×

O agente político sem comunidade política

O agente político sem comunidade política

O agente político sem comunidade política

O político profissional sem ligação com a comunidade política

Publicado também na revista Inteligência Democrática

Neste texto, abordarei o político “profissional” que atua como um agente político sem vínculo com a comunidade política. Não estou me referindo aos líderes (ou proprietários) de partidos, seus representantes ou seguidores, nem aos militantes partidários, seculares ou religiosos.

A democracia representativa dos tempos modernos deu origem a esse novo tipo de ator político: o político profissional sem ligação com a comunidade política. Essa novidade foi significativa, pois destacou o papel do indivíduo na política, essencial para o surgimento da democracia liberal contemporânea, mas também revelou desafios para a própria democracia. Vamos chamá-lo, de forma provisória devido à inadequação da expressão, de empreendedor individual da política.

Ele se assemelha ao empreendedor individual em uma economia de mercado. É como o dono de uma empresa com um produto único: ele mesmo. É um empreendedor, sem dúvida, mas de si mesmo.

A trajetória do político profissional sem ligação com a comunidade política – doravante referido, salvo indicação em contrário, como EIP (Empreendedor Individual da Política) – é sempre marcada por desvios e mudanças inesperadas de curso. O foco é individual: a sobrevivência política – não de um projeto, mas do próprio eu-ator. O risco constante é o oportunismo.

Não se deve ser excessivamente crítico em relação ao EIP. Todo político “profissional” – alguém que faz da política sua fonte de renda – possui certo grau de oportunismo. É algo que ele aprendeu interagindo com seus aliados e concorrentes, com aliados que se tornaram concorrentes e com concorrentes que se tornaram aliados. Cada um cuida de si. Lealdade não é um valor prático. Ele reinterpreta a famosa frase, frequentemente atribuída a Charles de Gaulle, de que “a ingratidão é um dever do estadista”. E normaliza isso ao confundir os interesses do Estado com seus próprios interesses.

O EIP não atua sozinho. Ele tem colaboradores, assessores e, principalmente, admiradores que considera potenciais eleitores. Pode até contar com muitos aliados, mas sempre temporários, que mudam conforme a conveniência. O critério para o que é conveniente em cada momento é sempre a escolha da opção que mais beneficia a carreira do eu-ator.

Portanto, é improvável que o agente político com um alto grau de oportunismo tenha empatia. Dificilmente avaliará suas ações com base em critérios como harmonia e cooperação em uma rede de interações. Na realidade, ele não se sente parte de uma comunidade política – e, assim, não consegue experimentar a liberdade no sentido democrático original do termo: o prazer de conviver na polis (não a cidade-Estado, mas a comunidade política). O EIP – como um agente político sem ligação com a comunidade política – não está disposto a permitir que alguém questione suas decisões, tomadas de forma solitária pelo eu-ator. Após decidir fazer algo, ele tenta convencer seus colaboradores a seguirem o caminho que ele escolheu. Ou nem isso. Seu pessoal não questiona.

O EIP mobiliza pessoas, mas não cria redes de relacionamento. Ele aposta, sim, e muito, em estabelecer conexões. Na verdade, espera construir redes e se beneficiar delas. Porém, tudo é instrumental. Ele encara a rede como um meio para atingir um objetivo, mas não sente que vive em uma rede. Ele dita o objetivo. Não espera que ele surja da interação com seus pares. Não existem pares (outros nós equivalentes com múltiplos caminhos entre si). O EIP é um indivíduo social vagando em um ambiente fluido.

Embora possa ter muitos seguidores (nas redes sociais) e eleitores, o EIP conta com poucas pessoas para empreender qualquer ação coletiva. Quase tudo o que faz precisa ser financiado por ele próprio ou por alguém que o patrocina (sim, ele tem amigos, apoiadores, doadores, financiadores – caso contrário, não conseguiria realizar o que faz). As pessoas confiam nele como seu representante, votam nele no dia da eleição, mas não se sentem responsáveis por realizar tarefas em conjunto. Portanto, o número de voluntários em seus projetos é sempre limitado. O EIP não tem uma rede ou possui uma rede pouco conectada ou com poucos laços internos. Dificilmente consegue reunir um grupo de pessoas que não sejam seus funcionários e que permaneçam juntas por um período prolongado realizando a mesma atividade, ou até que um projeto comum seja concluído. Em geral, não há projetos em conjunto. É o projeto dele.

O EIP faz parte de um partido onde isso é obrigatório para concorrer a cargos eletivos, mas não simpatiza muito com partidos. Nisso, ele pode até ter razão, mas não pelos motivos corretos – pois os partidos não são redes (comunidades políticas), mas hierarquias, organizações privadas que buscam chegar ao Estado para se apropriar dele e dos seus recursos, distribuindo-os de forma desigual para seus seguidores e, além disso, limitando sua autonomia para se posicionar e agir de acordo com o que considera melhor para sua carreira em determinado momento.

