Mercado livre de gás chega aos 100 usuários. E agora?
PIPELINE. Expansão do mercado de gás natural alcança marco de 100 usuários livres. Para o próximo ano, prevê-se continuidade no crescimento, porém impactos da guerra ainda são avaliados.
Mato Grosso do Sul atualiza normas para contabilidade da MSGás. Comgás recebe propostas para interconexão de instalações de biometano. Guerra pode alterar investimentos das grandes empresas em GNL e muito mais. Confira:
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EDIÇÃO APRESENTADA POR:
A abertura do mercado brasileiro de gás natural teve um avanço em 2025 e agora atingimos o marco de 100 usuários livres no setor industrial.
Qual o próximo passo? Esse será um dos temas discutidos na gas week 2026, o principal evento do mercado de gás do Brasil.
Save the date! O evento está agendado para 28 e 29 de abril, no Complexo Brasil 21, em Brasília, e reunirá líderes do setor (autoridades do governo federal, legisladores, reguladores, players de mercado e grandes investidores) para debater questões relevantes para a comunidade do gás.
A edição deste ano traz novidades: pela primeira vez, o evento terá a duração de dois dias; e contará com a nova Arena Gas Match, espaço projetado para conectar oferta e demanda em um ambiente focado exclusivamente em negócios e certificado pela Associação Brasileira das Empresas de Gás Canalizado (Abegás).
Anote na agenda e garanta seu ingresso (vagas limitadas).
Enquanto o evento não chega, o newsletter da semana oferece uma prévia do que está por vir, focando no marco de 100 clientes livres e olhando para o futuro: quais são as perspectivas para a abertura do mercado em 2026?
O mercado livre em números
Um levantamento da agência eixos, com base em dados públicos da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), revela que 2025 foi um ano significativo para o mercado livre de gás no Brasil.
- 62 indústrias assinaram seus primeiros contratos no mercado livre em 2025, mais que dobrando a quantidade de usuários livres no país;
- a lista inclui grandes empresas como GM, Eurofarma, Bridgestone, Unilever, Vallourec, entre outras;
- e ao final do ano, 108 indústrias* tinham algum tipo de contrato no mercado livre.
Do lado da oferta:
- 12 comercializadores diferentes possuem ao menos um contrato no mercado livre;
- em termos de clientes livres, a liderança pertencia à Edge, seguida pela Petrobras – que ampliou sua presença no segmento e lidera em volumes.
A Petrobras, inclusive, comunicou que alcançou a marca de 6,6 milhões de m³/dia de volume contratado na modalidade firme inflexível em 2025 no mercado livre. Segue o ranking dos cinco maiores comercializadores (em número de clientes):
- Edge (31 usuários livres)
- Petrobras (23)
- Galp (18)
- J&F (14)
- Shell (9)
Um breve histórico. Embora o primeiro contrato do mercado livre de gás remonte ao final dos anos 2000, entre a Petrobras e Furnas, foi somente em 2021 que as primeiras indústrias se aventuraram a entrar no ambiente livre, seguindo a abertura do setor de gás natural.
Na ocasião, Proquigel, Gerdau e a Refinaria de Mataripe ingressaram no mercado livre. Cinco anos depois, o número de clientes livres no setor industrial é consideravelmente maior agora, embora ainda haja espaço para expandir.
- o número inclui usuários livres que consomem biometano também, como os clientes da Ecco Distribuidora de Gás, que fornece o biocombustível da Cocal e que são considerados consumidores livres pela ANP.
E para onde caminha o mercado livre em 2026?
As projeções para o mercado livre em 2026 continuam positivas.
A Thymos Energia estima um crescimento de 30% no número de usuários livres no próximo ano, enquanto a NewGas prevê um aumento de 10% a 15%.
Bruno Resende, gerente de Gestão de Gás da NewGas, menciona que a expansão acompanha a diversificação dos consumidores livres, à medida que os comercializadores ampliam seu alcance em busca de indústrias cada vez menos intensivas em gás, visando expandir seus respectivos portfólios.
Além disso, segundo ele, a revisão gradual das regulamentações estaduais para promover a abertura tende a desbloquear novos mercados – como os casos recentes do Ceará e Mato Grosso do Sul.
Após o período de final de ano, as migrações normalmente desaceleram – até ganharem força novamente a partir do segundo trimestre.
Neste ano, uma novidade é o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP), em 18 de março, para onde os esforços comerciais dos vendedores de gás convergem neste momento.
A expectativa, conforme a diretora técnica da NewGas, Renata van der Haagen, é que após o certame, as negociações voltem a se intensificar no mercado livre a partir de abril.
A gerente de Gás Natural da Thymos Energia, Jamille Moreira, acrescenta que há uma certa estagnação das migrações em São Paulo, o principal centro industrial do país.
Ela relata que alguns usuários reduziram o ritmo de migrações recentes, devido ao aumento da competitividade do mercado cativo – pontualmente, devido à devolução integral do saldo da conta gráfica da Comgás aos consumidores no final do ano.
A consultora menciona que, com o novo reajuste das tarifas da distribuidora em março, o mercado livre voltou a se tornar competitivo.
“Agora temos a aprovação para prosseguir com a migração”, comenta.
Ela pondera, no entanto, que nem todas as incertezas foram dissipadas. E destaca a devolução dos créditos tributários de R$ 2 bilhões, recentemente regulamentada pela Arsesp, o regulador paulista, que pode novamente impactar a competitividade entre os ambientes livre e cativo.
“Essa incerteza nos custos do cativo gera insegurança para os usuários interessados em migrar”, comenta Jamille Moreira.
