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Morte de Titina Medeiros acende alerta médico sobre câncer de difícil detecção: ‘Agressividade extrema’

by admin

A morte da atriz Titina Medeiros, aos 49 anos, neste domingo, reacendeu um alerta sobre um dos tipos de câncer mais agressivos da medicina. Conhecida do grande público por sua atuação marcante em Cheias de Charme, novela que a apresentou nacionalmente, a artista enfrentava um câncer de pâncreas, doença que costuma evoluir de forma silenciosa e, na maioria dos casos, é descoberta em estágios avançados.

A trajetória de Titina foi marcada por personagens populares, presença forte em cena e uma conexão genuína com o público. Fora das telas, no entanto, ela travava uma batalha dura e discreta contra uma enfermidade que desafia até os avanços mais recentes da oncologia. A comoção em torno de sua partida também abriu espaço para um debate necessário sobre diagnóstico, riscos e limites do tratamento dessa doença.

Em entrevista à CARAS Brasil, o oncologista, mastologista e cirurgião oncológico Dr. Wesley Pereira Andrade detalhou por que o câncer de pâncreas ainda assusta médicos e pacientes, mesmo diante da evolução da medicina.

Um câncer que cresce em silêncio e impõe grandes desafios

Segundo o especialista, o principal obstáculo no enfrentamento da doença está na forma como ela se desenvolve no organismo. “Ele cresce em silêncio, dá poucos sinais e, quando se manifesta, muitas vezes já é tarde. O câncer de pâncreas é hoje um dos maiores desafios da oncologia moderna — não pela alta incidência, mas pela alta letalidade: cerca de 80-90% dos pacientes diagnosticados com câncer de pâncreas irão falecer pela doença”, explica.

Os números ajudam a dimensionar a gravidade do cenário. Embora seja menos frequente que outros tipos de câncer, seu impacto é desproporcionalmente alto. “No mundo, são cerca de 500 mil novos casos por ano. No Brasil, mais de 11 mil pessoas recebem esse diagnóstico anualmente. Embora represente apenas cerca de 2% de todos os cânceres, o câncer de pâncreas responde por até 5% das mortes oncológicas, um dado que revela sua agressividade extrema”, afirma.

O comportamento silencioso do tumor está diretamente ligado à anatomia do órgão afetado. “O pâncreas é um órgão profundo, localizado atrás do estômago, responsável por funções vitais como a produção de insulina e enzimas digestivas. Essa localização anatômica favorece o crescimento ‘escondido’ do tumor”, diz o médico.

De acordo com ele, a doença costuma avançar sem chamar atenção nos estágios iniciais. “Na maioria dos casos, o câncer se desenvolve nos ductos pancreáticos e progride sem causar sintomas claros nas fases iniciais”, detalha.

Quando os sinais surgem, já costumam indicar um quadro mais avançado. “Quando os sinais aparecem, eles costumam ser vagos: dor abdominal ou nas costas, perda de peso inexplicada, fadiga, náuseas e vômitos. A icterícia — pele e olhos amarelados — surge geralmente quando a doença já compromete estruturas importantes, o que acende o maior alerta para o paciente e para a equipe médica”, completa.

Diagnóstico tardio, tratamento limitado e fatores de risco

A ausência de métodos eficazes de rastreamento é outro ponto crítico no combate à doença. “Diagnóstico tardio, prognóstico limitado. Não existe, até hoje, um método eficaz de rastreamento populacional para o câncer de pâncreas”, explica o especialista.

Esse fator impacta diretamente nas chances de cura. “Assim, mais de 70% dos pacientes são diagnosticados em estágios avançados, quando a cirurgia — única possibilidade real de cura (associada em geral a outros tratamentos) — já não é viável pois o tumor já se alastrou para outras regiões”, afirma.

O caminho até a confirmação do diagnóstico envolve exames específicos. “A tomografia computadorizada é o principal exame que leva a suspeita clínica, complementado pela ecoendoscopia. A biópsia da área suspeita é essencial para fechar o diagnóstico”, pontua. Ele ainda ressalta que exames laboratoriais têm papel limitado. “Marcadores tumorais como o CA 19-9 ajudam no acompanhamento, mas não servem para diagnóstico precoce”, diz.

Entre os fatores de risco, o médico cita hábitos e condições clínicas bastante comuns. “Os principais fatores de risco são: tabagismo, etilismo, obesidade, pancreatite crônica, diabetes de início recente e histórico familiar aumentam o risco”, alerta.

Sobre o tratamento, Dr. Wesley reforça que, apesar dos avanços, os resultados ainda são restritos. “Tratamento: avanços ainda insuficientes. A cirurgia é indicada para apenas 15 a 20% dos pacientes, aqueles diagnosticados precocemente. Mesmo nesses casos, trata-se de procedimentos complexos, de alto risco e que exigem centros especializados”, explica.

A quimioterapia trouxe ganhos importantes, mas limitados. “A quimioterapia evoluiu nos últimos anos, com esquemas mais modernos e eficazes, capazes de prolongar a sobrevida e melhorar a qualidade de vida”, diz. Outras abordagens também podem ser usadas em casos específicos. “Radioterapia, terapias-alvo e imunoterapia podem também ser úteis, entretanto, beneficiando apenas um subgrupo específicos de pacientes por um período limitado de tempo”, acrescenta.

Os números finais ajudam a entender por que o câncer de pâncreas ainda é visto como um dos mais letais. “Apesar desses avanços, os números continuam duros: sobrevida global em 5 anos quando consideramos todos os estadiamento ao diagnóstico: cerca de 10%”, afirma. “Quando o tumor é identificado como doença localizada e operável: chance de cura de até 30–40%. Já quando diagnosticado com doença metastática: sobrevida média inferior a 1 ano”, completa.

Para o médico, o cenário se explica por um conjunto de fatores. “Essas altas taxas de mortalidade se dão devido: crescimento silencioso, diagnóstico tardio, biologia tumoral agressiva e resistência aos tratamentos. Diferentemente de outros cânceres, onde a prevenção e o rastreamento mudaram a história da doença, o câncer de pâncreas ainda não teve sua ‘virada’”, conclui.

Dr. Wesley Pereira Andrade

O oncologista é MD, Ph.D., mestre e doutor em Oncologia, além de mastologista e cirurgião oncologista. Dr. Wesley Pereira Andrade é médico titular da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e médico titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica.
Médico – CRM-SP – 122593 RQE 27534 RQE 27535

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