Lula critica uso da força por nações ricas para invadir outros países
No discurso proferido neste sábado (21) durante a 10ª Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e do I Fórum Celac-África, em Bogotá, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou as crescentes ameaças à soberania da América Latina e do Caribe, bem como a retomada da postura colonialista por parte dos Estados Unidos (EUA).
“Não é admissível que alguém se julgue dono de outras nações. O que estão fazendo com Cuba agora? E o que fizeram com a Venezuela? Isso é democrático?”
O ex-presidente questionou em que parte da Carta da Organização das Nações Unidas (ONU) está previsto que um líder de um país possa invadir outro. “Em que documento do mundo isso está escrito? Nem mesmo na Bíblia. Não há nada que justifique tal ação. Estão utilizando a força e o poder para nos colonizar novamente?”, indagou.
Lula mencionou o caso da Bolívia como exemplo, país que enfrenta pressões dos EUA para a comercialização de minerais críticos, como o lítio, fundamentais para a transição a uma matriz energética baseada em fontes renováveis.
O ex-presidente lembrou o passado de países da América Latina, Caribe e África, que foram vítimas do regime colonial que saqueou suas riquezas. “Aqui, neste recinto, todos têm a experiência de terem suas nações saqueadas de todo ouro, prata, diamante e minério que possuíam”, afirmou.
“Praticamente tudo foi levado da Bolívia. Agora, que a Bolívia dispõe de minerais críticos, é a oportunidade para o país, África e América Latina não se contentarem em ser meros exportadores de minerais para outros”, acrescentou.
O ex-presidente destacou a importância de usar esses materiais para impulsionar o desenvolvimento tecnológico dos países africanos e latino-americanos, visando dar um salto de qualidade na produção de combustíveis alternativos.
“Aqueles que desejarem se estabelecer e produzir no país, para que tenhamos a oportunidade de desenvolvê-lo, nós já fomos colonizados, lutamos pela independência, conquistamos a democracia, perdemos a democracia e agora estão tentando nos colonizar novamente”, defendeu.
Para ele, é fundamental levantar a voz para não permitir que isso ocorra em outros países, como recentemente em Gaza, por exemplo.
O ex-presidente voltou a criticar a falta de ação do Conselho de Segurança da ONU na prevenção da proliferação de conflitos ao redor do mundo. Ele mencionou os ataques dos EUA e Israel ao Irã, o genocídio em Gaza, os conflitos na Líbia e as guerras no Iraque e Ucrânia.
“O que estamos presenciando no mundo é a completa ausência de funcionamento das Nações Unidas. O Conselho de Segurança da ONU e seus membros permanentes foram criados para manter a paz. E são eles que estão promovendo as guerras”, afirmou.
Lula defendeu uma postura ativa para impedir que as nações mais poderosas se sintam donas das mais vulneráveis. “Quando a ONU convocará uma reunião extraordinária para decidirmos qual é o papel dos membros do Conselho de Segurança? Por que não renovar? Por que não incluir mais países representando o Conselho de Segurança da ONU?”, questionou.
O ex-presidente também criticou o aumento dos investimentos em armamentos em contraste com os recursos destinados ao combate à fome.
“É crucial não perder de vista que, enquanto foram gastos US$ 2,7 trilhões no último ano em armas e guerras, ainda temos 630 milhões de pessoas passando fome. Ainda existem milhões de indivíduos sem acesso à energia elétrica. E ainda há milhões de pessoas sem acesso à educação, além de milhões de mulheres e crianças vítimas dessas guerras fratricidas, abandonadas sem documentos, residência e sequer uma pátria para chamar de sua”, lamentou.
Além de Lula, participam da cúpula da Celac o presidente colombiano, Gustavo Petro, o uruguaio Yamandú Orsi e o primeiro-ministro de São Vicente e Granadinas, Ralph Gonsalves. Vinte chanceleres também estão presentes.
Ao abordar a cooperação entre os países africanos, da América Latina e do Caribe, o ex-presidente ressaltou que o multilateralismo oferece oportunidades de cooperação, investimento e comércio.
“Ainda sofremos as consequências de uma ordem injusta, estabelecida quando o colonialismo e o apartheid predominavam em diversas partes do mundo. Não faz sentido que a América Latina e a África não sejam devidamente representadas no Conselho de Segurança da ONU”, afirmou. “Precisamos manter o Atlântico Sul livre de disputas geopolíticas alheias”.
Juntos, os 55 países da União Africana e os 33 países da Celac somam aproximadamente 2,2 bilhões de habitantes. Lula enfatizou a necessidade de intensificar os esforços no combate à fome, enfrentamento das mudanças climáticas, preservação do meio ambiente, transição energética, inteligência artificial, entre outros desafios, considerando-os como a verdadeira batalha a ser vencida.
“Essa é a luta que devemos travar para erradicar a fome na África, na América Latina, para eliminar o analfabetismo, acabar com a escassez de energia elétrica”, declarou.