A guerra influencia os planos?
Certamente, a guerra no Oriente Médio é um fator a ser considerado. Na semana passada, analisamos como o conflito pode afetar o mercado brasileiro.
O impacto sobre os preços do gás no mercado interno tende a ser diluído, dependendo da duração do conflito. A situação ainda é incerta e as perspectivas para o mercado livre têm diferentes nuances.
Jamille, da Thymos, destaca que o mercado livre é onde o consumidor pode buscar proteção contra a alta do petróleo.
O Brent é o principal indexador do gás nos contratos de suprimento no mercado brasileiro, tanto no ambiente cativo quanto no livre, mas na relação direta com os fornecedores, os consumidores têm mais espaço para negociação.
“Em geral, [o aumento nos preços] deveria estimular a migração para o mercado livre, onde os agentes buscam um percentual de indexação ao Brent menor do que o das distribuidoras”, comenta a consultora.
Por outro lado… a valorização do petróleo – que na semana passada ultrapassou o marco simbólico de US$ 100 o barril – tende a encarecer o custo do m³ do gás, seja em qualquer ambiente de contratação.
Renata van der Haagen, da NewGas, acrescenta que ainda não está claro como a guerra pode influenciar (ou não) as propostas dos comercializadores – que, aliás, não formam um grupo homogêneo.
“Cada agente percebe o risco de maneira diferente. Alguns indicam que as propostas podem aumentar e outros que manterão as negociações nos mesmos termos. Os comercializadores ainda estão tentando prever para onde os preços vão no mercado internacional e, até o momento, as propostas não mudaram significativamente para a maioria dos casos”
Nos contratos de final de ano, a precificação do gás no mercado livre girou em torno de 10,6% a 11% do Brent.
“Não acredito que teremos uma grande disparidade nos preços do mercado interno devido à guerra, como ocorreu em 2022, porém é fato que o preço em Real por m³ ficará mais alto. Isso também se refletirá no cativo”, completou.
O amadurecimento do mercado livre
Após ganhar impulso, o mercado livre caminha em direção a um processo de amadurecimento que envolve o aumento do foco dos agentes nas operações spot (de curto prazo) e na digitalização dos processos, segundo Antônio Quirino, CEO da GasHub.
“A maioria das indústrias migrou para o mercado livre, porém ainda mantém estruturas contratuais muito semelhantes às do cativo. Com um pouco mais de flexibilidade e preços ligeiramente menores, mas não houve tantas mudanças”, destaca.
Jamille Moreira também prevê um crescimento do gás spot. Ela ressalta que o mercado de curto prazo é uma opção interessante para consumidores que desejam evitar penalidades associadas ao gás de ultrapassagem – volumes acima do planejado.
Ela acredita que a figura do usuário livre que contrata a saída no sistema de gasodutos de transporte também tende a se consolidar gradualmente no mercado brasileiro.
“Ter a opção de escolher dá ao usuário autonomia para aproveitar oportunidades spot, o que é muito importante”, destaca.
Uma outra tendência, segundo ela, é o aumento do interesse dos consumidores livres por contratos um pouco mais longos, de mais de um ano, do tipo ‘escadinha’ – com volumes decrescentes contratados ao longo dos anos.
ANP começa a discutir gas release
Com o crescimento do mercado livre, a ANP começa a trabalhar em uma proposta de programa de desconcentração da oferta — que poderá liberar volumes para comercializadores e usuários livres.
A agência planeja iniciar a implementação de um programa de gas release a partir de 2027, com metas anuais de redução da participação da Petrobras, o principal player, anunciou o regulador durante workshop com agentes do mercado, no Rio de Janeiro, em 10 de março.
O objetivo é introduzir a minuta de resolução em consulta pública entre outubro e novembro e concluir a regulamentação do gas release até o final do ano.
A ANP compartilhou algumas das diretrizes preliminares para o programa durante o encontro com a indústria de gás:
- acelerar a entrada e a expansão de comercializadores no mercado de gás firme não-termelétrico na malha integrada (excluindo o consumo no downstream), reduzindo a dependência da Petrobras;
- estabelecimento de metas anuais intermediárias e mecanismos de ajustes para o 1º ciclo 2027-2030;
- participantes elegíveis: comercializadores (sem relação de controle/coligação com a Petrobras) e consumidores livres;
- Produto: pacote molécula + capacidade de infraestruturas até o ponto de entrega, com duração de 12 meses para cada liberação (podendo ser semestral no 1º ano).
A iniciativa enfrenta resistência da Petrobras, que se opõe a qualquer proposta de gas release.
O diretor-geral da ANP, Artur Watt, destacou que o Brasil precisa de um “diálogo franco e aberto” sobre o gas release, porém não pode ignorar o papel fundamental da Petrobras na promoção de investimentos para aumentar a oferta de gás, especialmente em um cenário de riscos para a segurança energética global.
“Acredito que não devemos interferir de forma alguma para não reduzir os investimentos na produção, especialmente de gás nacional em tempos de insegurança energética”, afirmou, na abertura do workshop.
GÁS NA SEMANA
Distribuição. A Agems, regulador do Mato Grosso do Sul, publicou uma nova portaria para aprimorar o funcionamento da Conta Gráfica da MSGás. Inicialmente aplicado aos segmentos residencial, comercial e de cogeração, o modelo poderá ser expandido para outros setores, como industrial e GNV.
Guerra no Oriente Médio. O aprofundamento do conflito pode prejudicar os planos de expansão das majors no Catar e