O EIP, como mencionado anteriormente, atua como um empreendedor de si mesmo. Em graus mais extremos de oportunismo, age como um empresário “selvagem” ou seguindo aquele “instinto assassino” mencionado por Donald Trump em 1980, ao se referir à competição acirrada e à busca pela vitória. Isso também evoca a expressão “espírito animal” usada anteriormente por John Maynard Keynes (1936), ao afirmar que, sem esse impulso emocional e instintivo, o capitalismo simplesmente para. Sim, o EIP tem relação com o capitalismo. Ele não teria surgido em outro contexto econômico.

No entanto, é importante esclarecer que o que impulsiona o EIP não é o lucro, o ganho material ou financeiro. Ele precisa de recursos financeiros e materiais para sobreviver, financiar suas campanhas eleitorais ou obter cargos no Estado, nem sempre obtidos de forma legal, mas seu objetivo principal não é enriquecer e ter sucesso na vida, e sim alcançar a vitória e a glória.

Mas há aspectos positivos. Esse tipo de agente sem ligação com a comunidade política geralmente é um defensor da democracia, no sentido mais amplo da palavra; ou seja, ele prefere a democracia à autocracia. Afinal, sua vida depende disso, da disputa por cargos representativos regulamentada por normas claras (constitucionais). Ele sabe que, em uma ditadura, perderia sua autonomia e seu papel e sua fonte de renda desapareceriam. Contudo, sendo um democrata nesse sentido amplo, o EIP não se opõe sistematicamente a um governo tendencioso ao autoritarismo ou populismo (ou seja, iliberal). Ele não faz isso porque não quer ser visto como alguém “contra”, o que dificultaria sua atuação em diversos segmentos do cenário político. Além disso, não quer ser malvisto pela imprensa, caso essa imprensa esteja em grande parte alinhada a um governo populista que mina o sistema eleitoral, colocando-o em um processo de iliberalização.

Esse tipo de agente prefere falar sobre si mesmo, sua história, suas realizações, seus projetos. Ele deseja ser visto como uma pessoa positiva. Por isso, concorda com facilidade. Quando percebe uma ampla corrente de opinião defendendo uma posição, ele adere. Caso não seja tão evidente, ele se omite, mesmo que sua inclinação democrática indique que deveria se posicionar, permanecendo potencialmente em minoria. Minoritário? Não – ele pensa – isso não será bom para minha carreira.

O EIP aprecia a democracia, mas principalmente porque a encara como seu campo de atuação. É nesse campo que ele tentará a sorte, vencer e encontrar um propósito para sua vida como ator político. Ele não compreende que, ao fazer isso, está desperdiçando o melhor da democracia – não é a vitória, não é a glória conquistada na luta, mas sim a experiência da liberdade.

No entanto, ele busca incessantemente o sucesso. Não adianta lembrá-lo da frase atribuída a Golda Meir – no filme “Golda”, de Guy Nattiv (2023) – que “toda carreira política termina em fracasso”.

Pois, para qualquer agente político que tenha uma comunidade política, não se trata apenas de uma carreira, mas de viver como um ser político. Isso implica ser um articulador de redes, ou seja, um facilitador e promotor de uma rede de democratas. O EIP não compreende que, do ponto de vista da democracia como estilo de vida, isso já é o maior sucesso que um agente político poderia alcançar. Aliás, ele não compreende porque, para ele, a democracia é apenas um sistema político, não um modo de vida. É a regra do jogo, mas não é o jogo.

Um EIP não vive, de fato, como um ser político e, portanto, não será um democrata no sentido mais amplo do termo. Pois é impossível que alguém exerça o papel de agente democrático sem uma comunidade política. Opor-se e resistir a qualquer forma de tirania, seja de esquerda ou de direita, secular ou religiosa; rejeitar a guerra (ou não encarar a política como uma continuação da guerra por outros meios); repudiar o majoritarismo, o hegemonismo e a divisão entre “nós” e “eles”, pois a política não é guerra, mas sim a busca pela paz; e promover a formação de uma opinião pública democrática – todas essas são ações que ninguém consegue realizar sozinho.

Sem a prática contínua do diálogo democrático, a democracia definha. Sem ambientes propícios para a realização de projetos comuns democratizantes, baseados na convergência de desejos dos participantes, a democracia perece. Porém, essa é uma conversa que não interessa muito ao EIP. Ele pode concordar intelectualmente com esses princípios, mas não mudará seu comportamento.

Agora, em um mundo e no Brasil onde estamos cercados por reacionários disfarçados de conservadores e revolucionários travestidos de “progressistas” – ambos populistas e, como tal, contrários à democracia liberal – o EIP não pode oferecer muita ajuda. Pois, nessas circunstâncias, é essencial fazer o que o EIP não faz: estabelecer comunidades políticas (redes humanas, mais distribuídas do que centralizadas), verdadeiras “pólis paralelas” (interativas), capazes de gerar novos agentes democráticos (reformistas liberais-inovadores), aumentando seu número até atingir o nível crítico necessário para promover o surgimento de uma opinião pública democrática, resistir às tiranias e aos processos de autocratização (seja por meio de golpes de Estado ou pela conquista de hegemonia) e experimentar a democracia como estilo de vida, criando padrões democráticos capazes de se reproduzir.

Créditos