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Porto Alegre volta a ser epicentro da luta internacional contra a extrema direita

Porto Alegre volta a ser epicentro da luta internacional contra a extrema direita

Porto Alegre volta a ser epicentro da luta internacional contra a extrema direita

Porto Alegre volta a ser epicentro da luta internacional contra a extrema direita

As ruas do centro de Porto Alegre novamente foram ocupadas por bandeiras, palavras de ordem e idiomas diversos em uma manifestação que evoca a história internacionalista da cidade. A capital gaúcha sediou a 1ª Conferência Internacional Antifascista em um momento simbólico: o ano em que se comemoram os 25 anos do Fórum Social Mundial.

A mobilização reuniu organizações populares, movimentos sociais e delegações internacionais em defesa da democracia – Foto: Jorge Leão

A Marcha Antifascista deu início à conferência, na tarde de quinta-feira (26), com milhares de pessoas percorrendo o centro histórico da cidade. O evento contou com a presença de líderes políticos, representantes de movimentos sociais e delegações de diversos países, buscando articular respostas ao avanço da extrema direita no Brasil e no mundo.

Para Ieda Leal, secretária de comunicação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Educação (CNTE), a marcha reflete a continuidade das lutas sociais em escala global. “É uma mensagem para o mundo de que não vamos desistir, que a democracia será defendida e que é crucial restaurar a felicidade no mundo”, afirmou.

Ieda Leal ressaltou a importância da mobilização internacional em defesa da democracia durante a Marcha Antifascista em Porto Alegre – Foto: Fabiana Reinholz

Memória política e articulação internacional

A realização do encontro em Porto Alegre está em sintonia com sua história como local de articulação global. O ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, caracterizou o fascismo como uma manifestação de um modelo excludente. “O fascismo é uma fase violenta do capitalismo”, defendeu, ao apoiar uma democracia fundamentada na participação popular.

Olívio Dutra enfatizou a importância da participação popular no combate ao fascismo – Foto: Jorge Leão

No âmbito internacional, o deputado português João Oliveira destacou a necessidade de coordenação entre a luta institucional e a mobilização social. “É viável termos um mundo diferente se as pessoas se unirem para construí-lo”, afirmou.

A eurodeputada Estrella Galán também enfatizou a importância do momento. “Estamos aqui 25 anos após a celebração do Fórum Social Mundial, porque agora, mais do que nunca, precisamos unir as forças dos povos para mostrar que, por meio das democracias, vamos deter o fascismo”, declarou. Segundo ela, não haverá “nenhum retrocesso” diante da supressão de direitos.

O ativista Thiago Ávila, coordenador internacional da Coalizão da Flotilha da Liberdade de Gaza, destacou que a conferência ocorre em um momento crucial da história, marcado pela disputa entre projetos de sociedade. Para ele, é essencial confrontar um modelo baseado na exploração e na guerra e construir alternativas fundamentadas no poder popular e na autodeterminação dos povos.

Ávila também salientou a importância de ações diretas, como as flotilhas de solidariedade à Palestina, e defendeu a mobilização internacional contra o que considera violações de direitos. “A grande batalha da nossa geração chegou”, enfatizou.

Thiago Ávila defendeu a mobilização internacional e o fortalecimento do poder popular durante a conferência em Porto Alegre – Foto: Katia Marko

No mesmo contexto, o cineasta Carlos Pronzato destacou a natureza simbólica do encontro ao resgatar a memória das lutas antifascistas. Ao comentar sobre o ambiente da conferência, ele mencionou que, 25 anos depois, o evento resgata o “clima do fórum”, em alusão ao Fórum Social Mundial. Pronzato também recordou o impacto das recentes enchentes na cidade, emocionando-se com a situação, mas realçando que a abertura da conferência trouxe de volta a “alegria do primeiro” fórum.

Educação e disputa de narrativas

No Brasil, o avanço da extrema direita tem afetado o campo educacional. A presidente do Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (Cpers), Rosana Zan, afirmou que os trabalhadores da educação foram alvo de ataques. “Estar aqui nesta grande marcha antifascista é fundamental para agir. É a hora certa”, declarou.

Participantes de diversos países se uniram ao movimento, reforçando a articulação global contra a extrema direita – Foto: Jorge Leão

O presidente estadual da Central Única dos Trabalhadores (CUT/RS), Amarildo Cenci, salientou que a conferência ocorre em um contexto global marcado por guerras, avanço do imperialismo e ataques à soberania dos povos. Para ele, o evento representa a retomada de uma agenda internacionalista, em diálogo com os 25 anos do Fórum Social Mundial, e defendeu a construção de um mundo “mais justo, solidário e pacífico”, o que, em sua visão, envolve o enfrentamento ao fascismo e às desigualdades globais.

O jornalista Breno Altman avaliou que a conferência desempenha um papel estratégico na articulação política. “Ela vai unir o esforço, a luta antifascista das mais diferentes regiões”, afirmou.

América Latina e organização popular

A perspectiva latino-americana foi enfatizada nas falas das delegações. O ativista mexicano Fernando Tecuatl defendeu a formação de alianças duradouras entre movimentos sociais. “Esperamos que se estabeleçam muitas alianças duradouras em todos os campos de luta”, afirmou.

Para Fernando Tecuatl, a situação atual demanda uma maior articulação internacional diante dos desafios enfrentados pelos povos – Foto: Fabiana Reinholz

Ao analisar o panorama do México, ele destacou as contradições no cenário político. “Não se trata exatamente de um governo de esquerda, mas foi possível devido ao desgaste popular em relação ao neoliberalismo”, observou. Para ele, o contexto exige uma mobilização contínua. “Estamos vivendo tempos muito difíceis. Por isso, a organização internacionalista é mais crucial do que nunca.”

