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Justiça determina que governo reinclua JBS Aves na lista suja do trabalho escravo

Justiça determina que governo reinclua JBS Aves na lista suja do trabalho escravo

Justiça determina que governo reinclua JBS Aves na lista suja do trabalho escravo

A Justiça do Trabalho determinou, nesta terça (2), que o governo federal inclua a JBS Aves e a Santa Colomba Agropecuária S.A. na lista suja do trabalho escravo. A informação é da Repórter Brasil.

As empresas ficaram de fora da relação por decisão do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, contrariando a indicação do relatório técnico sobre o caso, elaborado pela auditoria fiscal do trabalho.

A decisão publicada nesta terça, assinada pela juíza Katarina Roberta Mousinho de Matos, da 11ª Vara do Trabalho de Brasília, atendeu a pedido do Ministério Público do Trabalho (MPT), ordenando que a União reinsira a JBS Aves, a Santa Colomba Agropecuária S.A. e a Associação Comunitária de Produção e Comercialização do Sisal (Apaeb) na lista suja em até cinco dias, sob pena de multa diária de R$ 20 mil. A Apaeb já estava na lista e seria retirada pela decisão de Marinho.

Também foram expedidos ofícios ao Ministério Público Federal, ao Tribunal de Contas da União e à Controladoria-Geral da União para apuração de eventuais responsabilidades, como improbidade administrativa, crime de desobediência e desvio de finalidade no exercício do poder de avocação por parte do ministro.

Os casos são de 2023, no caso da Santa Colomba e de 2024, no caso da JBS Aves. Em inspeção realizada em dezembro daquele ano, os fiscais do trabalho encontraram dez trabalhadores submetidos a jornadas exaustivas e sem intervalo para alimentação, entre outras violações de direitos, em uma granja no Rio Grande do Sul.

Apesar do flagrante, Marinho avocou para si a decisão final sobre a inserção da JBS Aves no documento público, impedindo a publicação do nome da empresa no cadastro. Dias depois, o ministro substituto do Trabalho e Emprego (MTE), Luiz Francisco Macena da Silva, tomou a mesma medida, desta vez com relação à Santa Colomba Agropecuária S.A., responsável por violações de direitos de um trabalhador rural.

Em outubro de 2023, o homem foi algemado, agredido e trancado em um quartinho na fazenda Karitel, sob responsabilidade da empresa Santa Colomba, no município de Cocos, no sudoeste da Bahia, onde realizava a colheita de tabaco. Auditores fiscais que acompanharam a denúncia elaboraram um relatório de fiscalização e classificaram o caso como trabalho análogo à escravidão.

“Acreditamos que a avocação feita no processo da JBS se transformou em um precedente de interferência na fiscalização”, avaliou Liane Durão, ex-coordenadora do combate ao trabalho escravo na Bahia, em entrevista ao Brasil de Fato sobre o caso, publicada em outubro de 2025.

“E o mais grave é que a avocação não analisa o fato em si, ignora a lei, os normativos do MTE e os fatos descritos minuciosamente em relatório de fiscalização”, disse Durão.

O caso JBS

De acordo com informações do relatório de fiscalização, os trabalhadores tinham jornadas de até 16 horas diárias de trabalho e comiam frango descartado por estar fora do padrão exigido pela JBS. Alguns deles chegaram a buscar atendimento médico com sintomas de esgotamento físico.

Os dez trabalhadores foram contratados pela MRJ Prestadora de Serviços, terceirizada da JBS Aves. No entanto, o MTE classificou a unidade da JBS Passo Fundo (RS) como a “principal responsável” pelas infrações que caracterizaram o emprego de mão de obra escrava, já que era ela quem estabelecia os locais, cronogramas e horários da apanha do frango em suas granjas fornecedoras.

Após a decisão do ministro, ao menos nove auditores fiscais do MTE deixaram cargos de coordenação regional de combate ao trabalho escravo em todo o país. A renúncia coletiva foi um protesto contra a medida do titular da pasta.

Outro lado

Em nota enviada à Repórter Brasil, a JBS afirmou que a Seara, empresa do grupo, “imediatamente encerrou o contrato e bloqueou o prestador assim que tomou conhecimento das denúncias”. A empresa informa que contratou uma auditoria externa para checagem da documentação dos trabalhadores de empresas terceiras, além de intensificar a auditoria interna, com análise e verificação diária de todas as condições da prestação de serviços de apanha realizada por terceiros.

Também disse que tem tolerância zero com violações de práticas trabalhistas e de direitos humanos. E que todos os fornecedores estão submetidos ao Código de Conduta de Parceiros e à Política Global de Direitos Humanos, que veda explicitamente qualquer prática de trabalho como as descritas na denúncia.

A Santa Colomba Agropecuária afirmou que não irá se pronunciar. A empresa pediu para que seja mencionada manifestação anterior sobre o caso. Nela, defende que decisões tomadas pelo MPT e pela Justiça do Trabalho, bem como as conclusões das investigações da Polícia Civil, comprovam que o caso não diz respeito a práticas de trabalho análogo à escravidão.

O advogado da Apaeb, Roberto de Figueiredo Caldas, afirmou que “recebeu com preocupação a notícia da liminar em processo em que não é parte, em que não teve oportunidade de tomar conhecimento, de expor suas razões e apresentar documentos”. Também disse que confia na Justiça e que ficará demonstrado, no caso da associação, que a decisão do ministro do Trabalho foi acertada.

“A fiscalização do MTE, que tão importantes trabalhos tem prestado à nação, errou gravemente em nosso caso. Ela não investigou a responsabilidade real do dono da fazenda e arrendatário, responsável pelo local e condições laborais”, afirma. O advogado diz que a Apaeb nem conhecia os trabalhadores e está a 130 km da fazenda. “A decisão do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, afinal tenta salvar uma associação comunitária de 45 anos de excelentes serviços prestados contra o trabalho escravo e degradante, não ao contrário”, diz.

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