gesso chegar a Fortaleza de trem. A expectativa é de que fique até 40% mais barato do que o frete rodoviário”, comenta o empresário, acrescentando que também é importante o ramal ferroviário pernambucano – o trecho Salgueiro-Suape – sair do papel, “porque seria mais uma opção de transporte” para o Araripe. A SM Gesso fica na cidade de Trindade.
As obras da Transnordestina
A Ferrovia Transnordestina está em obras desde 2006. A ferrovia começa em Eliseu Martins, no Sul do Piauí, passa por várias cidades até chegar em Salgueiro, Sertão Central de Pernambuco, onde começa uma grande reta que vai até o Porto de Pecém. No projeto original, tinha um trecho ligando Salgueiro ao Porto de Suape, em Pernambuco, que foi retirado do projeto pela empresa Transnordestina Logística S.A.( TLSA ), que está à frente da construção do empreendimento.
Membro da Academia Nacional de Engenharia, o especialista em transporte Maurício Pina lamentou a carga pernambucana do gesso estar indo para o Ceará. “Do ponto de vista da economia, independente de ser uma carga pernambucana, seria mais vantajoso essa carga ir para o Porto de Suape – que está 80 km mais próximo do Araripe do que o Porto de Pecém”, resume.
O especialista lembra também que mesmo sendo mais curto o trecho Salgueiro-Suape da Transnordestina pode ter um percurso mais caro, se for implantado como está no projeto, que prevê o uso de helper – uma terceira locomotiva que vai puxar o trem por 88 km por causa de um declive maior no traçado pernambucano. O trecho cearense não precisa de helpers. “Depois que a carga do gesso for para o Ceará, vai ser difícil voltar pra ferrovia pernambucana. Os contratos com a empresa do Ceará devem ser por um prazo longo”, explica Maurício.
O trecho pernambucano da Transnordestina está com as obras paralisadas desde 2016. A abertura das propostas da licitação para a retomada das obras vai ocorrer em janeiro e prevê somente a implantação da infraestrutura – que inclui a terraplenagem, drenagem e obras de artes especiais – num trecho de 73km entre Custódia e Arcoverde. Dos 544km do trecho pernambucano, somente 179 km foram finalizados. É uma obra que não tem data para a sua conclusão.
O polo gesseiro do Araripe tem o potencial de escoar 1 milhão de toneladas por ano. Foto: Sindusgesso/Divulgação
Potencial de carga do gesso para a Transnordestina
Na quarta-feira (17), o presidente da TLSA, Tufi Daher Filho, afirmou, numa entrevista exclusiva ao Movimento Econômico, estar conversando com empresas do polo gesseiro e que vai fazer um teste com o calcário agrícola – fabricado a partir da gipsita – , levando o produto da cidade de Trindade, no polo do Araripe, até o Sul do Piauí, em janeiro de 2026.
Segundo Tufi, no plano de negócios da TLSA, foi colocado que há um potencial para transportar 1 milhão de toneladas de carga de gipsita/gesso por ano. Na mesma entrevista, Tufi afirma que a empresa vai implantar um entreposto comercial da Ferrovia Transnordestina – do trecho Eliseu Martins (PI)-Pecém (CE)- na cidade de Salgueiro.
“O impacto desse entreposto será gigante. Não há lugar melhor para um entreposto da Transnordestina do que Salgueiro. Este sempre foi o nosso objetivo”, argumenta o prefeito de Salgueiro, Fábio Lisandro (PSB). A cidade “se prepara” para receber um entreposto da ferrovia há mais de duas décadas. “Soubemos pela matéria dessa intenção da TLSA, vamos entrar em contato com a empresa”, diz Fábio.
A TLSA tem um terreno cortado pela ferrovia em Salgueiro, onde funcionou a fábrica de dormente da empresa. Esta área poderia ser usada para implementar o entreposto comercial. “Tem um estudo do Sindicato dos Petroleiros mostrando que Salgueiro seria o melhor ponto para uma central de combustíveis a ser abastecida pela ferrovia. Esta também seria uma maneira da distribuidora Vibra – que foi da Petrobras – aumentar a sua participação de mercado no Matopiba”, comenta Fábio.
O Matopiba é uma fronteira agrícola instalada na região formada pelo Sul do Piauí, Sul do Maranhão, Oeste baiano e parte do Tocantins. A transnordestina cearense levaria o combustível ao Sul do Piauí e, a partir disso, o combustível seria distribuído por caminhão.
Segundo o presidente da Agência do Desenvolvimento Econômico e Social do Araripe (Adesa), Daniel Torres Araripe, o entreposto da ferrovia em Salgueiro é natural por estar geograficamente no entroncamento entre a ferrovia que vem do Piauí, vai para o Ceará e a proximidade com as BRs 232 e 116, “que sobe para o Ceará e desce para a Bahia”. Ele diz que o impacto será significativo na região.
Daniel defende também um entreposto, no Araripe, da ferrovia que vai para o Pecém. “O Araripe tem gesso, calcário, uma fronteira agrícola na divisa do Ceará com Pernambuco, uma fábrica de cimento que pode ser retomada com a ferrovia. Poderia embarcar o gesso e trazer, como carga de retorno, o fertilizante para a região do Matopiba”, argumenta o executivo.
“O trecho Salgueiro-Suape vai levar 10 anos para se concretizar. O Araripe não pode esperar 10 anos. Os empresários do setor vão pegar o que já tem a disposição que é o trem que vai chegar a Pecém”, comentou Daniel. “Quando o trecho pernambucano da Transnordestina for concluído, será outra realidade”, finaliza.
Fonte: Ângela Fernanda Belfort
