Manifestações de rua não dão em nada?
Publicado também na revista Inteligência Democrática
Muitos criticam que, apesar de todas as enérgicas manifestações de rua que têm ocorrido no Irã, o regime não é derrubado. Na verdade, não cai e não cairá, especialmente se o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica (IRGC) não for dissolvido, mas esse não é o foco deste texto.
Assim como o regime permanece no Irã, na Venezuela a situação é semelhante: nem mesmo com os grandes protestos de 2014, nem com as eleições em que a oposição ganhou por ampla margem de votos – porém foi fraudada pela ditadura que ainda está no poder – apesar da intervenção armada de Trump que capturou Maduro e colocou Delcy Rodriguez em seu lugar, mais ideológica e mais alinhada do que o atual líder preso nos EUA aguardando julgamento.
Temos também os casos recentes das grandes manifestações em Israel contra o governo Netanyahu – que continua no comando. E, por fim, a Geórgia, que está tendo um recorde de participação popular nas ruas (como mostrado na foto deste artigo), diariamente, por mais de 400 dias (para ser preciso, desde abril de 2024 e sem interrupções) – e o governo Kobakhidze permanece.
Movimentos de rua, mesmo os mais massivos, geralmente não conseguem tomar o poder de regimes autocráticos. Para isso, é necessário derrubar o governo. E nenhum governo é deposto se não houver uma força para fazê-lo. Somente uma força organizada (e frequentemente armada) pode realizar essa tarefa. A menos que o regime esteja se desintegrando por questões internas (conflitos em suas forças de apoio) ou externas (por exemplo, invasão ou ameaça de invasão por uma força estrangeira superior).
Isso não significa que as manifestações da sociedade sejam inúteis. Elas podem provocar mudanças sutis nos comportamentos sociais, mesmo que esses efeitos demorem a se manifestar, às vezes, muitos anos após os protestos. Entretanto, a mudança social é mais do que uma simples substituição de governantes, o que geralmente não altera a estrutura de poder e a forma como o governo é exercido. Por isso, muitos Estados que se dizem pós-revolucionários acabam mantendo as mesmas hierarquias, agora com novas lideranças. A maioria dessas revoluções não resulta em mais democracia e, muitas vezes, acabam estabelecendo regimes autocráticos, com aparatos policiais ainda mais repressivos do que os anteriores. Sai a Okhrana (do czar), entra a Tcheka (de Lênin) – a repressão continua firme e forte.
A maior manifestação de rua deste século aconteceu no Egito, em 30 de junho de 2013 (que resultou na queda do líder eleito da Irmandade Muçulmana, Mohamed Morsi, que buscava submeter a Constituição do Egito à sharia). Após essa manifestação, o poder foi assumido pelas forças armadas egípcias, lideradas pelo general Khalil el-Sisi, pois estavam organizadas, armadas e eram a única instituição nacional capaz de fazê-lo. Isso não significa que as manifestações de junho de 2013 não tenham importância. Desde então, a sociedade egípcia nunca mais foi a mesma, e profundas mudanças ainda estão em andamento, alterando aspectos invisíveis da estrutura social.
Diversas mudanças profundas (e em grande parte subterrâneas) que estão ocorrendo na sociedade, com impactos inevitáveis na esfera política, começaram a surgir na primeira década deste século, com o surgimento de fenômenos interativos – manifestações civis – como o 11M (uma notável manifestação em várias cidades espanholas em resposta à tentativa do governo de Aznar de falsificar a autoria dos atentados da Al Qaeda em março de 2004 em Madri, atribuindo-os falsamente ao separatismo basco). Nos anos seguintes, movimentos semelhantes começaram a emergir, muitas vezes originados de maneira espontânea na sociedade, diferindo dos padrões tradicionais de mobilizações organizadas centralizadamente por lideranças políticas e sindicais.
Em 2011, esses movimentos eclodiram na chamada “primavera árabe”, começando em 14 de janeiro na Tunísia, passando pelo Iêmen em 2 de fevereiro, pelo Egito em 11 de fevereiro (data crucial para a queda do ditador Mubarak), pelo Bahrein em 14 de fevereiro, pela Líbia em 17 de fevereiro, por Marrocos em 9 de março e pela Síria em 18 de março (que, na verdade, começou ainda em janeiro).
Outro marco importante foi o 15M espanhol (conhecido como a manifestação dos indignados com a política tradicional, em maio de 2011 em Madri, se expandindo para outras cidades). Em seguida, surgiram uma série de movimentos do tipo Occupy inspirados pelo 17S (o Occupy Wall Street no Zuccotti Park, em Nova York, em 17 de setembro de 2011).
Em 2013, houve outra onda de manifestações, com o #DirenGezi na Turquia e os protestos de junho de 2013 no Brasil (especialmente nos dias 17 e 18 de junho). Em 30 de junho de 2013, como mencionado anteriormente, ocorreu a maior manifestação da história, com 20 milhões (ou mais) de pessoas nas ruas e praças de várias cidades do Egito.
Posteriormente, surgiram muitas outras, desde a Praça Maidan na Ucrânia em 2014-2015 até Hong Kong em 2019-2020 e nos anos seguintes. A Ucrânia foi invadida pela Rússia de Putin. Hong Kong foi controlada e disciplinada pela China de Xi Jinping.
Muitos analistas apressados podem afirmar que tudo isso não resultou em nada. No entanto, não questionam qual era o objetivo real desses movimentos. Eles foram explosões de descontentamento com a forma como o sistema operava, não golpes, insurreições lideradas por uma vanguarda revolucionária, ou operações de forças organizadas (e armadas) para conquistar o poder.
As mudanças provocadas por esses movimentos sociais (muitas das quais ainda estão por se manifestar) são, como mencionado, sutis. Seu impacto se desenrola em um ritmo diferente dos movimentos políticos de transição de poder. Como na anedota chinesa, quando questionado, no início dos anos 1990, sobre o impacto da Revolução Francesa de 1789, Deng Xiaoping teria respondido: “Ainda é cedo para avaliar”.


