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Por que argentinos estão buscando novas oportunidades de trabalho no Brasil

Por que argentinos estão buscando novas oportunidades de trabalho no Brasil

Por que argentinos estão buscando novas oportunidades de trabalho no Brasil

Por que argentinos estão procurando novas oportunidades de emprego no Brasil

Uma recente mudança na política do governo argentino, com a decisão do presidente Javier Milei de abolir os preços mínimos para a erva-mate, teve um impacto significativo na economia da província de Misiones. Isso resultou em uma queda acentuada nos preços do produto, levando a uma migração em massa de trabalhadores rurais da região, especialmente aqueles especializados na colheita da erva-mate. Em busca de condições de trabalho mais favoráveis, muitos desses argentinos decidiram se deslocar para o Brasil, principalmente para o estado do Rio Grande do Sul.

De 2016 a 2021, a Receita Federal registrava cerca de 8.000 CPFs concedidos anualmente a cidadãos argentinos, mas em 2025 esse número saltou para quase 40 mil. Esses dados refletem o êxodo da região de Misiones, um dos principais polos produtores de erva-mate, situado na tríplice fronteira com o Brasil, abrangendo estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. A erva-mate é um item essencial no consumo de chimarrão, típico dos países do Mercosul. No entanto, o fim da política de preços mínimos, estabelecida em 2002, acarretou sérias consequências aos trabalhadores locais.

O valor da erva-mate, anteriormente fixado em 420 pesos (aproximadamente R$ 1,57) por quilo, despencou para 180 pesos (cerca de R$ 0,67), tornando o setor cada vez mais inviável para pequenos produtores e trabalhadores rurais. “As pequenas propriedades estão sendo abandonadas pelos trabalhadores. Felizmente, muitos têm conseguido migrar em grande número para o Brasil em busca de sustento para suas famílias”, afirmou Ángel Enrique Ozeñuk, produtor local.

Diante da crise, muitos trabalhadores, como Joaquin Rios, de 32 anos e pai de duas crianças, têm migrado para o Brasil em busca de novas oportunidades de emprego. Rios, que costumava receber 79 pesos (aproximadamente R$ 0,30) por quilo de erva-mate, agora encontrou trabalho na colheita de uvas na cidade gaúcha de Pinto Bandeira, onde a remuneração é significativamente superior: R$ 180 por dia. “Aqui, além do salário, oferecemos alimentação e alojamento. As condições de trabalho são muito melhores”, afirmou Rios.

A migração de argentinos para o Brasil não se restringe apenas à colheita de erva-mate. Lúcio Rodríguez Velasquez, um veterano que atua na colheita de diversas culturas como tomate, maçã, uva e morango, relatou ter trabalhado em cidades gaúchas como Flores da Cunha e Caxias do Sul. “Recebo R$ 180 por dia, consigo economizar mais da metade ao final do mês”, disse ele. Para Velasquez, a cultura local e a remuneração atraem muitos trabalhadores argentinos em busca de estabilidade financeira.

O aumento do número de trabalhadores argentinos no Brasil é uma tendência em ascensão. Cedenir Postal, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bento Gonçalves, notou um significativo aumento de imigrantes argentinos nas colheitas de uva no município nos últimos três anos. “Um vai chamando o outro. Eles encontram boas condições de trabalho, e os agricultores brasileiros pagam bem pela colheita da uva”, comentou Postal.

Os trabalhadores argentinos têm se mostrado adaptáveis ao trabalho formal, muitos sendo contratados pelo regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Essa mudança ocorreu após a descoberta de condições semelhantes à escravidão em algumas vinícolas do estado em 2023. Desde então, grandes vinícolas adotaram o regime temporário da CLT para evitar problemas legais e garantir melhores condições de trabalho.

Cedenir Postal, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bento Gonçalves, destacou a falta de mão de obra qualificada para a colheita. “Os argentinos são qualificados, possuem educação sólida e compreendem tanto a questão agrícola quanto a vida no campo”, afirmou. Isso tem sido fundamental para atender à crescente demanda por trabalhadores no campo, especialmente nas colheitas que são essenciais para a economia do Rio Grande do Sul.

O impacto da mudança na política de preços da erva-mate na Argentina também foi sentido no mercado internacional. Segundo Ilvandro Barreto, coordenador da Câmara Setorial da Erva-Mate no Rio Grande do Sul, a Argentina havia perdido espaço para o Brasil no mercado global. No entanto, a alteração na política de preços tornou o país mais competitivo. “Atualmente, a Argentina está trabalhando com preços semelhantes aos do Brasil, o que a torna mais competitiva no mercado internacional”, explicou Barreto.