Vindo da Argentina, Ingrid Urrutia ressaltou a necessidade de uma resposta coletiva. “A situação internacional é de guerras, crises e ataques aos direitos e às liberdades democráticas”, afirmou. Ela defendeu a “unidade na ação, unidade nas ruas, construindo mobilizações muito fortes” e destacou os recentes protestos contra o governo de Javier Milei.

Ingrid Urrutia defendeu a unidade nas ruas como resposta à crise social e política durante a conferência em Porto Alegre – Foto: Fabiana Reinholz

Outra militante argentina, Susana Hugo, declarou que está no Brasil para se opor ao avanço da direita e denunciou as repressões frequentes em seu país. “Somos reprimidos sempre na Argentina”, disse, ao mencionar aposentados, estudantes e trabalhadores como alguns dos afetados. Ela também destacou a força dos recentes movimentos, como a manifestação de 24 de março pelos desaparecidos da ditadura, e reiterou a continuidade da luta: “Eu me aposentei. O futuro não se aposenta”.

A dirigente guatemalteca Jessica Maria Riquiak-Egnay afirmou que sua participação na conferência está ligada ao compromisso com o internacionalismo e à luta pela terra. “Na Guatemala, há uma forte luta pela terra, mas estamos em conflito com o governo”, disse. Para ela, a resistência dos povos baseia-se na organização coletiva e na busca por alternativas: “É viável construir um mundo diferente”.

Jessica Maria Riquiak-Egnay destacou a luta pela terra e o internacionalismo durante a conferência em Porto Alegre – Foto: Fabiana Reinholz

O ativista André Frappier, de Montreal, no Quebec (Canadá), ressaltou a importância da conferência como um espaço de articulação internacional diante do avanço de agendas conservadoras globais. Ele também chamou a atenção para a repressão aos dissidentes russos, mencionando sua participação em um debate sobre o tema e a necessidade de solidariedade internacional na defesa dos presos políticos.

Amazônia, território e resistência indígena

A conferência também abriu espaço para os conflitos territoriais no Brasil. A indígena Auricélia Arapiun enfatizou a importância de trazer as experiências da Amazônia para o debate internacional. “É crucial trazer para cá as experiências das lutas travadas na Amazônia, contra todos os ataques aos nossos territórios, às nossas vidas, aos nossos povos”, afirmou.

Auricélia Arapiun levou as lutas dos povos indígenas em defesa dos territórios para o debate internacional – Foto: Katia Marko

Ela destacou que, apesar das conquistas recentes, como a revogação do decreto que permitia a concessão e privatização de hidrovias na Amazônia, os conflitos persistem. “Conseguimos revogar o decreto, mas não vencemos a batalha. Continuamos sob ataques, sob ameaças”, disse.

A liderança também ressaltou a dimensão coletiva da luta. “Houve muita luta espiritual também, muita ancestralidade envolvida e muito apoio popular”, afirmou. Auricélia defendeu a unificação das lutas. “Quando um território é ameaçado, todo o território está sob ameaça. Somente a luta unida pode mudar o curso de nossa própria história”, enfatizou.

Ao criticar as decisões políticas, ela apontou violações de direitos. “Estão decidindo sobre nossas vidas sem nos consultar se queremos ou não”, disse. Para ela, os modos de vida indígenas oferecem caminhos para enfrentar a crise global: “Se o mundo não aprender conosco, não conseguiremos mudar a realidade que vivemos hoje”.

Conflitos globais e solidariedade internacional

A dimensão geopolítica foi destacada por várias delegações. O cônsul cubano Benigno Pérez Fernandes denunciou o bloqueio econômico. “O império norte-americano busca sufocar o povo cubano”, declarou. No entanto, reforçou: “Outro mundo deve ser possível”.

Benigno Pérez Fernandes denunciou o bloqueio econômico contra Cuba durante a conferência em Porto Alegre – Foto: Fabiana Reinholz

O embaixador Ahmed Moulayali denunciou a ocupação do Saara Ocidental e buscou apoio internacional. Já o canadense André Frappier destacou a importância do debate global. “É fundamental discutirmos isso agora e encontrarmos alternativas internacionais”, afirmou.

O representante do Mali, Broulaye Bagayoko, ressaltou a importância da conferência como um espaço de articulação global contra o fascismo e o imperialismo. “Estamos aqui para combater as políticas ditadas pela extrema direita”, disse. Segundo ele, o encontro reúne esforços internacionais para enfrentar medidas que considera “desumanas e contrárias ao desenvolvimento”.

A 1ª Conferência Internacional Antifascista foi apresentada como o ponto de partida para articulações contínuas. Os participantes enfatizaram que o avanço da extrema direita requer respostas coordenadas em escala global.

A defesa de alianças duradouras, mobilização popular e integração entre diferentes lutas emergiu como um elemento comum entre as intervenções, indicando a tentativa de reconstruir uma agenda internacionalista.

Retomada de um ciclo histórico

O encontro também foi marcado pela evocação da memória do Fórum Social Mundial. Ao completar 25 anos, o evento volta a influenciar discussões sobre alternativas ao modelo econômico predominante.

A conferência continua com atividades e debates, visando consolidar uma rede internacional de combate ao fascismo em um contexto de instabilidade política e social em diversas regiões do mundo. Confira a programação completa aqui.