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Michelle faz país lembrar como o bolsonarismo trata a imprensa

Michelle faz país lembrar como o bolsonarismo trata a imprensa

Michelle faz país lembrar como o bolsonarismo trata a imprensa

Sei que este assunto não é popular e eu mesmo não o considerava relevante até vivenciá-lo. Por isso, não posso ignorá-lo. No sábado, 14, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro compartilhou um vídeo que acusa, sem apresentar qualquer evidência, jornalistas de desejarem a morte do ex-presidente Jair Bolsonaro enquanto cobriam sua internação no Hospital DF Star, em Brasília.

O vídeo mostra uma influenciadora bolsonarista abordando repórteres que estavam do lado de fora do hospital, acompanhando as notícias sobre o estado de saúde do ex-presidente, que estava internado na UTI devido a uma pneumonia bacteriana decorrente de broncoaspiração.

Na gravação, a mulher acusa os jornalistas de discutirem a possibilidade de morte de Bolsonaro e os confronta diante das câmeras. No entanto, em nenhum momento são exibidas as supostas falas que ela atribui aos profissionais. Mesmo assim, o vídeo foi divulgado com a legenda de que os repórteres estavam reunidos desejando a morte de Bolsonaro e comemorando por ser sexta-feira 13.

O impacto foi imediato. Após a circulação do vídeo, os jornalistas presentes no local passaram a ser identificados nas redes sociais e sofreram ataques. Dois profissionais registraram boletins de ocorrência após serem intimidados. Um deles relatou que seu filho foi ameaçado e teve que fechar suas contas nas redes sociais.

De acordo com a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), circularam montagens e vídeos produzidos com inteligência artificial simulando violência contra uma das repórteres — incluindo uma falsa gravação em que ela aparece sendo esfaqueada.

A vida dos jornalistas está em perigo

Coincidentemente, alguns dias antes, recebi uma ameaça séria por e-mail. A mensagem estava relacionada a uma reportagem que fiz na Argentina sobre os foragidos do 8 de janeiro, que completaram um ano na semana passada.

“Seu nome já está na lista de todos aqueles que irão pagar pela perseguição cruel e injusta dos condenados injustamente pelos criminosos estabelecidos no poder. Em momento oportuno, a justiça será feita. Aguarde!”, dizia a mensagem recebida na última quinta-feira, 12.

Registrei um boletim de ocorrência e agora estou mais preparado para lidar com esse tipo de situação. No entanto, revivi tudo o que passei no ano anterior: as ameaças de morte, a difamação, a mudança forçada de estado. Preferiria nunca mais ter que lidar com isso.

No entanto, essa nova ameaça e o que ocorreu no fim de semana com meus colegas que estavam no hospital mostram que o problema não desapareceu. Pelo contrário, é uma clara evidência do que pode estar por vir.

Caso o Brasil passe por um governo Flávio Bolsonaro, os jornalistas precisam compreender desde já qual será o clima político no país. E, principalmente, os donos dos veículos de comunicação precisam estar cientes.

Após o incidente envolvendo o colunista Lauro Jardim e o banqueiro Daniel Vorcaro, ouvi de um jornalista experiente uma frase que ficou marcada em minha mente. Segundo ele, agora a Globo iria até o fim no caso Master, pois a família Marinho pode ter muitos defeitos, mas não tolera ataques aos seus jornalistas.

Não posso afirmar se isso é verdade, mas sinceramente espero que sim. E espero que os proprietários de todos os veículos de comunicação no Brasil percebam rapidamente o que está em jogo nesta eleição. Não se trata apenas de poder político, mas sim da própria existência do jornalismo e da vida daqueles que o praticam.

Onde está a indignação?

Na semana passada, o jornalista Luís Pablo Conceição Almeida, do Maranhão, foi alvo de busca e apreensão determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, após suas reportagens sobre o também ministro do STF Flávio Dino. Essa medida gerou forte reação pública e acusações de intimidação à imprensa.

Sou contra esse tipo de medida e expressei minha opinião dessa forma. No entanto, chama atenção o fato de que o caso dos repórteres no hospital e as ameaças que recebi recentemente dificilmente terão uma décima parte da repercussão, mesmo envolvendo jornalistas de veículos de projeção nacional. Isso não ocorre por acaso, mas sim porque, no Brasil atual, a defesa da liberdade de expressão se tornou seletiva.

No caso do jornalista maranhense, o que se observa é uma solidariedade oportunista, acionada apenas quando convém para desgastar o STF — que, sim, pode cometer erros e deve ser criticado —, mas abandonada quando jornalistas se tornam alvos de campanhas de ódio nas redes sociais e nas ruas. Não existe liberdade de imprensa seletiva. Ou se defende os jornalistas sempre, ou não se defende nunca.

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